|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
13/02/2005 Quioto não nos pode salvar do aquecimento global – é demasiado
tarde Mark Hertsgaard No cerne do dilema sobre o aquecimento global, há um facto sobre o qual nenhum dos lados do debate gosta de falar: já é demasiado tarde para prevenir o aquecimento global e a alteração climática por ele despoletada. Os ambientalistas não dirão isto com medo de soar alarmistas ou derrotistas. Os políticos não o dirão porque então teriam de fazer algo a respeito. Mas os mais conceituados cientistas do clima no mundo têm vindo a transmitir esta mensagem, com urgência cada vez maior, há anos. Desde 1988, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (PIMC) associado ao Programa das Nações Unidas para o Ambiente, composto por mais de dois mil especialistas técnicos e científicos de todo o mundo, conduziu à mais extensa colaboração científica da história avaliada pelos seus pares. No seu relatório de 2001, o PIMC anunciou que o aquecimento global causado pelo homem já havia começado, e muito antes do esperado. Mais, está destinado a tornar‑se pior, talvez muito pior, antes de melhorar. No último mês, o presidente do PIMC, o dr. Rajendra Pachauri, levantou mais preocupações. Embora Pachauri tenha sido indicado depois de o seu predecessor, o dr. Robert Watson, ter sido forçado a sair pela administração Bush, por ter pressionado demasiado para agir, a acumulação de evidências levou Pachauri a abraçar uma linguagem apocalíptica: «estamos a pôr em risco a capacidade da raça humana para sobreviver», disse. Até agora, a maior parte da discussão pública sobre o aquecimento global centrou‑se na prevenção – por exemplo, ao implementar o Protocolo de Quioto, que entra em vigor internacionalmente (mas sem a participação dos EUA) em 16 de Fevereiro. Mas a prevenção já não é uma opção suficiente. Não importa quantos carros “verdes” e painéis solares Quioto eventualmente promova, a verdade crua é que um certo grau de aquecimento global é inevitável. A comunidade mundial deve portanto promover uma mudança estratégica: deve expandir a sua resposta ao aquecimento global para enfatizar não apenas a protecção de longo prazo, mas também a de curto prazo. Níveis marítimos cada vez mais altos e mais desastres relacionados com o clima serão um facto da vida neste planeta nas décadas vindouras, e precisamos de estar preparados para eles. Entre os passos necessários para nos defendermos, precisamos de agir rapidamente para fortalecer capacidades de resposta a situações de emergência em todo o mundo, para proteger e realocar comunidades costeiras vulneráveis e para nos prepararmos para fluxos migratórios de refugiados ambientais. Devemos também partir para a ofensiva. Temos que retroactivamente diminuir o nível de aquecimento que enfrentamos, redobrando esforços para nos livrarmos dos gases causadores do efeito estufa que ainda pairam na atmosfera e “isolá-los” onde já não sejam perigosos. Um caminho possível é plantar árvores, que absorvem o dióxido de carbono através da fotossíntese. Mas os investigadores estão também a explorar muitos outros métodos, alguns deles apoiados pela administração Bush. Por exemplo, a Noruega está a enterrar dióxido de carbono em velhos reservatórios de petróleo sob o Mar do Norte. O problema com o protocolo de Quioto não é que a redução de 5% na emissão de gases causadores do efeito de estufa que determina não vá suficientemente longe, apesar de não ir: o PIMC insta a uma redução de 50% a 70%. O problema é que Quioto governa apenas as emissões futuras. Não importa quão bem o protocolo funcione, ele não terá efeito em emissões passadas, e são estas emissões passadas que tornaram o aquecimento global inevitável. Contrariamente à impressão deixada por algumas reportagens noticiosas, o aquecimento global não é como um interruptor que pode ser desligado se simplesmente deixarmos de queimar tanto petróleo, carvão e gás. Há um efeito retardado de aproximadamente 50 a 100 anos. Este é o período durante o qual o dióxido de carbono, o principal gás do efeito estufa, permanece na atmosfera após ser emitido de tubos de escape de automóveis, de fornalhas domésticas e de chaminés industriais. Assim, mesmo que a humanidade parasse de queimar combustíveis fósseis amanhã, a Terra continuaria a aquecer por décadas. Até agora, os gases de efeito de estufa emitidos durante mais de dois séculos de industrialização aumentaram as temperaturas globais em cerca de 0,5 graus centígrados, e subiram o nível dos mares entre 10 e 17 centímetros. Também deram origem ao fenómeno mais alargado da alteração climática. Os cientistas do PIMC predizem que, por causa do aquecimento global, o futuro trará mais e mais devastadores fenómenos climáticos