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06/01/2006 Durão Barroso e a Comissão
Europeia atacam a reciclagem – Portugal pode ser seriamente prejudicado A Comissão Europeia
apresentou uma proposta de Estratégia para a Prevenção e Reciclagem que mais
não é do que um apelo à incineração. O Presidente da Comissão, o português
Durão Barroso, tem particulares responsabilidades nesta matéria e revela uma total
incoerência, uma vez que enquanto político em Portugal sempre defendeu a
opção pela reciclagem, tendo mesmo apresentado nesse sentido propostas no
Parlamento. Agora, à semelhança do que se passou na política europeia sobre
químicos, parece estar também muito permeável a determinados grupos
económicos. Se esta proposta for aceite
pelos governos europeus, Portugal pode ser seriamente afectado, uma vez que a
substituição da reciclagem pela incineração irá dificultar a concretização
dos diversos projectos de unidades de reciclagem que estão a ser
desenvolvidos no nosso país. Os aspectos mais relevantes
da Estratégia em causa são os seguintes: 1 – Comissão reconhece que
a reciclagem é de longe o processo de tratamento de resíduos que gera mais
emprego Segundo a Comissão Europeia a
gestão de 10.000 toneladas de resíduos gera os seguintes postos de trabalho
em função do tratamento escolhido: – Reciclagem: 250 empregos – Incineração: 30 empregos – Aterro: 10 empregos 2 – Comissão esquece a
prevenção dos resíduos A Comissão reconhece que o
crescimento dos resíduos é um problema, sendo igual ou superior ao
crescimento do PIB na média na União Europeia, mas apenas diz que os países
deverão estabelecer planos nacionais de prevenção, não estabelecendo
quaisquer metas e remetendo para 2010 a reavaliação dos resultados dos planos
nacionais. Em 20 páginas de texto desta estratégia de prevenção e reciclagem,
só 1/2 página é dedicada à prevenção. 3 – Durão Barroso quer co‑incinerar
óleos usados O Presidente da Comissão,
Durão Barroso, que enquanto líder político em Portugal defendeu a regeneração
dos óleos lubrificantes, agora quer retirar da Directiva sobre os óleos a
prioridade estabelecida para a regeneração, equiparando‑a assim à
co-incineração em cimenteiras. Esta decisão é tomada supostamente com base em
estudos de análise de ciclo de vida, mas os últimos estudos disponíveis
(Fev/2005) indicam exactamente o contrário, favorecendo a regeneração de
forma inequívoca. 4 – Comissão diz que a
incineração é igual à reciclagem Esta estratégia confunde
sistematicamente incineração com reciclagem, pretendendo-se assim meter tudo
no mesmo saco, com o objectivo claro de misturar os conceitos. É referido
expressamente que a incineração de resíduos orgânicos é igual à sua reciclagem
através da compostagem ou da digestão anaeróbia, o que é um erro técnico
grave, demonstrando claramente o espírito que está por detrás deste
documento. 5 – Comissão pretende
dificultar a reciclagem e facilitar a incineração Toda a estratégia procura
criar barreiras à reciclagem, quer através da proposta de ausência de metas,
da sua equivalência à incineração ou da criação de regulamentos mais
apertados para esta actividade. Para a incineração é só facilidades, tal como
o aligeirar da legislação sobre resíduos tratados para queima ou o considerar
como valorização a operação de incineração de resíduos em incineradoras de
resíduos urbanos, quando há uma decisão do Tribunal Europeu de Justiça
justamente no sentido contrário. 6 – Trinta anos de
trabalho pela prevenção e reciclagem que podem ir para o lixo Esta estratégia põe
claramente em causa o trabalho realizado ao longo dos últimos 30 anos, no
sentido de construir um modelo europeu de gestão sustentável dos resíduos com
base na política dos 3 Rs (redução, reutilização e reciclagem). 7 – Estratégia é mau
exemplo para fora da União Europeia O documento reconhece que
muitos países de fora da União Europeia têm seguido o bom exemplo europeu no
estabelecimento de metas de reciclagem e de responsabilização do produtor
pelo destino dos resíduos, no entanto esquece que ao seguir agora pelo
caminho da desregulação, a Europa vai dar um péssimo exemplo para todo o
mundo. 8 – Comissão Europeia quer
demitir-se das suas funções Em diversos temas como as
políticas de prevenção, o estabelecimento de metas de reciclagem ou a opção
entre a reciclagem e a incineração, a Comissão Europeia parece querer passar
essa responsabilidade para os países membros, deixando-os à mercê de fortes lobbies,
como é o caso do constituído ontem em Portugal através de uma associação
entre as três empresas que incineram resíduos urbanos. 9 – Princípio da
responsabilidade do produtor posto em causa Ao arrepio de todo o edifício
que tem estado a ser construído ao longo dos últimos anos, a Comissão quer
agora deixar cair o princípio da responsabilidade do produtor de resíduos,
segundo o qual as empresas que colocam os produtos no mercado são
responsáveis por financiar a sua gestão quando chegam à fase de resíduos.
Esta política permitiu construir sistemas de gestão para diversos fluxos
importantes, como as embalagens ou o equipamento eléctrico e electrónico.
Agora a Comissão quer apenas estabelecer metas por materiais
independentemente do produto que lhe deu origem, perdendo-se assim o rasto do
produtor, sendo muito difícil depois responsabilizar quem quer que seja por
eventuais falhas no alcançar das metas estabelecidas. 10 – Portugal será
penalizado Portugal, que tem feito um investimento meritório na criação de sistemas de gestão de resíduos com metas de reciclagem razoáveis e com base na responsabilização do produtor, poderá assim ver posta em causa essa política e o esforço dispendido. Para o nosso país a questão do emprego gerado pela reciclagem de resíduos pode ser uma alavanca para o desenvolvimento económico e social. Portugal é neste momento um
dos países que possui mais sistemas de gestão de fluxos específicos de
resíduos, muitos dos quais ainda não são obrigatórios a nível europeu como é
o caso das pilhas, dos pneus ou dos óleos lubrificantes. 11 – Quercus apela ao
Governo português para defender a polícia dos 3 Rs Na sequência da divulgação
desta proposta da Comissão, a Quercus já apelou ao Governo português, através
do Ministério do Ambiente, para ter uma posição forte nas discussões que vão
ocorrer sobre este assunto, sendo a primeira já no dia 10 de Janeiro em
Bruxelas, no sentido de defender a política dos 3 Rs (reduzir, reutilizar e
reciclar) uma vez que essa é a política que mais vantagens pode trazer a Portugal
quer do ponto de vista ambiental quer de desenvolvimento económico e criação
de emprego. _________ Clique para consultar o
ficheiro Estratégia
Europeia de Prevenção e Reciclagem (pdf). Para conhecer o estudo recente que conclui que a regeneração de óleos usados é melhor que a incineração consulte aqui. |