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02/02/2007 Pioneer cancela dois pedidos
de ensaios de transgénicos, mas volta a tentar associando-se à Syngenta Plataforma
“Transgénicos Fora do Prato” * Começou esta semana a
consulta pública de mais um conjunto de pedidos para ensaios experimentais de
milho transgénico não autorizado para cultivo comercial [1]. Nos dois últimos
anos a Pioneer pretendeu testar milho transgénico (Ponte da Barca/Cadaval em
2005 e Ponte da Barca/Arcos de Valdevez em 2006) mas enfrentou fortes
dificuldades: as câmaras do Cadaval e de Ponte da Barca rapidamente se
declararam Zonas Livres de Transgénicos e todas produziram pareceres onde
deixavam clara a sua rejeição quanto a tal escolha. A empresa acabou por se
ver forçada a desistir de tais intenções, em parte por deficiências graves na
documentação apresentada [2]. Em 2007, a Pioneer volta a
tentar, desta vez associada à Syngenta e com três novas localizações:
Alcochete, Salvaterra de Magos e Rio Maior. Alcochete é uma escolha irónica:
a sua Assembleia Municipal aprovou, por unanimidade, a criação de uma Zona
Livre de Transgénicos em 28 de Dezembro de 2006. Em relação aos ensaios agora
propostos pela Pioneer/Syngenta, o presidente da Assembleia Municipal de
Alcochete, Dr. Miguel Boieiro, já declarou que «Somos contra todo o tipo de
experiências, não suficientemente seguras sob o ponto de vista científico e
ético, que podem pôr em causa a biodiversidade presente e futura. A actual
geração não tem o direito de alienar a segurança e o bem-estar dos seres
humanos e outros que, a seguir, virão habitar o Planeta». Esta atitude
provocatória ao poder local por parte da Pioneer e da Syngenta revela um
total desrespeito pela vontade dos cidadãos na declaração das zonas livres de
transgénicos. Embora as Zonas Livres de
Transgénicos careçam ainda de fundamentação legal em termos europeus, a sua
criação e vantagens são reconhecidas ao mais alto nível. No “Relatório sobre
a coexistência de culturas geneticamente modificadas com culturas
convencionais e ecológicas” (2003/2098(INI)), o Parlamento Europeu reconhece
que a proibição regional do cultivo de transgénicos é provavelmente a forma
mais eficaz e de baixo custo para evitar a contaminação das culturas
convencionais e biológicas. Em Portugal, a criação de
Zonas Livres está regulamentada por uma Portaria anómala (a 904/2006) que, na
prática, impede e esvazia a sua criação legal. A contradição é de tal forma
evidente que os municípios já começaram a manifestar-se: em 29 de Dezembro
passado a Assembleia Municipal de Aljezur aprovou por unanimidade uma moção [3]
que protesta vivamente contra o articulado, entre outras razões por
efectivamente impedir a protecção das zonas de minifúndio, precisamente as
mais expostas à contaminação. Em termos científicos, o
cultivo de milho transgénico experimental envolve impacto ambiental
significativo, nomeadamente em espécies não-alvo [4]. O próprio IUCN, uma
estrutura internacional a que pertence o governo português, aprovou em 2004 e
reiterou em 2006 um apelo à criação de uma moratória mundial à libertação de
quaisquer transgénicos no ambiente «até que se demonstre a sua segurança para
a biodiversidade, saúde humana e animal» (Resolução 3.007). Acima de tudo, nem a Pioneer
nem a Syngenta se mostram merecedoras de confiança. Na Pioneer, os incidentes
e desmandos com sementes transgénicas formam já uma longa lista. Em 1999, na
Alemanha e na Suíça, a Pioneer vendeu sementes contaminadas com transgénicos.
A mesma coisa aconteceu na Áustria em 2001 e em Itália em 2003. Na Croácia,
em 2004, queimaram-se dois mil hectares de milho da mesma empresa também por
causa de contaminação. Em Espanha foi ainda mais grave: a Pioneer organizou
demonstrações para agricultores onde incluiu... milho transgénico totalmente
ilegal, a maior parte do qual não se sabe onde terá ido parar. A Syngenta, por seu lado, foi
a responsável por um dos maiores casos de contaminação de sempre: o do milho
transgénico Bt10, do qual se venderam milhares de toneladas, embora não
estivesse autorizado em país nenhum do mundo. A empresa demorou quatro anos a
detectar o problema e, quando o fez, adiou quanto pode o informar das
autoridades europeias – que só souberam meses depois, quando a imprensa
publicou uma fuga de informação provavelmente obtida junto do governo
americano. Os portugueses estão maioritariamente contra os transgénicos. As câmaras que se têm pronunciado ecoam os mesmos sentimentos. O ambiente está em causa. Será que a Syngenta e a Pioneer ainda não perceberam que as suas sementes geneticamente manipuladas não são bem vindas em Portugal? ______ * A Plataforma “Transgénicos Fora do Prato” é uma estrutura integrada por onze entidades não‑governamentais da área do ambiente e agricultura (ARP, Aliança para a Defesa do Mundo Rural Português; ATTAC, Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para a Ajuda ao Cidadão; CNA, Confederação Nacional da Agricultura; Colher para Semear, Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais; FAPAS, Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens; GAIA, Grupo de Acção e Intervenção Ambiental; GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente; LPN, Liga para a Protecção da Natureza; MPI, Movimento Pró‑Informação para a Cidadania e Ambiente; QUERCUS, Associação Nacional de Conservação da Natureza; e SALVA, Associação de Produtores em Agricultura Biológica do Sul) e apoiada por dezenas de outras. Para mais informações contactar info@stopogm.net. [1] Ver Consulta Pública “Ensaios com organismos
geneticamente modificados (OGM)” (Instituto do Ambiente) ou
ainda gmoinfo.jrc.it/gmp_browse.aspx. [2] Nos dossiers técnicos que
serviram de base aos pedidos de autorização, a Pioneer deixava aspectos
fundamentais completamente omissos. No tocante ao impacto ambiental (impacto
em espécies não alvo, a possibilidade de contaminação de variedades
tradicionais ou a indução de resistência nas pragas), a Pioneer optava por
afirmar a ausência de risco, com 100% de optimismo e 0% de fundamentação
científica. O plano de monitorização (obrigatório) era apresentado de forma
tão abstracta que não se comprometia com coisa nenhuma. Da mesma forma, não
era considerada a necessidade de uma caução ou seguro de risco ambiental ou
agrícola, ou a informação aos agricultores limítrofes dos terrenos em causa. [3] Disponível em www.stopogm.net/?q=node/148. [4] Ver, por exemplo, Loevei, Arpaia (2005) “The
impact of transgenic plants on natural enemies: a critical review of
laboratory studies”. Entomologia Experimentalis et Applicata 114:1-14. |