|
Informação Alternativa |
||
|
Mundo |
||
|
17/10/2004 William Engdahl Em Junho de 2003, o presidente George W. Bush fez do levantamento da
proibição de oito anos da União Europeia às plantas geneticamente modificadas
(GM) uma prioridade da estratégia nacional dos Estados Unidos. Isto aconteceu
apenas dias depois da ocupação de Bagdade. O timing não foi acidental. Depois
disso, a resistência da União Europeia às culturas GM desmoronou-se, o mesmo
se deu no Brazil, e noutras nações chave na produção agrícola. Agora, alguns meses e muita pressão depois, os estrategas da comida geneticamente
modificada estão à beira de um controle global sobre a cadeia alimentar
humana e animal nunca alcançado por uma única nação ou poder. O presente debate sobre a natureza da Biotecnologia e a modificação
genética da base alimentar como são o milho e as sementes de soja, esquece o
ponto mais importante. A conversão da agricultura mundial por uma pequena
elite de companhias biotecnológicas, a maior parte sediadas nos Estados
Unidos, tem pouco a ver com ganância corporativa. Tem muito a ver com a geopolítica
e planos de algumas pessoas para controlar o crescimento populacional mundial
nas próximas décadas. A natureza da projecção do poder americano no mundo baseia-se
actualmente no desenvolvimento de vantagens estratégicas chave que nenhuma
combinação de nações possa desafiar, o que os planejadores do Pentágono
apelidaram de “dominância de pleno espectro” [“full spectrum dominance”].
Isto inclui hegemonia militar global. Inclui a limitação do poder dos
Estados, e o rápido esvaziamento das reservas petrolíferas globais. Inclui o
controlo da reserva monetária mundial, o dólar. E actualmente inclui o
controlo futuro da agricultura mundial combinado com o controlo das patentes
geneticamente modificadas e das sementes GM. Antes do final da década, se a presente tendência se mantiver, a
dominação global dos Estados Unidos basear-se-á no controlo do fornecimento
de alimentos à maior parte do planeta, indo mais longe do que o controlo
militar ou do que o controlo da energia. A dimensão geopolítica desta perspectiva
suscita um exame cuidadoso. UM CAVALO DE TRÓIA ROCKEFELLER A agência no centro da controvérsia GM é a fundação Rockefeller de
Nova York. Durante a última década, esta influente fundação privada gastou
mais de 100 milhões de dólares no patrocínio de pesquisas e desenvolvimento
de sementes GM para desdobrar em produção alimentar. A fundação seleccionou
especificamente nações em desenvolvimento chave nos seus esforços. Os seus estatutos públicos sugerem motivações nobres: «A fundação
Rockefeller é uma fundação global com um mandato e um compromisso de defender
e melhorar a vida dos pobres e excluídos em todas as partes do mundo», disse
o presidente da fundação, Gordon Conway, num discurso para a companhia
Monsanto em 1999, o maior produtor mundial de sementes GM e pesticidas.
