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12/03/2005 Preço justo para a madeira
dos pobres Haider Rizvi A africana Wangari Muta
Maathai é, há três décadas, uma das principais activistas contra o corte
ilegal de madeira no mundo. Em 1977 fundou o movimento Cinturão Verde no seu
país, Quénia, com uma mensagem simples mas contundente: as árvores são fonte
de vida e um instrumento de luta contra a fome e a desigualdade de género.
Desde então, dedicou‑se a transmitir esse conceito às sofridas
mulheres do seu país e do seu continente. Somente no Quénia, conseguiu que os
seus compatriotas plantassem cerca de 30 milhões de árvores em casas, escolas
e igrejas, segundo dados do seu movimento. Nascida em 1940 e mãe de três
filhos, Maathai conseguiu algo que muito poucas mulheres africanas podem
aspirar: excelência académica. É mestra em biologia e doutora em anatomia. Actualmente,
é vice-ministra do Meio Ambiente do seu país. Em 2004 converteu‑se na
primeira ambientalista a ganhar o Nobel da Paz, pela «sua contribuição para o
desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz». Maathai conversou com
exclusividade com o Terramérica em Nova York, onde participou do processo de
revisão da Conferência de Pequim sobre a Mulher, realizada há dez anos. Como avalia o corte ilegal
que se mantém em muitos lugares do planeta? Preocupa‑me muito,
porque não significa apenas a perda de florestas, mas também de
biodiversidade. É um problema muito grave na Amazónia, na Indonésia e em
muitas partes do mundo. Há pouco, 11 chefes de Estado da Bacia do Congo
pediram‑me para ser embaixadora de boa vontade para o ecossistema da
região, que enfrenta a ameaça do corte ilegal. Como o corte ilegal afecta
a vida dos moradores das florestas? As florestas são recursos
muito valiosos, que podem proporcionar grandes riquezas para os seus
habitantes. Lamentavelmente, esses moradores costumam carecer de
conhecimentos, habilidades e capital para aproveitar a riqueza da floresta, e
a cedem em troca de quase nada. Assim, permanecem pobres e os seus recursos
são explorados por outros, que enriquecem. As madeireiras, muito desejosas de
explorar regiões pobres, mas não as florestas dos seus países de origem,
deveriam pagar melhor pelo produto que levam, e inclusive apoiar os governos
das regiões onde operam, para que possam agregar valor aos seus recursos naturais
e conseguir melhor renda. Que papel deve ter o mundo
industrializado para deter o desmatamento? Os países industrializados,
especialmente os do Grupo dos Oito mais poderosos (G-8, formado por Alemanha,
Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) devem
abrir os seus mercados às nações mais pobres, cujas matérias‑primas
aproveitam. Sem comércio justo, será muito difícil cumprir as Metas do Milénio
no mundo em desenvolvimento. E qual papel deveriam assumir
os consumidores ricos nos Estados Unidos e na Europa, como aqueles que querem
ser enterrados em caixões de mogno cortado ilegalmente na Amazónia, que
custam milhares de dólares a unidade? Precisamos educar os cidadãos
de nações industrializadas sobre o consumo excessivo, que denunciamos há
muitos anos. Devemos introduzir a filosofia do reciclado e da reutilização,
que não é muito bem aceite nos países ricos. Todos temos que compreender que
o mundo tem uma quantidade finita de recursos. O desperdício ocorre às custas
de outras pessoas que permanecem extremamente pobres. Há pouco estive no
Japão, e existe uma palavra japonesa que me agradou muito, porque mostra como
os habitantes desse país, depois da Segunda Guerra Mundial, se tornaram muito
conscientes da importância de reduzir, reutilizar e reciclar materiais. A
palavra é “mottainai”, que significa “que desperdício!”. Essa palavra deveria
ser adoptada especialmente pelos países do G-8, que necessitam empregar os
recursos de forma eficiente, tendo em conta que milhões de habitantes do planeta
vivem em extrema pobreza. Como recebeu a notícia do
assassinato, no dia 12 de Fevereiro, da activista norte‑americana
Dorothy Stang, que esteve comprometida durante anos com a luta dos povos
indígenas da Amazónia brasileira? [1] Sabemos que os ambientalistas
e outros activistas sempre estão em perigo, porque quando lutam pela protecção
e melhor utilização dos recursos naturais trabalham contra interesses de
empresas e pessoas com muito poder. No Brasil já perdemos Chico Mendes, na
Nigéria, Ken Saro Wiwa, e estou certa de que há muitos outros que
desapareceram e cujos nomes nunca serão conhecidos. É muito perigoso tentar
deter pessoas que controlam os recursos naturais. As suas actividades valeram‑lhe
hostilidades, ameaças e inclusive prisão no seu país. O que sente agora ao ser
parte do governo, como vice‑ministra do Meio Ambiente do Quénia? É o prémio para uma luta longa e consistente. __________ [1] Ler a respeito no IA:
Marcelo Resende e Maria Luisa Mendonça, Brasil:
Seis Tiros, 07/03/2005. |