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20/09/2004 Queimar lixo é muito mais
caro do que reciclá-lo Ana Fernandes Além das desvantagens
ambientais, está agora demonstrado que queimar resíduos sólidos urbanos é
muito mais caro do que apostar na reciclagem. Um estudo encomendado pelo
Ministério do Ambiente à Universidade Nova de Lisboa conclui que a
incineração implicaria um custo de 26,5 euros por tonelada enquanto que
separar o lixo e reciclá-lo se ficaria pelos 16 euros. A equipa liderada por
Fernando Santana – também responsável por um estudo sobre os resíduos
industriais que concluiu que a sua queima não era viável – analisou vários
cenários, tendo sempre presentes as metas previstas nas directivas europeias
sobre a reciclagem do lixo urbano. A opção mais barata – 15 euros por
tonelada – é a da deposição em aterro acompanhada por estratégias já
existentes, como a reciclagem de embalagens e dos biodegradáveis recolhidos
junto dos grandes produtores. Só que esta solução apresenta
desvantagens. Como referem os autores do estudo, «este cenário exige um
esforço praticamente incomportável de recolhas selectivas (embalagens e
matéria orgânica) para se cumprirem as directivas comunitárias, pelo que é
pouco realista». Além disso, sabendo-se que a
capacidade dos aterros se esgota muito tempo antes daquele para que foram
projectados, dadas as enormes quantidades que para lá são enviadas, e que,
por conter muita matéria orgânica que não foi para a reciclagem, pode
provocar a contaminação dos lençóis freáticos assim como poluição
atmosférica, esta solução apresenta poucas vantagens. O segundo cenário é o da
incineração, que, devido aos custos iniciais de investimento, projecta os
custos de tratamento dos lixos para os 26,5 euros por tonelada. Ou seja, além
do custo, concorrem contra esta solução os mesmos problemas da recolha
selectiva previstos para os aterros, é poluente e pouco flexível em relação a
«alterações de políticas, estratégias de gestão de resíduos e evoluções
tecnológicas». Surge um terceiro cenário,
que assenta no pré-tratamento dos resíduos, o seu envio para reciclagem e
deposição em aterro apenas do que for rejeitado, e cujos custos variam entre
os 15 e os 17 euros. Ou seja, «por apenas mais um euro em relação à solução
dos aterros, evitam-se contaminações dos lençóis freáticos e do ar», assinala
Rui Berkemeier, da Quercus. INCINERADOR DO CENTRO EM
CAUSA Num comunicado que será hoje
divulgado, a Quercus defende que «face a estes dados, torna-se ainda mais
evidente que o projecto de instalar um incinerador na ERSUC [sistema dos
resíduos urbanos dos distritos de Aveiro e Coimbra] seria um grave erro não
só ambiental mas também económico, penalizando as autarquias, que teriam
assim de suportar elevadas tarifas para o tratamento dos seus resíduos
urbanos». Portugal dispõe de três unidades de incineração (Lisboa, Porto e
Madeira) e há intenções de construir mais uma na zona centro, o que tem sido
muito contestado pelos ambientalistas. A solução que neste estudo
surge como a mais económica é a aposta no tratamento mecânico biológico.
Assim, as embalagens e os biodegradáveis seguem para reciclagem segundo as
estratégias existentes. O restante (aquilo que é deixado todos os dias à
porta dos portugueses) vai para unidades de triagem que separam, de forma
mecânica e manual, os materiais recicláveis. O que é rejeitado segue para
aterro, só que num volume francamente reduzido. Além de que a canalização da
matéria orgânica para compostagem liberta os aterros daquilo que provoca os
maiores impactos, como a poluição do ar e do solo. «Na prática, só irão
materiais inertes», sublinha Berkemeier. «O estudo não incluiu os
custos de transporte dos resíduos, o que no caso da ERSUC iria penalizar
ainda mais a opção pela incineração, uma vez que se trata de um sistema com
uma enorme área que obrigaria a grandes custos de transporte para uma solução
centralizada», refere a Quercus. Os ambientalistas defendem que sejam
construídas várias unidades de tratamento mecânico biológico, perto dos
aterros existentes, de forma a minimizar os custos económicos e ambientais
dos transportes. Os autores do estudo aproveitam ainda para criticar o actual sistema de gestão de resíduos em Portugal por este não ser integrado, ou seja, não englobar todos os tipos de resíduos de idêntica natureza, independentemente da fonte. Defendem também que as taxas que se cobram às famílias pelo tratamento dos resíduos, hoje indexadas ao consumo de água, passem a depender da quantidade produzida em cada casa. |