Conway cita como justificação para a revolução GM na agricultura a projecção
de um aumento na população mundial de 2 mil milhões de pessoas até 2020,
misturado com o declínio da rendibilidade agrícola e a degradação progressiva
dos solos e dos sistemas ecológicos. Todas as indicações sugerem que esta não
é a verdadeira razão pela qual as plantas GM estão a ser promovidas com tanto
fervor. Durante os últimos dezoito anos, a fundação Rockefeller tem jogado
um papel decisivo na propagação de práticas genéticas radicais em países e
laboratórios onde programas e pesquisas directas do governo norte-americano
serão acolhidos com grande suspeição. A fundação Rockefeller é, com efeito, o
cavalo de Tróia da proliferação GM. Conseguiu a entrada em países chave em parte por seleccionar
cientistas chave provenientes de selectos países em desenvolvimento para
serem educados e treinados nos Estados Unidos ou em outros países industriais
sob os auspícios e programas da fundação. Isto é conseguido financiando a
investigação genética e usando a sua influência junto do governo e outras
agências e ONG’s. Até à data mais de 400 cientistas importantes oriundos das
Filipinas, Tailândia, Quénia e China foram treinados e doutrinados pela
fundação. A fundação Rockefeller tem um passado obscuro, desde a sua criação
em 1914 fora da Standard Oil Trust, fortuna da família Rockefeller. Muito
antes de 1945, a fundação esteve na liderança no financiamento da pesquisa
eugénica, trabalho tornado infame com a experiência nazi de purificação da
raça. Isto incluiu o apoio da Rockefeller à Sociedade Eugénica Americana e ao
Population Council [organização de planeamento familiar sustentada pelo
governo dos EUA e por fundações americanas como a Rockefeller]. Conforme a política
de educação racial do terceiro Reich veio à luz do dia depois da guerra, os
estrategas mudaram o perfil da Rockefeller para campeã das causas ambientais,
escassez de recursos e excesso populacional. A política manteve‑se a
redução global da população. [1] KISSINGER E O NSSM 200 Desde há mais de um quarto de século, a energia da fundação
Rockefeller tem sido canalizada para a Biotecnologia e para a pesquisa e
promoção da Engenharia Genética. Isto depois de décadas de envolvimento em esquemas
de controlo de população no mundo em desenvolvimento. Não há contradição. Em 1972, o presidente Nixon nomeou um quadro da fundação, John D.
Rockefeller III, para chefiar a comissão presidencial “População e o futuro
da América” [“Population and the American Future”]. O mesmo
Rockefeller criou o Population Council em 1952, abertamente chamado de
“crescimento populacional zero”. A comissão de Rockefeller no “População e o Futuro da América”
preparou a fundação para o Memorando de Segurança Nacional [National
Security memorandum] de Henry Kissinger, o NSSM 200, de Abril de 1974,
que citou o crescimento populacional como estratégico e as matérias primas
dos ricos países em desenvolvimento como uma preocupação de máxima prioridade
da Segurança Nacional dos Estados Unidos. Durante os anos 70, quando Kissinger era director do Conselho de
Segurança Nacional e Secretário de Estado, alimentos e petróleo emergiram
como mercadorias estratégicas para a segurança nacional. Kissinger iniciou o
controverso programa petróleo por alimentos no qual uma URSS carente de
alimentos importou uma grande quantidade de cereais dos Estados Unidos e
pagou isso com largas exportações de petróleo soviético. A produção
petrolífera doméstica dos Estados Unidos, fora do Alaska, atingiu o pico em
1970 e a partir daí começou um declínio contínuo. Os Estados Unidos
tornaram-se progressivamente uma nação importadora de petróleo. A Segurança
Nacional ficou atada à segurança do petróleo barato importado, e os alimentos
foram uma arma no arsenal da segurança dos Estados Unidos dessa data em
diante. O colega de gabinete de Kissinger, o Secretário da Agricultura, Earl
Butz, refletiu a política de Kissinger quando constatou: «Homens famintos
ouvem apenas aqueles que tiverem um pedaço de pão. A comida é uma ferramenta.
