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18/04/2008
Os biocombustíveis da fome Rita Calvário Diz o Banco Mundial que
o preço global dos alimentos aumentou 83% nos últimos 3 anos. O trigo, o
leite e a manteiga triplicaram o seu preço desde 2000 e o frango, o arroz e o
milho custam hoje o dobro. Este aumento é generalizado nos bens alimentares e
é para durar, avisam os especialistas. Estima a FAO e a OCDE que alguns
produtos agrícolas vão continuar a sofrer aumentos de preços na ordem dos 20
a 50% ao longo dos próximos 10 anos. Perante esta realidade soa o alarme da
crise alimentar e da fome. Desde Janeiro de 2007
que os protestos e marchas da fome sucedem-se nos países mais pobres perante
o desespero. Primeiro foi o México devido ao aumento em 400% do preço do
milho, alimento base da população. Mais recentemente no Egipto, devido à
duplicação do preço dos alimentos num ano. No Haiti, provocando 4 mortes e a
queda do Governo. Nos Camarões, Costa do Marfim, Senegal, Burkina Faso,
Etiópia, Madagáscar, Mauritânia, Moçambique, Uzbequistão, Bolívia, Indonésia,
Filipinas, Paquistão, Tailândia, Índia, Iémen. O Programa Mundial de
Alimentos da ONU avisa que, para assegurar um mínimo vital a 73 milhões de
pessoas que dependem do seu programa de assistência, deverá desembolsar em
2008 pelo menos 30% mais do que no ano passado, ou seja, cerca de 500 milhões
de dólares suplementares. Avisa ainda que 33 países na Ásia e África
enfrentam uma forte instabilidade devido ao alastramento da fome nas zonas
urbanas. Alerta o presidente do
FMI que o aumento dos alimentos em poucos meses fez retroceder em 7 anos a
luta contra a pobreza no mundo, ameaçando mergulhar ainda mais na pobreza 100
milhões de pessoas. «A alimentação
representa cerca de 10-20% do gasto dos consumidores nos países
industrializados, mas mais de 60 a 80% nos países pobres, muitos dos quais
são importadores líquidos de alimentos», refere a FAO. Ao mesmo tempo alerta
que para 2007/2008 a factura de importação de cereais nos países mais pobres
do mundo pode subir 56%, mais que os 37% registados em 2006/2007; para os
países de baixo rendimento e deficitários em alimentos de África, a factura
de cereais é projectada subir 74%. No final da semana
passada, o Banco Mundial e o FMI acusaram os agrocombustíveis de ser a
principal causa para o aumento do preço de alimentos básicos. Já os vários
organismos da ONU têm vindo a alertar para uma revisão da política dos
agrocombustíveis pelo seu contributo para a crise global do preço dos
alimentos: «Nós temos de nos preocupar sobre o facto da possibilidade de se
tirar terra ou substituir terra arável devido aos agrocombustíveis», referiu
o secretário-geral da ONU no início deste mês. O FMI assegura que os
biocombustíveis contribuíram para quase metade do aumento da procura
alimentar, o que afectou o preço de um conjunto de matérias-primas. Perante a gravidade da
situação apelam a medidas urgentes de apoio ao combate à fome e que os países
«sejam sensíveis nestes momentos às dificuldades que atravessam os países que
têm problemas de nutrição», o que suporia abandonar o cultivo de
matérias-primas destinadas à energia para destiná-las ao mercado alimentar. No dia 10 de Abril, o
conselho científico da Agência Europeia para o Ambiente defendeu que a União
Europeia deve suspender a meta dos 10% dos biocombustíveis utilizados nos
transportes até 2020. Este conselho, composto por 20 cientistas independentes
de 15 Estados Membros, considera que a meta dos dez por cento é demasiado
ambiciosa e terá efeitos «difíceis de prever e de controlar». Aconselha a
realização de um novo estudo sobre os riscos e benefícios dos
biocombustíveis, bem como a «definição de uma meta mais moderada e a longo
prazo, se a sustentabilidade não puder ser garantida». Ontem, veio o
presidente da Comissão Europeia afirmar que pediu a realização de um amplo
estudo sobre o impacto dos biocombustíveis, na agricultura, preços e
desenvolvimento, mas parece continuar sem vontade de alterar a meta. Segundo o conselho, a
produção de biocombustíveis ainda liberta gases com efeito de estufa em
quantidades significativas, implicando «a combustão de recursos muito
valiosos e finitos». Alertam ainda que «o solo arável necessário para a União
Europeia conseguir cumprir a meta dos dez por cento excede a área disponível»,
e que a consequência da intensificação da produção de biocombustíveis é o «aumento
das pressões no solo, água e biodiversidade». O cumprimento da meta irá
significar «a importação de grandes quantidades de biocombustíveis» com a
ocupação de largos milhões de hectares de solo, e que «a destruição acelerada
das florestas tropicais devido ao aumento da produção de biocombustíveis já
está a acontecer em alguns países em desenvolvimento. A produção sustentável
fora da Europa é difícil de conseguir e de monitorizar». Perante os alertas das
mais variadas organizações internacionais, o Governo português continua a
afirmar‑se orgulhoso de ter decidido antecipar em 10 anos a polémica
meta proposta pela Comissão Europeia, estabelecendo o objectivo de 10% até
2010. Que os mais pobres dos países mais pobres passem fome, parece que não é
motivo de preocupação para Sócrates e os seus Ministros. Muito menos em
Angola e Moçambique, e talvez Brasil, onde há projectos nacionais liderados
pela GALP. Que os mais pobres de Portugal sejam afectados pela inflação dos
alimentos básicos, como o pão que já aumentou 30% e o leite 20%, parece que
também não os preocupa. Afinal, o combate à pobreza e exclusão social não é o
forte deste Governo, como bem o sabemos pelas suas sucessivas políticas
anti-sociais. A sua
irresponsabilidade mostra ainda que não tem qualquer estratégia séria para o
sector dos transportes, o maior responsável pelas emissões de gases de estufa
e em crescimento exponencial. Portugal apresenta o 5º pior resultado da União
Europeia a 27, com um aumento de 96% entre 1990 e 2005 de emissões no sector
dos transportes, sendo que o automóvel privado representa já quase 60% do
total de emissões do sector. Inverter esta lógica de
supremacia da rodovia e do transporte individual não é política deste
Governo. Reduzir o consumo de combustível no sector dos transportes,
apostando nos transportes públicos e na ferrovia, certamente que não.
Aumentar a qualidade de vida das pessoas e das cidades, melhorando as
condições de mobilidade e acessibilidade para modos mais sustentáveis, está
definitivamente fora da sua visão. |