extremos de todos os tipos – mais furacões, tornados, tempestades, ondas de calor, secas e nevascas – e tudo isso vem na esteira: mais inundações, desmoronamentos, cortes de electricidade, colheitas arruinadas, danos à propriedade, doenças, fome, pobreza e perda de vidas. Na Califórnia, chuvas torrenciais induziram um deslizamento de lama em 11 de Janeiro que matou dez pessoas, enterrou crianças vivas e esmagou dúzias de casas. Em 2003, uma onda de calor recorde deixou 35.000 mortos – principalmente idosos – na Europa ocidental. E isto é apenas o começo. Os cientistas são cuidadosos ao dizer que nenhum evento climático sozinho pode ser ligado definitivamente ao aquecimento global. Mas a tendência é inconfundível para as companhias de seguros que acabam por pagar a factura. «A alteração climática causada pelo homem trará fenómenos naturais extremos cada vez maiores e, consequentemente, grandes e crescentes perdas em catástrofes», disse recentemente um funcionário da Munich Re, a maior companhia mundial de seguros no sector da mitigação de desastres naturais. A Swiss Re espera que as perdas atinjam 150 mil milhões por ano nesta década. O primeiro ministro britânico, Tony Blair, encara a alteração climática como «o único maior problema de longo prazo» de qualquer tipo a ameaçar o seu país. O principal cientista do seu governo, Sir David King, vai mais longe, chamando à alteração climática «o maior perigo que a humanidade enfrentou em 5.000 anos de civilização». Apesar da Casa Branca de Bush continuar a dar pouca importância à urgência do aquecimento global, alguns sectores da administração Bush reconhecem a gravidade da situação. Um relatório publicado em Abril último pelo grupo de estudos interno do Pentágono, o Office of Net Assessments, afirmou que, pelo ano 2020, a alteração climática poderia desencadear uma série de catástrofes interligadas. Isso poderia incluir mega‑secas, fome em massa e mesmo guerra nuclear, enquanto países como a China e a Índia lutariam entre si pelos vales dos rios e outras fontes de água e comida escassas. Tudo isto sublinha a urgência de rever as respostas do mundo à alteração climática. Seguramente, permanece essencial reduzir as emissões de gás estufa através do fortalecimento do Protocolo de Quioto e aumentá‑lo com outras medidas; caso contrário, o montante do aquecimento futuro com que a humanidade eventualmente terá que lidar será grande demais para sobreviver. Mas entretanto, é imperativo que nos preparemos contra a alteração climática já em curso. A necessidade de tal estratégia de duas vias, de prevenção e de protecção, está a ganhar a aceitação da maioria dos governos do mundo. Na Grã-Bretanha, o Departamento do Meio Ambiente promete publicar a sua estratégia de adaptação ao aquecimento global até ao final do ano. No mais recente encontro internacional sobre o aquecimento global, realizado em Buenos Aires, em Dezembro último, uma maioria dos delegados apoiou o estabelecimento de um fundo para auxiliar países que já estão a sofrer os efeitos antecipados do aquecimento global. Um dos candidatos principais de tal ajuda é Tuvalu. Um atol no oceano Pacífico cujo ponto mais alto fica a três metros e meio acima do nível do mar, Tuvalu foi em grande parte submerso no ano passado por “ondas gigantes” de três metros de altura. Mas os EUA opuseram‑se à assistência de adaptação, argumentando que não há «certeza sobre o que constitui um nível perigoso de aquecimento...». A preparação para sobrevivermos à alteração climática global que agora pende sobre a nossa civilização será um enorme empreendimento. Requererá imensos recursos financeiros, perícia técnica e habilidade organizacional. Mas talvez o que é necessário mais do que tudo, especialmente nos EUA, seja pensamento renovado e liderança política – uma aceitação de que a alteração climática é inescapável e requer medidas de oposição imediatas. A inominável morte e destruição trazida pelo maremoto do Oceano Índico mostrou o que pode acontecer quando as pessoas não estão preparadas para o desastre. Mas não existe motivo pelo qual o aquecimento global nos deva apanhar de surpresa. O sistema de alarme antecipado da nossa civilização – os cientistas do PIMC – têm vindo a dizer‑nos há anos que um grande perigo se aproxima. A questão é se agiremos rápida e decisivamente o suficiente para nos protegermos contra a tempestade vindoura. Ou vamos simplesmente esperar e encarar o nosso destino – nus, orgulhosos e destemidos? _________ * Mark Hertsgaard é um correspondente de The
Nation e do canal por satélite Link TV, bem como autor, mais
recentemente, de The Eagle's Shadow: Why America Fascinates and Infuriates
the World e Earth Odyssey: Around the World In Search of Our
Environmental Future. |