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Mundo

05/03/2005

 

Madeira de destruição e esperança

 

Mário Osava

Terramérica

 

Estamos diante da «última oportunidade» de alterar o rumo da história recente da Amazónia brasileira e os próximos dois anos serão decisivos para frear o desmatamento, o caos na propriedade da terra e a violência, segundo o especialista Adalberto Veríssimo. A sua avaliação baseia­‑se nos seus 15 anos de experiência pesquisando temas amazónicos e no mais recente relatório do grupo não­‑governamental onde trabalha, o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazónia (Imazon). O informe, uma actualização de Factos Florestais da Amazónia, publicado em 2003, será divulgado no final deste mês, mas Veríssimo adiantou ao Terramérica algumas de suas conclusões.

 

O documento reitera más notícias como a destruição de floresta amazónica numa extensão anual equivalente a dois territórios da Bélgica ou do Haiti, e revela outras novas, como o avanço da extracção de madeiras no coração da Amazónia. Áreas onde a exploração madeireira era incipiente há alguns anos, como o sudeste do Estado do Amazonas e o oeste do Pará, agora são focos importantes dessa actividade, indicou Veríssimo. Os responsáveis pela extracção adiantam­‑se ao «arco do desmatamento», a faixa na qual a pecuária e a agricultura vão substituindo as florestas, explicou. No entanto, também há dados animadores no informe do Imazon: a produção de madeira amazónica caiu para 26 milhões de metros cúbicos em 2004, dois milhões a menos do que no ano passado, o que significa que 700 mil árvores foram poupadas. Essa redução deve­‑se à melhor industrialização, que agrega maior valor à madeira, para tender exigências do mercado externo.

 

Além disso, o avanço da fronteira madeireira estimula um corte mais selectivo e um melhor aproveitamento da matéria-prima, por encarecer o transporte, de acordo com o estudo. Outra notícia positiva é que cresce aceleradamente o manejo sustentável da floresta amazónica. As áreas certificadas por bom manejo somavam 80 mil hectares em 1997, chegaram a 400 mil hectares em 2002 e no ano passado atingiram 1,8 milhões de hectares, a maior extensão mundial em florestas tropicais. Em 2010, poder­‑se­‑á chegar aos 10 milhões de hectares certificados, caso sejam solucionados os problemas de propriedade da terra na região, previu Veríssimo, baseado no interesse manifestado pelos empresários. As esperanças também são reforçadas pelo pacote de medidas anunciadas pelo governo depois da comoção provocada pelo assassinato, no dia 12 de Fevereiro, de Dorothy Stang, missionária católica norte­‑americana naturalizada brasileira, que dedicou metade dos seus 73 anos à defesa do desenvolvimento sustentável e dos pobres do interior do Pará, na Amazónia Oriental.

 

A criação de cinco novas áreas de conservação, que somam 5,2 milhões de hectares, a proibição de actividades prejudiciais em 8,2 milhões de hectares do lado ocidental da rodovia BR-163, que cruza o oeste do Pará, e o projecto de lei sobre Gestão de Florestas Públicas são medidas cruciais para «mudar o rumo» e combater o desmatamento, se forem aplicadas «com força e persistência», afirmou Veríssimo. Estas medidas somam-se à anterior, também decisiva, realização de um cadastro das terras amazónicas para regularizar uma situação caótica. A maior parte dessas terras é pública, mas sem registro oficial e em grande parte invadida por grileiros, o que gera conflitos e a violência da qual foi vítima a missionária. Entretanto, nem todos compartilham do optimismo de Veríssimo. «São medidas boas, mas insuficientes» e tardias, afirmou Roberto Smeraldi, coordenador da organização não­‑governamental Amigos da Terra-Amazónia Brasileira, que teme a debilidade do Estado para implementá­‑las.

 

Calcula-se que 45% da extracção de madeira da Amazónia é ilegal, mas «considerando ilegal a madeira originária de terras públicas invadidas, a ilegalidade atinge cerca de 97,5%», embora boa parte seja “legalizada” por autorizações oficiais indevidas, afirmou Smeraldi. Conter o desmatamento exige desenvolver alternativas económicas que mantenham as florestas em pé e sejam competitivas com os negócios agropecuários, concordam ambientalistas e pesquisadores. A extracção de madeira de forma legal e sustentável é uma das mais viáveis, disse Veríssimo. Essa opção ganha força inclusive entre os empresários do sector. «As práticas informais, ilegais, minam a economia com uma competição desleal», disse ao Terramérica Ivan Tomaselli, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci).

 

A desordem da propriedade implica «insegurança jurídica e altos riscos», de modo que um investimento só se justifica com ganhos muito elevados, argumentou. Segundo Tomaselli, a madeira extraída de maneira ilegal na Amazónia representa agora apenas 20% do total, contra 80% no passado. Além disso, também aumenta a proporção de madeira com certificado de bom manejo florestal, porque apresenta «vantagem competitiva» em grandes mercados como Europa e Estados Unidos, segundo o industrial. A exigência de certificação do Conselho de Manejo Florestal (FSC, sigla em inglês) é o principal estímulo contra a ilegalidade, já que as normas da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (Cites) e a Organização Internacional da Madeira Tropical (ITTO) são limitadas a alguns aspectos e pouco concretas, admitiu Smeraldi.

 

O grande impacto positivo poderia vir da Organização Mundial do Comércio, ao impor a legalidade e o bom manejo, sugeriu o empresário. Mas a maior parte da madeira amazónica, de 70 a 75%, destina­‑se ao mercado interno, segundo Veríssimo, e por isso os ambientalistas tentam introduzir exigências de certificação no Brasil. O programa Cidade Amiga da Amazónia actua em conjunto com prefeituras e grandes consumidores para que usem nas suas obras apenas madeira de origem legal e de preferência certificada. Existe uma boa receptividade, grandes cidades do interior do Estado de São Paulo já aderiram e «agora buscamos atrair metrópoles como o Rio de Janeiro e a cidade de São Paulo», disse ao Terramérica Rebeca Lerer, activista desse programa.

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