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18/01/2007 A situação global da agricultura
transgénica: Dez anos de falhanço e rejeição generalizada Plataforma “Transgénicos
Fora do Prato” * Foi divulgado hoje ao fim da tarde o relatório sobre o cultivo de transgénicos em todo o mundo publicado anualmente pelo Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), um organismo financiado pelas indústrias da biotecnologia e engenharia genética. O cenário cor-de-rosa e sem mancha apresentado pelo ISAAA, no entanto, choca directamente com a realidade e a rejeição demonstrada em todo o mundo por consumidores, agricultores, estados, regiões e concelhos, e até por empresas alimentares. Alguns exemplos recentes
mostram os problemas, bloqueios e recusas que o ISAAA se esquece de referir. – Embora o ISAAA transmita a
ideia de que os transgénicos obtiveram adopção generalizada, o total de área
cultivada com transgénicos representa menos de 2% do total mundial de área
agrícola. Além disso, 88% de toda a área cultivada com transgénicos está
concentrada em apenas quatro países (Estados Unidos, Canadá, Argentina e
Brasil). – Os primeiros transgénicos
foram aprovados em 1994. Treze anos depois apenas duas características
transgénicas (tolerância a herbicidas e resistência a insectos) e quatro
espécies geneticamente alteradas (milho, soja, colza e algodão) são
cultivadas de forma significativa nalguma parte do mundo. – Há milhares de zonas livres de transgénicos declaradas por todo o mundo, em particular na Europa. – Sete países da União
Europeia proibiram variedades transgénicas autorizadas por Bruxelas devido
aos riscos e incertezas associados à sua libertação no ambiente e consumo. – A Roménia, identificada
como um dos “Mega-Países” que mais transgénicos cultivam (devido à sua
produção de soja transgénica), proibiu já esse cultivo. – Em 2006, devido a três
ondas de contaminação com diferentes variedades não‑autorizadas de
arroz transgénico, a Associação de Produtores de Arroz da Califórnia pediu a
proibição de cultivo de qualquer tipo de arroz transgénico, incluindo ensaios
de campo. – Os industriais de arroz dos
dois maiores exportadores mundiais de arroz (Vietname e Tailândia) assinaram
um acordo para se manterem livres de transgénicos. – O supremo tribunal indiano
suspendeu, para já, todos os cultivos experimentais de transgénicos no país. – O governo chinês continua a
impedir o cultivo comercial de arroz transgénico, apesar dos muitos esforços
das empresas nesse sentido. – Mesmo as empresas mostram
resistência global aos transgénicos. A Kraft Foods, a segunda maior empresa
alimentar do mundo, começou a vender à China produtos exclusivamente
não-transgénicos. Na Rússia, a empresa Sodruzhestvo, que fornece 70% de toda
a soja usada em alimentos e rações naquele país, declarou‑se livre de
transgénicos. Na Europa, as maiores multinacionais do sector alimentar não
vendem alimentos contendo transgénicos. As estatísticas apresentadas
pelo ISAAA apresentam falta de credibilidade e de rigor. Por exemplo: – Há um ano o ISAAA anunciava
o cultivo comercial de arroz transgénico no Irão. O governo iraniano veio
depois desmentir tal afirmação, uma vez que não há qualquer cultura transgénica
autorizada no país. – Ainda no relatório do ano
passado do ISAAA se afirmava que eram cultivados nas Filipinas 50 mil
hectares de milho transgénico. A fonte indicada era o próprio governo
filipino que, no entanto, não possui quaisquer estatísticas oficiais sobre a
matéria. A discrepância levou um governante a afirmar que aquele número era
infundado. – O governo romeno anunciou
que em 2005 tinham sido cultivados 87 mil hectares de soja transgénica no
país. No entanto, o ISAAA usou para esse país o valor de 125 mil hectares. – Mesmo em países com
sistemas de estatísticas consolidados, o ISAAA tende a inflacionar os
números. Nos Estados Unidos, um estudo detalhado demonstrou que o ISAAA “engorda”
os valores das áreas cultivadas em 2 a 9% relativamente aos números oficiais
do Departamento de Agricultura. – O relatório de 2004 refere
sete milhões de agricultores chineses que cultivam algodão transgénico. Em
2005 esse número já só atingia 6,4 milhões, sem qualquer explicação. – Em 2003 a Indonésia era
anunciada como o 19º maior produtor mundial de transgénicos. Mas no ano
seguinte este país nem sequer constava do mapa de produtores, mais uma vez
sem qualquer explicação. O ISAAA também se mantém
silencioso no que toca a problemas de contaminação, processos judiciais
contra agricultores provocados pela aplicação de patentes, aparecimento de
ervas daninhas resistentes aos herbicidas aplicados nas culturas
transgénicas, disfunções genéticas em variedades transgénicas, ou ainda sobre
o custo económico dos sucessivos falhanços de uma tecnologia incontrolável e
de má qualidade (exemplos disso são os escândalos Starlink, Bt10 e LL601,
entre outros). ______ * A Plataforma “Transgénicos
Fora do Prato” é uma estrutura integrada por onze entidades não‑governamentais
da área do ambiente e agricultura (ARP, Aliança para a Defesa do Mundo Rural
Português; ATTAC, Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para
a Ajuda ao Cidadão; CNA, Confederação Nacional da Agricultura; Colher para
Semear, Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais; FAPAS, Fundo para a
Protecção dos Animais Selvagens; GAIA, Grupo de Acção e Intervenção
Ambiental; GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente;
LPN, Liga para a Protecção da Natureza; MPI, Movimento Pró‑Informação
para a Cidadania e Ambiente; QUERCUS, Associação Nacional de Conservação da
Natureza; e SALVA, Associação de Produtores em Agricultura Biológica do Sul)
e apoiada por dezenas de outras. Para mais informações contactar info@stopogm.net. |