|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
07/05/2007 O capitalismo pode ser
verde? * Stephen
Leahy Especialistas dizem que o
crescimento económico contínuo, intrínseco do capitalismo, não é viável num
planeta com recursos naturais cada vez mais escassos. O capitalismo demonstrou ser
ambiental e socialmente insustentável, por isso a prosperidade futura deverá
surgir de um novo modelo económico, afirmam alguns especialistas. O “como” é
matéria de intenso debate. Uma corrente afirma que o crescimento contínuo é
compatível com o meio ambiente se forem adoptadas tecnologias mais limpas e
eficientes e se as economias deixarem paulatinamente de elaborar bens
materiais para passar aos serviços. A isto dão o nome de prosperidade
sustentável. Instrumentos internacionais
destinados a atacar problemas globais, como o buraco da camada de ozónio e o
aquecimento global, adoptaram princípios de mercado para conseguir o
cumprimento pelo sector privado. No entanto, o problema é que «consumimos 25%
mais do que a Terra pode nos dar por ano», afirma William Rees, da Escola de
Planeamento Comunitário e Regional da Universidade da Columbia Britânica, no
Canadá. Rees e outros estudiosos
calcularam que o consumo humano de recursos naturais excede, a cada ano, em
25% a capacidade da natureza em regenerá-los, uma proporção que cresce desde
1984, primeiro ano em que a humanidade passou essa marca. «O nosso planeta
precisa de um capital natural, como árvores, para proporcionar serviços como
água e ar puros, dos quais dependemos», disse numa entrevista Rees, que é um
dos criadores da “pegada ecológica”, um indicador para conhecer a quantidade
de território produtivo que uma determinada população humana necessita para
obter recursos e para que os seus resíduos sejam absorvidos. O capitalismo baseia‑se
no acúmulo de riqueza pelo consumo de recursos naturais cuja disponibilidade
é limitada, afirmou Rees. Também estamos a exceder a capacidade do planeta em
absorver poluição e resíduos, como as emissões de dióxido de carbono
vinculadas à mudança climática. Os economistas de mercado não falam de
contaminação, mas de “externalidades” que raramente incluem como factor nos
seus modelos económicos, ressaltou o especialista. Por isso, a prosperidade sustentável
é o uso global de recursos e a geração de dejectos que não superem a
capacidade regenerativa do planeta. Igualmente importante é a dimensão
social: a verdadeira prosperidade só é possível quando a diferença entre as
rendas de ricos e pobres é pequena, disse Rees. Entretanto, «os executivos
dos Estados Unidos ganham entre 500 e mil vezes mais do que os trabalhadores
de outras categorias e essa desigualdade está a agravar‑se», garantiu.
Se todos vivessem como os norte‑americanos, seriam necessários cinco
planetas para proporcionar os recursos exigidos, segundo o Living Planet
Report 2006, do Fundo Mundial para a Natureza. A solução não está em mais
tecnologias limpas e eficientes. As sociedades industriais já usam os
recursos de modo mais eficiente do que as nações em desenvolvimento, mas
consomem muitos mais bens materiais e, portanto, mais recursos naturais,
estimou Rees. A seu ver, os novos mantras – consumo de produtos orgânicos ou
elaborados de modo sustentável e a desmaterialização das economias (gerar
serviços, mais do que produtos) – não resolvem nada. A única solução é
reduzir a poluição e o uso de recursos, afirmou. «Toda esta conversa sobre
sustentabilidade significa que não queremos realmente mudar o que fazemos»,
ressaltou Rees. As compras responsáveis ou a
responsabilidade social corporativa não farão muita diferença, coincidiu o
ecologista Brian Czech, presidente do Centro para o Avanço de uma Economia de
Fase Estável, um instituto de estudos com sede em Washington. «Temos de
reduzir o nosso crescimento económico para nos estabilizarmos», acrescentou
em entrevista ao Terramérica. A maioria das nações em desenvolvimento
precisa crescer, e os países ricos têm de reduzir o seu uso de recursos para
que isso ocorra, acrescentou. A ideia de que o crescimento contínuo pode sustentar‑se
graças à desmaterialização «não tem sentido», disse Czech. Produzir serviços requer usar
recursos naturais como energia, e o dinheiro gerado será usado para comprar
algo. «Os economistas neoclássicos do Banco Mundial e da Agência para o
Desenvolvimento Internacional, dos Estados Unidos, entre outros, continuam a acreditar
que não há limites para o crescimento», disse Czech. É preciso redefinir o
êxito económico: em lugar de aumentar a riqueza, aumentar o bem-estar, afirmou
Nic Marks, director do Centro para o Bem-Estar da Fundação Nova Economia, com
sede em Londres. O governo britânico reconheceu que a economia deve caber em
um único planeta e que já estamos além dos seus meios, disse Marks em
entrevista ao Terramérica. «Entretanto, é politicamente
insustentável dizer que o caminho é um crescimento económico menor»,
prosseguiu. Portanto, um crescimento mais verde, mais limpo e
desmaterializado é a solução, junto com importantes reduções no uso dos
recursos», disse Marks. O empresário norte-americano Peter Barns considera
que o capitalismo deve passar da exploração de recursos naturais, como o ar e
a água, para protegê-los como bens comuns da humanidade. Estes «fideicomissos
da riqueza natural» seriam todos os seres humanos, que teriam poder para
limitar o uso de recursos escassos, impor tributos e distribuir dividendos,
afirma no seu livro Capitalismo 3.0. Barnes imagina um mundo com
muitos protectores de ecossistemas, administrados por pessoas que estarão
proibidas de actuar no seu próprio interesse e só poderão fazê-lo em
representação dos interesses dos cidadãos e das gerações futuras por igual. «Nem
o governo nem as corporações representam as necessidades das gerações
futuras, dos ecossistemas e das espécies não humanas. Os fideicomissos podem
fazê-lo», diz no seu livro. ______ * Este artigo é parte de uma
série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter
Press Service) e a IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais). LINKS EXTERNOS Centro para o Avanço de uma
Economia de Fase Estável, em inglês Fundação Nova Economia, em
inglês http://www.neweconomics.org/gen/ Capitalismo 3.0, em inglês |