É uma arma no kit de negociação dos Estados Unidos». Kissinger era então
negociador chefe. Em 1974, Kissinger submeteu o memorando NSSM 200 ao presidente
Nixon, designando o crescimento populacional, dentro do tema chave matérias
primas e os ricos países em desenvolvimento como uma «ameaça à segurança
nacional» dos EUA. Desde então, o controlo das taxas de crescimento económico
e do crescimento populacional em países em desenvolvimento chave tem sido
prioridade da segurança nacional dos Estados Unidos. Kissinger deve a sua
carreira política desde 1950 à sua acção como investigador para a família
Rockefeller, e deve a sua ascensão ao poder ao seu apoio. A família
Rockefeller tem estado no centro da geopolítica americana do petróleo e das
matérias-primas desde 1900, quando a Standard Oil foi construída. Kissinger
estava bem inteirado da importância dos alimentos e da energia para os
interesses dos Estados Unidos. Com o NSSM 200 de Kissinger, a política oficial de Washington foi
impor restrições aos países em desenvolvimento em rápido crescimento,
políticas que forçariam significativos cortes no crescimento populacional. No
NSSM 200, Kissinger deixa implícito que a fome pode ser uma forma eficaz de
reduzir a população. «Fome a larga escala duma forma não experienciada por
várias décadas – de um tipo que o mundo pensava estar permanentemente
banido», era previsível ,escreveu ele. Ele observou que os Estados Unidos e
os outros países dadores provavelmente não vão providenciar a exportação
necessária de alimentos para as regiões afligidas. Em 1975, o sucessor de Kissinger como Conselheiro da Segurança
Nacional, Brent Scowcroft, mais tarde parceiro de negócios de Kissinger,
escreveu: «A liderança dos Estados Unidos é essencial para combater o
crescimento populacional, para implementar o Plano de Acção para a População
Mundial e para progredir na segurança dos Estados Unidos e nos interesses
ultramarinos. O presidente aprova o NSSM 200». Acrescentou Scowcroft. O documento de Kissinger NSSM 200, classificado como secreto e não
tornado público até 1989, traça estimativas do crescimento populacional até
ao fim do século e mais adiante, e o impacto nas necessidades alimentares e
de matérias primas, e especialmente de energia. «As populações em crescimento
sofrerão um sério impacto na necessidade de alimentos, especialmente os
países subdesenvolvidos, mais pobres e com o crescimento populacional mais
rápido», constatou Kissinger. «A produção alimentar mundial precisa de
crescer 2,5% ou mais ao ano numa fase em que os fertilizantes e a terra bem
regada estão a ser largamente utilizados. Portanto, acréscimos da produção
alimentar terão que vir de maiores colheitas», declarou o memorando do
governo. Foi nessa altura que a fundação Rockefeller também começou largas
pesquisas de Engenharia Genética das plantas, incluindo o arroz,
ostensivamente para aumentar as colheitas. Com o NSSM 200, Washington implementou programas de controlo
populacional como pré‑condição para apoio financeiro dos Estados
Unidos, mesmo para o auxílio à fome. Washington garantiu que a redução dos
nascimentos foi adoptada pelo FMI, pelo Banco Mundial e pelas Nações Unidas
como política oficial. Começando a meio da década de 70, toda a ajuda do FMI
e do Banco Mundial ao desenvolvimento dos países alvo ficou dependente da sua
boa vontade para aceitar políticas de controlo da população ditadas por
Washington. O NSSM 200 lista explicitamente 13 países como países-chave, nos
quais os Estados Unidos têm um «especial interesse estratégico e político».
