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Mundo

15/02/2005

 

A mecânica do saque

 

Tiago Soares

Planeta Porto Alegre

 

Tony Clarke é um dos maiores especialistas na questão da privatização da água. Director do Instituto Polaris, instituição sediada no Canadá dedicada à análise de processos de privatização em redor do mundo, Clarke é autor, com a canadense Maude Barlow, de O Ouro Azul, clássico recente do ambientalismo. O livro, uma detalhada análise de dados estatísticos e do funcionamento de conglomerados industriais, é um estudo de caso sobre a mais ameaçadora das crises – a escassez de água potável.

 

Para demonstrar a sua tese, Clarke e Barlow apresentam dados que apontam para um mundo que, a reboque de uma demanda insustentável por água fresca – fruto do constante aumento populacional e da crescente dependência por conta de parques industriais – flerta com o colapso.

 

Presente no Fórum Social Mundial em debate promovido pela ONG Amigos da Terra, Clarke concedeu a Planeta Porto Alegre entrevista na qual desvenda a mecânica do saque dos recursos hídricos pelas grandes corporações. E como, no fim de contas, isso pode acabar nos levando ao pior cenário possível.

 

Para começar, gostaria que o senhor desse uma pequena explicação aos nossos leitores sobre o papel da água dentro da actual ordem económica e industrial.

 

Hoje, a água é para o mundo o que o petróleo foi durante o século 20. Ela é o “ouro azul”, essencial à vida, o nosso item mais valioso. Mais que isso, ela é central aos nossos sistemas urbanos e industriais – sistemas que exigem água em quantidade gigantesca, motivo pelo qual contamos com cada vez menos recursos hídricos disponíveis.

 

Este modelo de utilização faz com que fiquemos expostos a problemas bastante sérios, ecologicamente falando. Sem medidas que conservem e readequem o modo como os recursos hídricos são administrados, eles podem simplesmente secar. E estamos a falar de um item absolutamente essencial à sobrevivência humana.

 

Em não poucos casos, organismos financeiros internacionais sugerem a países em desenvolvimento que o sector hídrico seja um dos primeiros abertos ao capital privado. Existiria realmente alguma falha estrutural nos sistemas públicos de água e esgoto?

 

Não tenho qualquer dúvida sobre a eficiência do sistema público, que considero perfeito. O que acontece é que, a partir do momento em que se privatiza este tipo de serviço, você acaba trilhando um caminho bastante perigoso, cheio de armadilhas.

 

Essas armadilhas, como funcionam?

 

Em primeiro lugar, o que acontece é que, privatizados os serviços de água e esgoto, os tributos cobrados sobem automaticamente, simplesmente porque a companhia tem a necessidade e o interesse de garantir que os seus lucros sejam polpudos, que os seus accionistas tenham um bom retorno financeiro. Além disso, as companhias precisam cobrir o dinheiro que desembolsam com a privatização, e isso faz com que os preços subam ainda mais.

 

E quais são as consequências sobre os usuários?

 

Este comportamento das corporações obriga a população a pagar preços absurdos, cada vez mais altos. Isso por um serviço ao qual, até há bem pouco tempo, ela teria acesso por bem menos dinheiro. E o que acontece em seguida, obviamente, é que os que podem pagar são atendidos, e os que não podem, têm a água cortada. Logicamente, os atingidos pelos cortes são as famílias e comunidades mais pobres.

 

No fim de contas, isso nada mais é do que negar às populações pobres o direito ao item absolutamente essencial à vida que é a água. Este tipo de desdobramento é sinal bem claro dos problemas presentes nos esquemas de privatização implementados em lugares como Jacarta, Joanesburgo, Buenos Aires e Manila – um processo no qual as perdas ultrapassam em muito os benefícios.

 

Muitos activistas apontam o papel da OMC como central nesse processo. Como o senhor analisa a actuação da instituição?

 

O Tratado Comercial sobre Bens e Serviços (GATS) da OMC, bem como as negociações em curso para incluir a água como um serviço sob as regras da instituição, tem sido um mecanismo especialmente importante para a onda de privatização, acelerando-a.

 

Mais preocupante que isto, porém, é o facto do GATS forçar um “aprisionamento” da agenda de privatização às decisões dos Estados nacionais.

 

Hoje, por exemplo, é ainda possível que um país abra o seu sector de água e esgoto a empresas privadas e, caso a experiência não funcione bem, o Estado o tome de volta nas mãos. Estabelecidas as regras do GATS, isto não será mais possível. Pelo acordo, a partir do momento em que é feita a privatização do sector de água e esgoto de um país, não é mais possível que este seja passado das mãos da iniciativa privada de volta para o sector público.

 

E a ONU? Qual é a postura do órgão frente a estes abusos?

 

A ONU, hoje, não mostra qualquer esforço no sentido de estabelecer mecanismos que regulem a dominação, por grandes grupos económicos, de recursos hídricos em redor do mundo. Ninguém sabe quais, exactamente, são a regras do jogo para as Metas do Milénio no que diz respeito ao assunto.

 

De que modo as metas são vagas em relação à água?

 

Diz-se (nas Metas do Milénio) que é esperado um aumento no desenvolvimento e na preservação dos serviços de água e esgoto – o que, ninguém nega, é algo bastante bom. O que não fica claro é se isso deve passar pela reestruturação do sector público. Para mim, esta é a grande questão.

 

Acredito que precisamos sim de um papel mais activo da ONU a favor dos serviços públicos de água e esgoto, por um motivo muito simples – a água é um direito básico universal. O que nos leva a outro problema: a água nunca foi totalmente declarada pela ONU como direito universal básico.

 

No fim de contas, tudo isso somado faz com que eu continue um tanto reticente sobre como a ONU lida com os aspectos mais urgentes do processo de privatização.

 

No meio deste cenário pontuado por Estados nacionais enfraquecidos e uma ONU ainda pouco activa, quais as esperanças de resistência?

 

Acredito que a população tem cada vez mais respondido e lutado contra a privatização dos recursos hídricos. Um exemplo é a recente vitória conseguida na Bolívia, onde o povo se rebelou contra a iniciativa, por empresas privadas, de tomar o controle dos seus sistemas públicos de fornecimento de água. Como resposta, o governo viu­‑se forçado a comunicar à Suez (empresa por trás do processo) que o contrato não seria assinado. Para mim, este é um sinal de que existem, efectivamente, movimentos de resistência a ser articulados.

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