|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
22/07/2005 Grãos de alto risco Rafael Evangelista Dizem que quando um navio
está a afundar os ratos são os primeiros a abandonar a embarcação. Não dá
para dizer que elas “abandonaram o barco”, pois muitas ainda esperam obter
lucros com a tecnologia, mas a distância e a cautela que as grandes
corporações têm procurado manter das biofazendas é sinal de que nem elas se
sentem muito seguras com a chamada “nova era da biotecnologia”. As
biofazendas (ou a prática do biopharming, do original em inglês) são
os campos de testes de organismos transgénicos capazes de produzir
medicamentos. Entre março e abril deste
ano, as biofazendas colocaram em lados opostos a Anheuser-Busch, empresa que
produz a cerveja Budweiser, e a Ventria Biosciences, que testa variedades
transgénicas de arroz capazes de produzir proteína humana a ser utilizada em
medicamentos. A disputa começou quando a Ventria anunciou a sua intenção de
plantar 200 acres do seu arroz transgénico no estado do Missouri, nos EUA,
tradicional produtor de arroz. Após intensa pressão dos agricultores da
região e de gigantes como a Anheuser-Busch e a Grocery Manufacturers of
America – associação de lojas de varejo que representa 500 mil milhões anuais
– a empresa de biotecnologia desistiu do Missouri. A Anheuser-Busch, então,
retirou a sua ameaça de boicote ao arroz vindo daquele estado. A Ventria, no entanto, agiu
rapidamente e direcionou os seus esforços para outro estado, a Carolina do
Norte. No último dia 30, ela conseguiu permissão legal do Ministério da
Agricultura dos EUA (o USDA, na sigla em inglês) para a plantação de 270
acres (aproximadamente mil km2) do seu arroz capaz de produzir
lactoferrina e lisozima, proteínas normalmente produzidas no leite materno e
em secreções como a lágrima. Cada grama dessas proteínas, usadas em remédios
contra a diarreia e a desidratação, chega a custar 30 mil dólares. Com o
arroz transgénico, a Ventria espera reduzir o custo de produção dessas
substâncias. DROGAS NA CADEIA ALIMENTAR Agricultores e activistas
temem a contaminação das plantações tradicionais com as variedades transgénicas,
seja via polinização cruzada ou pelo extravio de sementes durante o
transporte. Além disso, ambientalistas afirmam que não há estudos suficientes
sobre o efeito dessas substâncias no ecossistema. Sabe-se muito pouco sobre
como esse arroz pode afectar, por exemplo, pássaros que dele se alimentem ou
o solo em que será plantado. O Institute of Science in
Society (I-SIS), utiliza-se ainda dos trabalhos de Joe Cummins, professor da
Universidade Western Ontario, no Canadá, para afirmar evidências de riscos
potenciais de doenças pulmonares derivados da ingestão desse arroz. «O grande
perigo é que essas proteínas transgénicas são apenas aproximações das
proteínas naturais», afirma Mae-Wan Ho, directora do I-SIS. A Union of Concerned
Scientists (UCS) chegou a pedir, no auge da crise entre a Ventria e a
Anheuser-Busch, que as autorizações para o plantio de área de testes a céu
aberto fossem analisadas com muita calma, pois esse tipo de tecnologia
envolveria questões ambientais, de comércio e de segurança alimentar que
precisam ser resolvidas de forma pública. «A UCS recomenda que as plantações
de uso farmacêutico sejam discutidas num processo científico rigoroso,
envolvendo o público e especialistas não ligados aos interesses da indústria»,
afirmou em comunicado público. TESTES EM SEGREDO Transparência, contudo, não é
o ponto forte do Ministério da Agricultura dos EUA e nem das grandes
empresas. Respondendo ao questionamento na justiça feito pela organização
Earthjustice, o Ministério e as empresas foram obrigados a revelar a
localização de diversas biofazendas localizadas no Hawai. Diversas
organizações afirmam que os estados politicamente mais fracos dos EUA, como o
Hawai e Porto Rico, são usados como campos de testes da indústria da
biotecnologia. As empresas e o Ministério negavam‑se a revelar a
localização desses campos alegando temerem actos de vandalismo dos
ambientalistas e actos de espionagem industrial. No último dia 29, os EUA
autorizaram a empresa Mera Pharmaceuticals a realizar, no Hawai, testes com
uma variedade de algas transgénicas capazes de produzir vários tipos de
anticorpos humanos e imunoglobina. Os ambientalistas afirmam que os fotobioreactores
a céu aberto onde as experiências serão realizadas são vulneráveis a danos
causados por tempestades, podendo contaminar o meio ambiente marinho. O caso mais famoso de
contaminação causada pelas biofazendas envolveu uma variedade de milho
produzida pela empresa ProdiGene. Esse milho transgénico continha uma proteína
destinada a combater diarreia em porcos, a quem o produto era destinado. Mas
houve a contaminação de fazendas vizinhas e as plantações tiveram que ser
destruídas, pois o produto não era aprovado nem para o consumo de animais nem
de humanos. Em outro caso, envolvendo a mesma empresa, resíduos de milho transgénico
que produziria substância para o combate de diabetes contaminaram lavouras de
soja. As plantações também tiveram que ser destruídas. Ao todo, a empresa
teve que pagar 3 milhões de dólares como reparação dos danos e para evitar
processos judiciais. Fontes: http://www.i-sis.org.uk/MPTNB.php http://www.i-sis.org.uk/PICGA.php http://www.organicconsumers.org/ge/rice040405.cfm http://www.ucsusa.org/food_and_environment/biotechnology/page.cfm?pageID=1376 http://starbulletin.com/2004/08/09/editorial/editorials.html http://www.planetark.com/dailynewsstory.cfm/newsid/18935/story.htm
|