Esses países eram: Índia, Paquistão, Bangladesh, Indonésia, Tailândia,
Nigéria, Filipinas, Turquia, Egipto, Etiópia, México, Brasil e Colômbia. O
crescimento populacional destes países foi considerado uma preocupação
especial para os interesses nacionais dos Estados Unidos, de acordo com
Kissinger. Notavelmente, todos os países-chave têm sido submetidos às maiores
convulsões sociais, económicas e militares desde 1974. A ajuda alimentar
americana, mesmo em situações de fome, foi retirada dos países que recusaram
adoptar o controlo de nascimentos ou as políticas de redução da população
mandatadas pelos Estados Unidos. [2] O NSSM 200 continua uma política não oficial do governo americano
até aos dias de hoje, apesar das concessões públicas da administração Bush ao
Direito Católico dos grupos de defesa da vida. Nisto, o papel da fundação
Rockefeller é central na política de Washington relativamente à Engenharia
Genética na agricultura mundial, especialmente nos países em desenvolvimento
chave na Ásia, África e América Latina. A REDE DE PROLIFERAÇÃO GM DA ROCKEFELLER Em 1971 a fundação Rockefeller, juntamente com a fundação Ford e o
Banco Mundial, estabeleceram o Grupo Consultivo de Pesquisa Agrícola
internacional [Consultative Group on International Agricultural Research]
(CGIAR), que administra 16 centros de pesquisa em vários pontos do mundo, a
maior parte deles em países em desenvolvimento, despendendo 350 milhões de
dólares anualmente. A CGIAR está focada na propagação das colheitas GM no
mundo em desenvolvimento. A CGIAR opera hoje sob a cobertura do Banco Mundial, e atraiu 20
países em desenvolvimento como patrocinadores. O auxílio do Banco Mundial é
administrado na base do acordo do beneficiário para impor políticas de controlo
da população, a forma actual do NSSM 200, mas com Washington oficialmente
fora do contexto. Assim, a fundação Rockefeller, o Banco Mundial, a Monsanto
e outros agro-gigantes e o governo americano, todos estão debaixo dos
auspícios da CGIAR. A missão da CGIAR é promover «agricultura sustentável para segurança
alimentar». Para fazer isto, usou os seus fundos e a influência do governo
para tomar o controlo de umas das maiores colecções do mundo de recursos
genéticos das plantas. Depois a CGIAR pôs esse material à disposição de
companhias como a Monsanto e a Syngenta, «para que novas combinações de genes
possam ser usadas para aumentar a produtividade, a sustentabilidade», assim
declaram. Por outro lado, a CGIAR
mobilizou a proliferação da Biotecnologia nos países em desenvolvimento.
Treinou os mais promissores cientistas e pesquisadores nacionais em
Biotecnologia, assegurando-se que os quadros de pesquisadores nacionais
pró-MG promoveriam o desenvolvimento da agricultura GM e da Biotecnologia
quando voltassem para casa. Para além do seu papel no estabelecimento da CGIAR, a fundação
Rockefeller tem sido o maior dador para do Serviço Internacional para a
Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas [International Service for the
Acquisition of Agri-biotech Applications] ou ISAAA. Todos os presidentes americanos desde George H.W. Bush em 1992, têm
feito das colheitas geneticamente modificadas uma matéria da mais alta
prioridade nacional. O exemplo do US-AID voltar para a ISAAA sob controlo da
fundação Rockefeller é elucidativo. A ISAAA foi originalmente fundada com fundos dos irmãos Rockefeller
com o único propósito de «facilitar a introdução de biotecnologias
propriedade de laboratórios corporativos do mundo industrializado na produção
alimentar e nos sistemas agrícolas dos países do sul». Como isto funciona torna-se claro quando os actuais patrocinadores
da ISAAA são conhecidos. A juntar à fundação Rockefeller, os patrocinadores
incluem a Monsanto (Estados Unidos), A Syngenta (Suíça), Dow AgroSciences (EUA),
Pioneer Hi-Bred (EUA), Cargill (EUA), Bayer CropScience (Alemanha), e um
misterioso “dador anónimo” (EUA), e o US-AID do departamento de estado. O argumento das instituições por trás da ISAAA é de que o mundo em
desenvolvimento é onde o aumento populacional faz crescer a necessidade de
alimentos de uma forma mais aguda, mas também é onde os recursos económicos
