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17/03/2006 Uzbequistão: Retratos da
morte do Mar de Aral Marina Koslova *
«Não poderemos salvar o Aral
e em pouco tempo só o veremos em fotografias», lamenta o pintor uzbeque
Rafael Matevosyan, cuja obra há mais de 40 anos testemunha o desaparecimento
deste mar na Ásia central. O Aral é um mar interior localizado entre o
Cazaquistão e o Uzbequistão que vem secando há 50 anos. Matevosyan, de 82
anos, chegou à região em 1962, e desde então dedicou dezenas de quadros ao
mar. Naqueles anos, o Aral era o quarto maior dos mares internos, depois do
Cáspio, entre a Europa e a Ásia, o lago Superior, na América do Norte, e o
lago Victoria, na África. O Aral começou a secar na
década de 60 por causa da actividade humana. Eram extraídas grandes
quantidades de água para irrigação das plantações de algodão que abasteciam a
gigantesca produção industrial da então União Soviética, da qual o
Uzbequistão fazia parte. Hoje, o seu volume de água diminuiu 90%, para 115
milhões de metros cúbicos, e a sua superfície caiu 73%, para 17.600 quilómetros
quadrados. De facto, acabou dividindo‑se em dois grandes lagos
chamados Aral Sul e Aral Norte. Milhares de hectares do que era mar agora
formam o novo deserto de Aralkum. Diariamente, o vento lança cerca de 75
milhões de toneladas de pó, areia e sal a partir do deserto, que vão sendo
depositadas na terra num raio de mil quilómetros. «Os quadros de Matevosyan são
a crónica da tragédia do Aral», disse o poeta e jornalista uzbeque Raim
Farhadi. Nos seus primeiros quadros, o artista pintava as águas profundas e
as pescarias, nos mais recentes mostra barcos abandonados no que agora é
terra firme. Apenas dois anos depois de chegar à região, Matevosyan notou que
o mar encolhia. Um dos seus quadros representa uma indústria de pescado na
cidade de Moynaq, na parte ocidental do Uzbequistão, que já foi um centro
industrial de pesca e produtos enlatados. A fábrica ficava sobre estacas no
mar. Mais tarde, descobriu essas estacas cravadas em terra firme e o
estabelecimento abandonado. Matevosyan nasceu na cidade
uzbeque de Samarcanda, mas os seus pais mudaram‑se para Baku, capital
do Azerbaijão, na costa do mar Cáspio. Durante 30 anos viveu ali e pintou o
Cáspio, bem com o mar Negro, um lago interno do sudeste da Europa e da Ásia
menor ligado ao mediterrâneo pelo estreito de Bósforo e pelo mar de Mármara.
O artista graduou‑se no Colégio de Arte de Baku. Farhadi considera que
Matevosyan é um cronista da tragédia do homem e do meio ambiente, sentindo os
«corpos» da terra e da água. «Na medida em que o mar vai secando deixa um
novo deserto que produz tempestades de areia e sal», disse o pintor numa
entrevista. «A terra que está em redor do mar está coberta por sal e produtos
químicos tóxicos que ficam na atmosfera e se espalham pelas zonas vizinhas»,
contou. Estão a desaparecer as
plantas e os animais, e o pescado agora é trazido do mar Báltico, a milhares
de quilómetros de distância. «Quem vive ali sofre da falta de água e das
doenças que isso acarreta», acrescentou. A população próxima do Aral apresenta
altos índices de cancro e doenças pulmonares, entre outras. Matevosyan não é optimista.
«Os rios Amu Darya e Syr Darya (que alimentam o Aral) percorrem o território
de seis países da Ásia central (Afeganistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão,
Turcomenistão e Uzbequistão) e cada um extrai toda a água que pode. Se todos
retirarem um balde de água de um barril, este ficará vazio», afirmou. Até à década de 60, estes
rios vertiam 58 mil milhões de metros cúbicos de água no Aral por ano. Mas em
meados dos anos 80, pelo uso mais intenso da água para irrigação, esse caudal
diminuiu drasticamente. Além disso, o mar perde por ano entre 30 mil milhões
e 35 mil milhões de metros cúbicos de água devido à evaporação. O consumo
anual de água recomendado na bacia do Aral não deve exceder 80 quilómetros
cúbicos, mas na verdade são consumidos cerca de 102 quilómetros cúbicos por
ano. «Os fundos e organizações que querem ajudar a deter o desastre do Aral
não podem fazer muita coisa», disse Matevosyan. «Recebem muito dinheiro do
Ocidente e utilizam‑no. Mas ao mesmo tempo, essa conjuntura pode ser
vantajosa para os ocidentais que querem estar presentes na região»,
acrescentou. Matevosyan acredita que seus
quadros ajudam a arrecadar fundos para as populações próximas do Aral. O
artista realiza exposições nas repúblicas da extinta União Soviética e na
Alemanha, Turquia, Estados Unidos e na ex‑Jugoslávia. Também escreveu
um livro sobre o seu trabalho intitulado O homem e o mar. Matevosyan é
um homem idoso, magro, quase sempre com uma boina na cabeça. Está casado com
uma mulher 23 anos mais nova, tem três filhas e um filho de dois casamentos
diferentes, quatro netos e três bisnetos. Além dos mares, nos seus trabalhos
aparecem pescadores, médicos, polícias e belas mulheres. As telas de
Matevosyan reflectem o estado do dia; os contornos e cores dependem da luz.
Prefere o realismo, por ser «mais perdurável». ________ * Escrito para o projecto Asia Water Wire, uma série de artigos sobre água e desenvolvimento da região Ásia‑Pacífico da IPS. |