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Mundo

07/04/2006

 

Mudança Climática: Gelos derretem cada vez mais rápido

 

Stephen Leahy

IPS/Envolverde

 

Praias, ilhas e continentes diminuem enquanto o nível dos oceanos aumenta devido ao acelerado derretimento de gelos polares e geleiras. Muitas das principais cidades do mundo, entre elas Banguecoque, Londres, Miami, e Nova Iorque, podem ser inundadas até ao final deste século, segundo uma nova análise das actuais temperaturas na região do mar Árctico publicada na revista científica norte-americana Science. Nessa oportunidade, as temperaturas globais serão, em média, três graus mais elevadas do que as registradas actualmente, ou tão quentes quanto há 130 mil anos atrás, quando o nível dos oceanos estava entre quatro e seis metros mais elevado.

 

«Provavelmente, as nossas estimativas sobre o aumento do nível do mar feitas há cinco anos foram muito conservadoras», disse Jonathan Overpeck, pesquisador da Universidade do Arizona que participou do estudo divulgado pela Science no dia 24 de Março. Pesquisas anteriores previam uma elevação do mar de menos de um metro até 2100. O estudo de Overpeck e de outros autores revela que as temperaturas mais quentes estão em vias de derreter boa parte do gelo do mar Árctico, incluindo a camada de gelo da Gronelândia, além de derreter e causar colapso de partes da camada de gelo antárctica, no Pólo Sul, que é menos estável.

 

Os novos dados deveriam chamar a atenção para a urgência de se reduzir as emissões de dióxido de carbono na atmosfera, afirmou o especialista. O dióxido de carbono é um dos gases causadores do efeito estufa, que capturam o calor dos raios solares e reaquecem a atmosfera, provocando complexas modificações conhecidas como mudança climática. «Mais de cem milhões de pessoas poderiam ser afectadas pelo aumento de quase um metro no nível do mar», afirmou Gary Griggs, director do Instituto de Ciências Marinhas na Universidade da Califórnia.

 

«Não há esperanças práticas de salvar pequenos países insulares como as Ilhas Maldivas», no oceano Índico, disse Griggs à IPS. «Este é um problema novo e de grande importância». Os impactos da elevação do mar já são um perigo próximo e actual. Nos últimos 12 anos, ilhas do Pacífico Sul, como Tonga e Tuvalu, experimentaram aumento de 10 centímetros, segundo o Projecto de Controle do Nível do Mar e do Clima no Pacífico Sul. Em Fevereiro, uma inundação sem precedentes nas ilhas Salomão fez com que fossem evacuadas duas mil pessoas. Boa parte da terra cultivável dessas ilhas agora está contaminada pelo sal marinho.

 

Nos últimos 20 anos, as praias de areias brancas de algumas ilhas sofreram erosão e foram arrastadas pelas correntes oceânicas, por ondas enormes e pelo mar que avança, informou Loti Yates, director do Escritório Nacional para a Administração de Desastres das Ilhas Salomão. No final de Março, marés de 3,48 metros de altura alagaram a maior parte de Tuvalu, uma série de atóis do Pacífico cujo ponto alto tem 4,5 metros acima do nível do mar. Muitas das praias com palmeiras desapareceram e a elevação das águas torna mais perigosas as tempestades. Está em debate o reassentamento de toda a população do país, cerca de 11.600 pessoas. Várias centenas de pessoas abandonaram a ilha.

 

A cerca de 1.200 quilómetros de distância, em Fiji, um arquipélago do Pacífico com superfície de 18.250 quilómetros quadrados, a elevação do mar é de oito centímetros e espera-se que aumente mais 30 centímetros até 2050. As inundações foram um fenómeno de custo multimilionário nos últimos anos. Devido à sua geografia, toda a região Ásia­‑Pacífico é particularmente vulnerável aos impactos da mudança climática, com a elevação do nível do mar, as tempestades mais intensas e manifestações mais extremas de seca e inundações, segundo recente relatório do Banco Mundial.

 

«A maior parte das megacidades (da região), especialmente na China, fica no litoral, e estas são as principais candidatas a sofrer com o aumento do nível do mar e desastres climáticos com ele relacionados», diz o informe. Vietname, Tailândia, Indonésia e Camboja, juntamente com a China, poderiam sofrer severas perdas no seu produto interno bruto como resultado destes fenómenos, já que as principais actividades produtivas se concentram em zonas costeiras, acrescentou o Banco Mundial. Do outro lado do mundo, as águas afogarão muitas praias atlânticas do Canadá até 2030, disse à IPS John Shaw, integrante da Pesquisa Geológica deste país. A essa tendência soma­‑se o facto de que grande parte do território oriental da América do Norte está afundado devido à última era do gelo.

 

«As praias estão bastante baixas, e com este rápido aumento do nível do mar simplesmente ficarão debaixo de água», disse Shaw numa entrevista. Devido às mais frequentes e intensas tempestades, está a ser batido o recorde de inundações na área, acrescentou. Essas mesmas tempestades causam erosão das linhas costeiras e empurram­‑nas terra adentro cerca de 12 metros por tempestade. Estas são notícias muito ruins para quem tem propriedade no litoral pela sua magnífica vista. As linhas costeiras e as praias sempre se movem, mas actualmente o fazem mais rápido do que nunca, ressaltou Shaw. Desde a última era do gelo, os níveis globais dos mares aumentaram lentamente, o que permitiu o desenvolvimento costeiro em boa parte do mundo sem grandes dificuldades, explicou Griggs. Mas o ritmo da elevação marinha cresceu muito nas últimas décadas, gerando um problema multimilionário, acrescentou.

 

As cidades localizadas no litoral marinho baixo sofrerão importantes desastres devido às tempestades, previu Griggs. As ondas de oito metros provocadas pelo furacão Katrina, que em Agosto passado açoitaram a costa do golfo do México, ao sul dos Estados Unidos, mataram 1.400 pessoas e provocaram prejuízos de 200 mil milhões de dólares. Os planos anunciados para construir diques que protejam a devastada Nova Orleans (uma das mais afectadas) custarão 10 mil milhões de dólares e nem sequer protegerão toda a cidade. «Eu não reconstruiria Nova Orleans no lugar onde está», afirmou Griggs.