para satisfazer essas necessidades são mais escassos. Por essa razão, a ISAAA
proporcionou a introdução de tecnologias e colheitas GM corporativas do mundo
industrializado no sul, actuando como “agentes honestos”, nas suas palavras. Enquanto o NSSM 200 de Kissinger escolheu, em 1974, 13 países em
desenvolvimento para redução populacional, o ISAAA escolheu 12 países para a
introdução de culturas GM. Seis desses países eram os mesmos que Kissinger
tinha listado em 1974: México, Brasil, Indonésia, Filipinas ,Tailândia e
Egipto. Em adição, a ISAAA listou a Malásia, o Vietname, o Quénia, o
Zimbabwe, a Argentina e a Costa Rica. Por sua própria iniciativa, a ISAAA lançou propaganda negativa
contra países hostis ás culturas GM, e treinou as elites científicas dos
países alvo, frequentemente trazendo‑as para os Estados Unidos ou para
outros centros na liderança da pesquisa GM, como o Centro de Pesquisa das
Ciências da Vida da Monsanto [Monsanto Life Sciences Research Center],
para aprenderem sobre o mundo da elite da pesquisa GM. Randy Hautea está à
cabeça do grupo SEAsia Center nas Filipinas, inserido no Instituto
Internacional de Pesquisa de Arroz [International Rice Research Institute],
IRRI, estabelecido pela fundação Rockefeller. Hautea afirmou recentemente que este grupo seleccionou a Indonésia,
as Filipinas, a Malásia, a Tailândia e o Vietname porque: «Todos eles têm
políticas para prosseguir e adoptar aplicações biotecnológicas». O que Hautea
não disse é que essa introdução de sementes GM significa a introdução de
dispendiosos pesticidas GM e outras políticas que só as companhias globais do
agronegócio poderão implementar. A produção alimentar dos países chave tem sido transformada no
mercado global do agronegócio, que não é compatível com a segurança alimentar
nacional. Hautea não explica como a Biotecnologia disponibilizada, digamos, à
Indonésia ou à Malásia pela Syngenta ou pela Monsanto, contribui para o
benefício dos pequenos agricultores, o coração da sua produção alimentar. Até
à data, de facto, ainda não existe nenhuma prova dos benefícios das culturas
GM para as famílias de agricultores. De facto, em regra dá-se o contrário. Os
agricultores são frequentemente coagidos ou forçados pelo seu próprio governo
a comprar as sementes GM da Monsanto ou outras sementes GM. Através da ISAAA e outras redes relatadas, a fundação Rockefeller
está no centro das acções globais da Monsanto, DuPont, Cargill and Dow
Agri-sciences, Syngenta, Bayer AG e outros dos maiores gigantes da
Biotecnologia, estando à cabeça da «nova revolução verde», como o Rockefeller
Conway a denomina. [3] ALARGANDO O CONTROLO GM A lista das principais plantas GM inclui o arroz GM, soja, milho e
numerosas outras culturas agrícolas básicas. A fundação Rockefeller tem
jogado um papel chave no apoio ao desenvolvimento da grande maioria dos novos
tipos GM. Mais de 70% de todos os alimentos processados nos Estados Unidos
para consumo interno provêm de produtos GM. Quase toda a ração animal usada
para alimentar o gado, e outros animais nos Estados Unidos e nos maiores
mercados mundiais são rações GM, principalmente de soja e milho. Muitos americanos desconhecem o que comem. O governo dos Estados
Unidos recusou‑se a rotular os produtos que contêm GM na sua
composição. A nova lei americana de rotulagem também não requer que os
produtores identifiquem a ração animal GM utilizada, deixando os consumidores
ignorantes quanto aos produtos GM que comem. Em 2003, o total global de GM
plantados foi de 167 milhões de acres ou 68 milhões de hectares, de acordo
com dados da ISAAA. Isto significou um crescimento de 15% num único ano. Os
Estados Unidos são o maior produtor de GM com 106 milhões de acres de soja
GM, milho e algodão. Globalmente, 55% de toda a soja são culturas GM. A soja
é uma das mais essenciais e ricas fontes de proteínas para consumo animal e
humano. Cada mordida num hamburguer McDonald's contém tanto quanto 30% de
soja GM. Sem sequer imaginarem, muita gente na América do norte, no leste da
Ásia e na Europa comem regularmente produtos GM ou animais alimentados com
rações GM. O que é mais assinalável é o facto de os agricultores da América
