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08/03/2007 Posição da Via Campesina
sobre o agro‑combustível Secretaria
Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Caros amigos e amigas do MST, O MST esteve no Mali, em
África, como parte de uma delegação de 12 representantes de movimentos
camponeses e entidades ambientalistas brasileiras, somando-se aos mais de 600
dirigentes de todos os continentes, além de cientistas, ambientalistas,
militantes do movimento de mulheres e de diversas outras organizações e
entidades, para debater os problemas relacionados com a defesa da soberania
alimentar em cada país. Aprofundou-se no Fórum
Mundial Pela Soberania Alimentar o debate sobre a necessidade de os
movimentos sociais em todo o mundo priorizarem a luta em defesa da produção
de alimentos e da soberania alimentar de cada povo. Essa luta envolve também
um combate amplo à ofensiva do capital internacional sobre o campo, principalmente
na questão do controle dos agro‑combustíveis. Isso porque há uma aliança
que unificou os interesses de três grandes sectores do capital internacional:
a) as empresas petroleiras; b) as corporações transnacionais que controlam o
comércio agrícola e as sementes transgénicas c) e as empresas
automobilísticas. O único objectivo é manter o actual padrão de consumo do
primeiro mundo e as altas taxas de lucro das suas empresas transnacionais. 1. OBJECTIVO DAS
TRANSNACIONAIS E DO PRESIDENTE BUSH Convencer os governos do
hemisfério sul a utilizarem o seu território na produção de energia, a partir
de produtos agrícolas, com o objectivo de manter o padrão de consumo do american
way of life no primeiro mundo. A energia vegetal que está dentro dos
grãos, na forma de óleo, ou de árvores, é na verdade uma metamorfose agro-química
da energia solar. Depois, através do óleo vegetal ou do álcool, transforma‑se
em combustível. Por isso eles precisam dos
países do sul, de maior incidência anual da energia solar e que ainda possuem
áreas de terra agricultáveis disponíveis para produção de vegetais
oleaginosos como girassol, milho, soja, amendoim, feijão‑manso, palma
africana ou dendê, ou para produção de álcool a partir da cana-de-açúcar, do
milho e de árvores. Por outro lado, querem impor
a produção em monocultivo e, no caso da soja e milho, combinar com sementes
transgénicas, o que lhes garantiria um mercado de sementes, de agrotóxicos e
ainda a cobrança de royalties para as suas empresas transnacionais. Eles querem apenas lucro e
não se importam com a situação do meio ambiente, o aquecimento global e com a
vida dos trabalhadores rurais. Resolveram fazer essa ofensiva na produção de
energia renovável, para se livrarem da dependência de importar petróleo de
países agora com governos nacionalistas, como a Venezuela e o Irão. Além disso, existe hoje uma
enorme instabilidade política na Nigéria, Angola e Arábia Saudita que também
são fornecedores dos Estados Unidos e da Europa. Sem falar do fracasso da
invasão do Iraque, que também é fornecedor desse combustível. 2. POSIÇÃO DOS MOVIMENTOS
CAMPONESES EM TODO MUNDO Não podemos chamar esse
programa de biocombustível e muito menos de biodiesel. A expressão “bio” que
relaciona energia à vida, de forma genérica, é uma clara manipulação de um
conceito que não existe. Devemos adoptar sim, em todos os idiomas, o conceito
de agro-combustíveis. Ou seja, energia gerada a partir de produtos vegetais
oriundos da produção agrícola. Embora reconheçamos que o prefixo agro ainda é
muito genérico e os nossos cientistas estejam a estudar um novo conceito mais
preciso. Concordamos que o uso de
agro-combustível é mais adequado para o meio ambiente do que o petróleo. No
entanto, ele não afecta a essência do problema da humanidade, que é a actual
matriz energética e de transporte, baseado no uso de veículos individuais.
Defendemos a substituição radical da actual forma consumista e poluente de
transporte individual, pelo transporte colectivo, através de trens, metros,
bicicletas, etc. Não aceitamos que esse plano
use produtos agrícolas destinados actualmente à alimentação humana, como
milho, soja, girassol, etc., para transformá-los em energia para automóvel. Mesmo no caso da produção
necessário do agro-combustível, devemos produzi-lo de uma forma sustentável.
Ou seja, combatemos o actual modelo neoliberal de produção em grandes
fazendas e na forma de monocultivo desses produtos. O monocultivo em grande
escala é prejudicial ao meio ambiente e expulsa mão‑de‑obra do
campo. A monocultura afecta o
aquecimento do planeta, pois destrói a biodiversidade e impede que a água e a
humidade das chuvas se mantenham em equilíbrio com a produção agrícola. Além
disso, faz uso intenso de agrotóxicos e máquinas. Podemos produzir energia,
combustível, a partir de produtos agrícolas, porém cultivados de forma
sustentável, em pequenas e médias dimensões, que não desequilibrem o meio
ambiente e que representem uma maior autonomia dos camponeses no controle da
energia e no abastecimento das cidades. Condenamos veementemente a
iniciativa do governo de George W. Bush, que nos próximos dias visita os
governos do Brasil, Colômbia, Guatemala para cooptá-los e seduzi-los a
multiplicarem a produção de álcool para exportarem para os Estados Unidos. Em troca, os capitalistas
estadunidenses dos três grandes sectores do capital exigem o direito de comprar
e/ou instalar dezenas de novas usinas de álcool em todo o continente, sendo
que propuseram a construção de 100 novas usinas apenas no Brasil. Para viabilizar esse plano, o
governo Bush propõe que se crie uma nova mercadoria internacional, uma “commoditie
energética” do álcool, que não seria considerada agrícola para fugir das actuais
normas da Organização Mundial do Comercio (OMC). A Casa Branca propõe também
que Brasil, Índia e África do Sul, entre outros, negociem um novo padrão
tecnológico comum, para o etanol, seja de milho, de cana ou de árvores.
Assim, haveria uma fórmula aceite internacionalmente, formando uma nova OPEP
de energia agrícola para controlar o comércio mundial. Um possível sucesso desse
plano estadunidense seria uma tragédia para a agricultura tropical, transformaria
grandes extensões das nossas melhores terras em imensos monocultivos,
eliminaria ainda mais a biodiversidade e a produção de alimentos, apenas para
abastecer os seus carros. Expulsaria milhões de trabalhadores do campo em todo
o mundo, que se amontoariam ainda mais nas favelas das metrópoles. O debate e a luta estão
apenas a iniciar‑se. Esperamos que as organizações sociais possam
reagir e que os meios de comunicação possam informar sobre essas questões,
que são fundamentais para o futuro dos nossos povos. Por isso, durante as actividades
do dia 08 de Março, as mulheres trabalhadoras do campo e da cidade levantam a
bandeira da “Luta por Soberania Alimentar, Contra o Agronegócio”, contra as
transnacionais que actuam no campo e em defesa dos trabalhadores e da biodiversidade.
Soma-se à pauta o facto de o representante maior do imperialismo, o senhor
George W. Bush, desembarcar em território brasileiro nos próximos dias,
fomentando ainda mais a luta contra o neoliberalismo. Secretaria Nacional do MST |