Informação Alternativa

Portugal

04/04/2006

 

Contaminação com transgénicos em Espanha:

um aviso para Portugal e um exemplo a não seguir

 

Plataforma “Transgénicos Fora do Prato” *

 

A generalização do cultivo de plantas geneticamente modificadas (OGM) em Espanha está a causar contaminação generalizada das culturas não transgénicas, colocando em risco tanto os agricultores convencionais como os biológicos, para além de pôr em causa o direito à escolha dos consumidores. Isto mesmo é revelado no relatório Coexistência Impossível, publicado hoje pela Greenpeace no arranque da conferência da Comissão Europeia sobre coexistência entre culturas transgénicas e não transgénicas que decorre hoje e amanhã em Viena e reúne os ministros dos Estados-Membros.

 

Coexistência Impossível baseou-se em investigação pormenorizada, incluindo testes laboratoriais de amostras recolhidas nos campos de milho de 40 produtores biológicos e convencionais de Aragão e da Catalunha. Os resultados falam por si:

 

– Detectou-se a presença indesejada de milho transgénico em quase um quarto de todos os casos estudados.

– Alguma dessa contaminação atingiu valores extraordinários (12,6%).

– Em vários casos a contaminação causou prejuízo económico, visto que a produção contaminada não pode ser vendida como biológica e está sujeita a rotulagem

– Três dos casos envolveram variedades regionais de milho, que tinham sido seleccionadas ao longo de décadas. A contaminação implica a perca destas sementes e uma ameaça à pouca biodiversidade agrícola que ainda resta.

 

Margarida Silva, coordenadora da Plataforma Transgénicos Fora do Prato e vice­‑presidente da Quercus, comentou: «A Espanha é o único país europeu a cultivar transgénicos em larga escala, e a poluição genética que se instalou é uma antecipação do que está para acontecer em Portugal caso os OGM ganhem dimensão no nosso país. O aviso soou: apesar de todas as garantias das autoridades espanholas e das empresas da engenharia genética, a realidade mostra que a tecnologia é incontrolável e nenhum agricultor está a salvo. O governo tem de ser chamado a explicar se é isto que quer para a agricultura portuguesa.»

 

Niels Rump, agricultor biológico radicado no Algarve há 17 anos e dirigente da Salva, Associação de Produtores em Agricultura Biológica do Sul, acrescentou: «Tal como o ruído e o silêncio não conseguem coexistir, também a agricultura transgénica inevitavelmente exclui todas as outras formas de produção. A coexistência não passa de uma miragem, de uma manobra que permite a algumas empresas apropriarem-se do património genético que pertencia a toda a humanidade... e tudo isto para aumentarem os seus lucros de curto prazo. Mas a sustentabilidade da terra é o capital de que os nossos filhos e netos vão ter de viver, e não está à venda.»

 

Alguns dados adicionais:

 

– Em 2005 a Comissão Europeia autorizou o cultivo de 31 variedades de milho transgénico em toda a União Europeia. Em Portugal cultivaram-se cerca de 760 ha, em Espanha próximo de 100 mil ha.

– Portugal é o maior importador de milho espanhol (66 mil toneladas em 2005, contra 15 mil toneladas do Reino Unido, que está em segundo lugar).

– O poder local português dá sinais de que não pretende pactuar com o cultivo de transgénicos: 12 municípios (Mora, Aljezur, Cadaval, Ponte da Barca, Moura, Coimbra, Odemira, Sintra, Alenquer, Arouca, Soure e Moita) e uma região (Algarve) aprovaram já declarações de Zonas Livres de Transgénicos.

– O relatório referido neste comunicado está disponível por pedido através do endereço info@stopogm.net.

 

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* A Plataforma “Transgénicos Fora do Prato” é uma estrutura integrada por oito entidades não­‑governamentais da área do ambiente e agricultura (ATTAC, Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para a Ajuda ao Cidadão; AGROBIO, Associação Portuguesa de Agricultura Biológica; CNA, Confederação Nacional da Agricultura; FAPAS, Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens; GAIA, Grupo de Acção e Intervenção Ambiental; GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente; LPN, Liga para a Protecção da Natureza; QUERCUS, Associação Nacional de Conservação da Natureza; e SALVA, Associação de Produtores em Agricultura Biológica do Sul) e apoiada por dezenas de outras. Para mais informações contactar info@stopogm.net.