do norte, Austrália, Argentina, e mais recentemente depois de uma longa
batalha, no Brasil, terem entregue o seu controle sobre as sementes a um
punhado de gigantes multinacionais da Biotecnologia que têm uma estratégia
deliberada de dominar e controlar o cultivo global da alimentação base. A EXTERMINADORA NÃO ESTÁ MORTA Se as nações emergentes, desde a China à Índia, à Indonésia e
outras, manejassem no sentido de criar a sua auto-suficiência alimentar
independente da confiança nos Estados Unidos ou nos suprimentos de géneros da
OECD, a capacidade dos Estados Unidos se manterem como poder dominante
diminuiria, independentemente do seu poder militar. Que melhor maneira de controlar o destino da China, da Índia, do
leste da Ásia e do resto do mundo do que estabelecer um controle permanente
sobre a sua capacidade de produzir alimentos? Através da Monsanto e do cartel
da agricultura biotecnológica, que domina o cultivo global de GM. Apenas há
dois anos atrás parecia que a Monsanto podia bem estar à beira da ruína
financeira. Agora, está em vias de se tornar uma das corporações mais
poderosas do mundo. Interessante foi a intervenção directa da fundação Rockefeller em
Outubro de 1999, que foi responsável pela muito propagandeada decisão de «não
comercializar» a sua “tecnologia terminator” para sementes GM. O
presidente da Monsanto Robert Shapiro escreveu à fundação Rockefeller que
poria de parte ou adiaria a tecnologia das «sementes estéreis», formalmente
designadas de Tecnologia Genética de Uso Restrito [Genetic Use Restriction
Technology] (GURT). A decisão da Monsanto foi um estratagema táctico,
aceitando o concelho do Rockefeller Conway para acalmar a crescente oposição
às culturas GM, especialmente na Europa. A tecnologia exterminadora (terminator)
de sementes da Monsanto, na qual o Departamento de Agricultura dos Estados
Unidos também tem uma parte dos direitos da patente, foi considerada como a
arma definitiva, a bomba de neutrões da agricultura, apenas isso. As sementes terminator irão resolver o maior problema da
Monsanto e dos outros gigantes GM em colectar o pagamento das sementes GM
patenteadas nos países em desenvolvimento, uma coisa tornada possível há uns
anos atrás com as negociações comerciais do direito de patentes do GATT. O comércio livre na agricultura está hoje no coração da OMC. De
acordo com o tratado da OMC, criado na ronda de negociações do GATT no
Uruguay no princípio de 1990, as corporações multinacionais agora têm o
direito, reforçado pelas sanções da OMC, de cobrar royalties pela
“propriedade intelectual”. O acordo do Uruguay, ratificado por todos os países membros do GATT
sob enorme pressão dos Estados Unidos, permite pela primeira vez a uma
corporação o patenteamento de uma variedade específica de planta, mesmo
considerando que essa espécie de planta possa ter sido do domínio público num
país como o Paquistão e o Perú por milhares de anos. O termo da OMC é Acordo
sobre Aspectos de Direitos de Propriedade Intelectual [Trade Related
Aspects of Intellectual Property Rights], ou TRIPS. Washington puxou do
controverso acordo TRIPS juntamente com o GATT, acusando os países em
desenvolvimento de “pirataria” por não pagarem as dívidas às multinacionais,
queixando-se as companhias por estarem a perder centenas de milhões com
dívidas não pagas de fertilizantes, sementes e drogas. Mickey Kantor,
representante do comércio dos Estados Unidos, que negociou os acordos do
Uruguay, hoje senta-se no concelho da Monsanto. O acordo TRIPS da OMC inclui direitos de patente sobre as plantas
GM. De acordo com o TRIPS a companhia Suíça de agrotecnologia, Syngenta,
possui um potencial controle da maior parte do arroz no Paquistão, Índia e
Ásia. A Monsanto domina as patentes de soja, milho, algodão e outras culturas
de primeira importância. O seu único problema é como colectar o pagamento dos
royalties a milhões de agricultores. Recolher o pagamento das sementes GM em
