|
Informação Alternativa |
|
|
Europa |
|
|
Março 2006 Promessa,
desencanto e revolta: A aventura dos temporários portugueses na Holanda Pedro e Susana Paradela partiram para a Holanda a 4 de Julho do ano
passado. Levavam na mala um pacote de pequenos sonhos. Regressaram cinco
meses depois. Desiludidos e decididos. Este é um relato de viagem ao mundo
fechado do trabalho temporário. Queriam partir. Ela porque era professora em situação precária e só
teria serviço daí a seis meses. Ele porque se encontrava sem emprego. E
ambos, porque queriam fazer dinheiro antes de se decidirem a fazer meninos.
Viram um pequeno anúncio no JN que prometia trabalho bem remunerado,
casa, transporte para o emprego e começo imediato. Na Holanda, um país onde o
Pedro já trabalhara, há 15 anos, e do qual guardava boas recordações. E onde
a Susana já estivera por três vezes, e com gosto. Sexta-feira, 1 de Julho, foram à entrevista a casa do senhor
Monteiro, o recrutador da empresa holandesa The Five. A conversa decorre sem
novidades. Vista de Famalicão, a Holanda recomendava-se. Monteiro explicou
aos recrutas que o trabalho seria nas estufas de flores, que era duro, mas
seria bem pago – 15 euros à hora, pagamentos ao fim de cada semana, e horas
extraordinárias. Quanto à casa, tinha todas as condições. Apenas recomendava “paciência
e calma” para que se conciliassem os horários na cozinha. Sobre o contrato,
que estivessem tranquilos, seria feito à chegada. O casal fez contas. Ele, pasteleiro, ela professora de inglês, e
ambos precários, decidiram partir. «Antes de termos filhos, queríamos
aventura», explica o Pedro. Essa não faltaria à chamada. EM DEN HELDER, À ESPERA Segunda-feira, pelas dez da manhã, arrancaram numa Mercedes de nove
lugares. Com eles seguiam dois outros trabalhadores, a quem a empresa
emprestou os 150 euros que a viagem custava por cabeça. Um era reincidente.
Tinha 30 anos e uma vida que se encontrava amiúde com a Polícia. O outro, de
Braga, com mais de 40 anos, procurava a sua sorte. Chegaram a Den Helder, no
Norte da Holanda, no dia seguinte, pelas 15 horas. «Trinta horas sempre a
abrir», recorda a Susana. Aventura, portanto... E logo a seguir uma longa espera. Não havia trabalho que chegasse.
Em casa, a meio da tarde, estavam 15 pessoas. De noite seriam umas 80. Como
casal tiveram direito a quarto. Outros, com menos sorte, dormiam em beliches
e se o movimento era muito, o sotão armazenava os mais novos. Durante semana e meia, Pedro e Susana não trabalharam nem
conseguiram chegar à fala com o responsável da The Five, um tal Ielsin.
Quando a reunião ocorreu, a lista dos pendentes era longa. “Quando se começa
a trabalhar”? “As coisas vão melhorar”, garantiu Ielsin. “Soubemos que o
salário é a 5 euros à hora e não foi o que nos prometeram”, explicou Susana. “É
mentira, isso depende do trabalho e tenham calma que vão ver”, retorquiu-lhes
o outro. “E contrato”? “Vai ser tratado, primeiro é necessário abrir conta e
obter o número fiscal no belastingdienst (serviço de finanças)”.
Perguntaram ainda pela Segurança Social. Ielsin informou‑os de que a
empresa fazia o seguro e que ele seria descontado automaticamente no salário
a depositar ao fim da semana. Entre a primeira e a segunda conversa, a
realidade daquela terra batida pelos ventos do mar do Norte, apresentava‑se
sem rodeios. Mas nem sonhar em desistir. Já haviam consumido parte dos 600 euros
que tinham trazido para emergências, e não quiseram reconhecer o seu engano
ante a família. Nos dias seguintes, as coisas pareceram melhorar. O Pedro
trabalhou três dias nos campos, ainda sem número, ilegal. Susana abriu conta
no banco indicado pela empresa. E uns dias depois receberam um contrato em
holandês. Não assinaram porque não percebiam. O chefe da casa também não se
importou: “Trabalha-se um dia aqui, outro ali, não é preciso contrato”.
Aliás, para o resto também não era preciso. A regra não escrita da casa era a
de que quem barafusta não trabalha. A quem não trabalha, Ielsin empresta
dinheiro. E a quem Ielsin empresta, compra o silêncio e a garantia de que não
se vai dali embora na esperança de que o trabalho que há-de vir salde a
dívida e constitua o pé‑de‑meia. No meio disto, o aquecimento
central sem funcionar era um pormenor; os esgotos entupidos, um problema de
somenos; as toalhas cobrindo as frestas das janelas, apetrechos decorativos;
e as baratas por toda a casa, uma companhia contra a solidão. EM FUGA Em dois meses e meio, a Susana trabalhou cinco dias: três na limpeza
de um aparthotel, e dois no escritório da empresa. Nunca lhe pagaram. O seu
pecado: ser professora, falar inglês e fazer as perguntas proibidas. O Pedro
teve mais sorte. Além dos três dias como ilegal, carregou bidões de sumos de
200 litros a 5 euros à hora. A carrinha largava de casa às 5 da manhã e
depositava-o na fábrica duas horas mais tarde. Aí, o esforço fazia‑se
das 7 às 17 ou até às 19 horas. Com direito a 20 minutos de paragem de três
em três horas, café incluído, que as sandes se traziam de casa. O regresso
demorava mais duas a três horas. O Pedro trabalhou ainda duas semanas na
escolha e separação de sementes, pago a seis euros à hora, nas proximidades
de Den Helder. No fim, ficou sem receber a última semana. A gestão de pessoal da The Five assenta no princípio da
instabilidade. Beneficia quem se faz amigo dos chefes da casa; nunca coloca
uma pessoa por muito tempo no mesmo sítio, não vá o cliente da contratante
querer ficar com o trabalhador; nos casais, enquanto um ganha, o outro
espera; e nos restantes funciona a dependência dos empréstimos que serão
descontados sobre o salário. Nada disto deve o que quer que seja a critérios
de produtividade. A lei é outra, a de “dividir para reinar”, maximizando o
lucro rápido. Pedro e Susana nem precisavam de conhecer os segredos desta “economia”.
Apenas sabiam que, por ali, a aventura não iria longe. Prepararam a fuga para um sábado, depois do dia de recebimento.
Partiram para os arredores de Roterdão, fiados na informação sobre uma outra
agência de trabalho. Mas em Shiedam, a casa onde estavam a viver
trabalhadores polacos, ainda era pior do que a de Den Helder. Nem esperaram
para ver. Vaguearam desesperados pelas ruas, sem dinheiro. E foi nesse
desespero que encontraram dois portugueses que trabalhavam para uma outra
agência de trabalho temporário, a Holland Jobs. Nesta empresa assinariam
contrato em português e de acordo com a lei holandesa (ver caixa). Mas não
ficaram mais de dois meses ao serviço. Regressaram ao país. A Susana às suas
aulas. E o Pedro prepara-se para abrir um café onde exibirá as suas artes de
pasteleiro. Foram os dois únicos portugueses com coragem de dar a cara na
investigação judicial que as autoridades holandesas estão a fazer. Aqui fica
a homenagem.
|