muitos países em desenvolvimento é extremamente difícil. Fica mais fácil se as sementes terminator forem vendidas. A tecnologia terminator, pela qual a Monsanto pagou 1,6 mil milhões de dólares para a adquirir, permite a introdução de um gene suicida em plantas como o milho, algodão ou soja e potencialmente o trigo. Um agricultor usando sementes terminator não mais poderá partilhá‑las com outros agricultores nem plantar as suas nos anos seguintes. Ele será obrigado a voltar à Monsanto em cada época de plantio para comprar a sua sobrevivência, na forma de mais sementes suicidas, assim como o herbicida especial que a Monsanto desenvolveu para ser usado com elas. Os originais perpetradores da tecnologia terminator, Delta & Pine Land Seed, que a Monsanto comprou em 1998, notaram especialmente que os mercados de arroz e trigo da China, Índia e Paquistão, assim como dos países mais populosos eram o alvo da terminator. As implicações políticas de tal desenvolvimento são fáceis de imaginar. A manobra de relações públicas Monsanto‑Rockefeller de «não
comercializar» sementes terminator foi claramente destinada a acalmar
a crescente oposição à proliferação de sementes GM, para ganhar tempo que os
permitisse espalhar as culturas GM pelo mundo, América do norte, Brasil,
Argentina e agora a União Europeia. Depois da expansão GM, é fácil activar o terminator. |
||
|
Em fevereiro de 2003, numa reunião da Federação Internacional de
Sementes [International Seed Federation] em Lyon, Roger Krueger da
Monsanto fez um discurso intitulado: “Os benefícios dos GURTS”. Argumentou
que a tecnologia terminator iria de facto beneficiar os agricultores
pobres. A Monsanto argumenta num novo estratagema, de que a tecnologia terminator
irá de facto impedir a contaminação GM das plantas não GM, promovendo a mesma
ideia só que vestida da roupa nova de ferramenta de Biosegurança. Claramente
eles acreditam que a resistência à tecnologia terminator e aos GM está
a acabar. Reporta-se que a Monsanto está pronta para introduzir a
comercialização das sementes terminator em três ou quatro anos. USO AMBÍGUO E CULTURAS GM: GUERRA BIOLÓGICA? Vão longe os dias em que a USDA representava os interesses das
famílias de agricultores americanos. Hoje em dia, o agronegócio, dominado por
uma dúzia ou mais de gigantes internacionais preocupa, é a segunda indústria
mais lucrativa a seguir à farmacêutica, com um valor anual pelos 800 mil
milhões de dólares. A USDA hoje é o lobby organizado dos gigantes do
agronegócio, não mais influente que a Monsanto. A oficial da administração
Bush, Ann Veneman, secretária da USDA, é um quadro antigo da Monsanto, e, não
surpreendentemente, uma defensora dos GM. Vários outros membros da
administração têm também ligações à Monsanto. A tecnologia terminator e as aplicações GM nas mãos da
Monsanto e de mais ou menos uma dúzia de corporações globais, apoiadas pela
USDA, pelo Departamento de Defesa e pelo Departamento de Estado, podem abrir
a porta a potenciais formas de guerra biológica nunca imaginadas antes contra
populações inteiras. Um recente estudo da Força Aérea Americana assinala que
essas «armas biológicas oferecem grandes possibilidades de uso ao contrário
das armas nucleares». A US-AID, que presta assistência alimentar a África, foi, nos meses
recentes, relacionada à boa vontade de um país em aceitar as culturas GM. À
assistência americana no combate ao HIV em África aconteceram coisas
similares. Os OGM tornaram-se claramente uma estratégia, uma ferramenta
geopolítica para Washington. Os defensores da tecnologia GM argumentam que ninguém no seu
perfeito juízo consideraria um uso tão drástico do cultivo GM para controlar
vastas áreas do suprimento alimentar mundial. «Somos tentados a dizer que
ninguém no seu perfeito juízo pensaria sequer em usar coisas dessas». O
professor de Biologia da Universidade de Stanford Steven Block, colocou-se
num outro contexto. Block apressou-se a acrescentar, «mas nem toda a gente
está no seu perfeito juízo!» Block, um consultor importante do governo dos
Estados Unidos, preveniu: «Qualquer tecnologia que pode ser usada para
inserir genes no DNA, pode ser usada para o bem ou para o mal». A Engenharia
Genética pode ser usada para produzir arroz com maiores níveis de vitamina A,
mas pode da mesma forma criar sementes contendo bactérias altamente tóxicas.
Os investigadores dos EUA fizeram primeiro isto em 1986. A criação genética
de armas biológicas mais tóxicas e difíceis de detectar foi uma motivação
importante para as nações apelarem a uma sólida convenção acerca das armas
biológicas. O controverso programa dos governos americanos de erradicação da droga da Colômbia ousou pulverizar colheitas com o mortal glyphosate. O glyphosate, segundo o nome da patente, Roundup, é o herbicida GM vendido pela Monsanto apenas para as suas plantas GM. A administração Bush tem repetidamente recusado rectificar uma Convenção de Armas Tóxicas e Biológicas, argumentando que precisa de liberdade para desenvolver defesas contra a guerra biológica. A liberdade pode, contudo, funcionar para os dois lados. A manipulação genética abre possibilidades nas mãos de um poder malévolo de causar males desconhecidos à espécie humana. Mesmo que seja o caso de a tecnologia GM aumentar a produção, o que não está provado, este potencial para controlar o fornecimento alimentar de nações inteiras é demasiado poder para ser cedido a uma única corporação ou governo. |
|
|
|
Géneros essenciais, como água fresca, não são mercadorias vulgares para serem vendidas sob as regras do mercado livre. São direitos humanos básicos como o direito de respirar. Não devemos consentir a nenhum governo o poder que os actuais estrategas GM advogam ser a nossa segurança alimentar. ___________ [1] B.K. Eakman,
"The Cloning of the American Mind," gives information on
Rockefeller Foundation funding of eugenics. http://www.geocities.com/SoHo/Exhibit/2412/eugenics/index.html
s. Jim Heron, “Population
Politics and the Shambles of Africa” in catholiceducation.org. [2] National Security
Strategy Memorandum, NSSM 200, “Implications of Worldwide Population Growth
for U.S. Security and Overseas Interests”, National Security Council, April
24, 1974, Henry Kissinger, director, National Security Council. “The
Over-population cabal” in Mindszenty Report, Cardinal Mindszenty
Foundation, April 1999. [3] “ISAAA in Asia
promoting corporate profits in the name of the poor”, October 2000, in www.grain.org/publications/reports/isaaa.html.
[4] Os planos de sementes terminator da Monsanto estão descritos em Monsanto Breaks Promise to Abandon Terminator Technology, 23 Abril, 2003. Simon Whitby, “Biological warfare against crops”, revisto em www.rainbowbody.net/Ongwhehonwhe/plantwar.htm aponta o uso pelos EUA do Roundup contra colheitas na Colômbia. Mark Schwartz, “Biological warfare emerges as 21st Century threat”, in Stanford Report, 11 Janeiro, 2001, detalha os avisos de Block, um membro de Jason, um grupo governamental de pesquisa altamente secreto. A Força Aérea dos EUA publicou sobre o assunto, “Biological Weapons for Waging Economic Warfare”, por Lt. Col. Robert Kadlec, que fala em « usar a guerra biológica para atacar gado, colheitas ou ecossistemas». In www.airpower.maxwell.af.mil/airchronicles/battle/chp10.html. |
||