Informação Alternativa

Mundo

31/03/2004

 

Argentina: do celeiro do mundo à fome generalizada,

pela mão da monocultura da soja transgénica

 

Alberto Jorge Lapolla *

Rebelión

 

«Quando depois de 1946 uma melhor distribuição da riqueza elevou o povo, essa classe infecunda e perversa viu demagogia e esbanjamento porque o povo comia.»

Juan José Hernández Arregui

FOME NO EX “CELEIRO DO MUNDO”

Ao longo da sua história, o povo argentino quase não conheceu a fome em massa. Tal feito foi muito mais marcado a partir das profundas transformações levadas avante pelo peronismo depois de 1945, quando a Argentina passou a possuir uma das melhores distribuições do rendimento do mundo, questão que juntamente com uma enorme estrutura industrial, uma formidável economia estatal e uma produção agro­‑pecuária diversificada – apesar da forte rémora latifundiária – destinada principalmente ao mercado interno, garantiram – até ao advento do Infame Traidor à Pátria Carlos S. Menem à presidência da nação – o pleno emprego e a ausência de fome em massa na nação.

Apesar das políticas regressivas implementadas depois de 1955 produzirem importantes bolsas de pobreza regionais, é possível assinalar no entanto que, no longo período histórico de 1945 a 1990, o povo argentino desconhecia a fome generalizada.

Hoje a situação é irreconhecível: a Argentina, o outrora “celeiro do mundo”, o país da “melhor carne do mundo”, é agora uma mera republiqueta sojeira produtora de commodities forrageiras para que a União Europeia, a China e os EUA, criem o seu gado.

O nosso povo sofre o maior castigo da sua história: 55 crianças, 35 adultos e 15 pessoas idosas morrem diariamente por causas vinculadas com a fome, isto é, quase 450.000 pessoas entre 1990 e 2003, um verdadeiro genocídio económico [1]. Vinte milhões de pessoas (numa população de 38.000.000) encontram-se sob o nível de pobreza, 6.000.000 são indigentes (isto é, passam fome extrema) e cerca de 4.500.000 estão desempregadas.

No entanto, a Argentina produz a maior taxa de alimentos por habitante do mundo com os seus mais de 70 milhões de toneladas de grãos, os seus 56 milhões de cabeças de gado bovino, uma cifra similar de ovinos e outra maior de porcinos, o que produz 3500 Kg de alimentos/hab./ano. No entanto, tal massa de produtos alimentícios é testemunha da maior fome e genocídio social da nossa história.

A FOME TRANSGÉNICA

Este brutal processo de revanchismo social serve, no entanto, de exemplo para os demais povos do mundo, os quais podem observar in situ o papel jogado pelas culturas transgénicas publicitadas pela Monsanto, pela Syngenta, pela Dupont e demais multinacionais donas do negócio biotecnológico, como a panaceia para paliar a fome da humanidade.

A fome do povo argentino, as suas milhares de crianças mortas pela fome, os seus anciões mortos de fome, os milhões de pobres revolvendo no lixo, procurando algo para comer, são o exemplo mais claro e contundente onde se pode procurar a verdade dos efeitos das culturas transgénicas sobre a economia dos povos.

A Argentina produzirá este ano 34,5 milhões de toneladas de soja transgénica [2] (50% do total da produção de grãos) em algo mais de 14 milhões de hectares (54% da superfície semeada), 99% dessa soja é transgénica, a qual tem por destino principal a exportação para o consumo forrageiro da UE e da China que utilizam esta soja para a criação de gado, que exportam para mercados que deixaram de importar carne argentina porque a sua produção bovina a céu aberto e em pastos naturais foi afectada pela expansão descontrolada da soja transgénica. Assim produzindo commodities em lugar de alimentos e produtos industriais, o governo obtém divisas para pagar a ilegítima dívida externa.

A soja RR (round up-ready, resistente ao glifossato) propagou-se no nosso país, deslocando e liquidando dezenas de outras actividades vinculadas directamente com a produção de alimentos, o consumo da população e a produção industrial. Assim desapareceram culturas hortícolas, apícolas, tamboeiras, campos de gado, pastos, pomares, produções florestais, montes e selvas naturais, bem como outras culturas tais como papa, arroz, batata doce, lentilha, ervilha, algodão, linho, trigos, milhos, etc., etc. Este processo afectou gravemente a antiga e abundante soberania alimentar da nação, obrigando-nos a importar alimentos tais como leite, frangos, lentilhas, ervilhas, entre outros.

A expansão da soja transgénica permitiu, por sua vez, um processo de concentração da terra como não se via na Argentina desde os tempos da enfiteusis rivadaviana. Segundo o último censo agrário, entre 1991 e 2001 desapareceram em redor de 160.000 produtores pequenos, dando como resultado que 6.200 proprietários possuam 49,6% do total da terra e que 17.000.000 de hectares se encontrem já em mãos estrangeiras [3].

A expansão da monocultura de soja é a consequência do longo ciclo de contra­‑reforma agrária iniciado em 1967 pela Lei Raggio do ditador Onganía e aprofundada até à saciedade pelas políticas de reprivatização da renda agrária, desindustrialização forçada, financeirização do capital e revanchismo social de José A. Martínez de Hoz, Domingo F. Cavallo e Felipe Solá, dando por  resultado que a Argentina tenha deixado de ser um país industrial, para voltar ao modelo agro­‑exportador imposto pela Grã­‑Bretanha depois das derrotas nacionais de  Caseros e Pavón, no século XIX.

CATÁSTROFE SOCIAL QUE ANTECIPA UMA CATÁSTROFE ECOLÓGICA

O sistema de cultivo utilizado para a soja RR de semeadura directa, com alto uso de agro­tóxicos (oficialmente reconhece­‑se hoje o uso de 150 milhões de litros/ano de glifossato [4], ainda que se estime que a cifra real é maior) produziu já, na zona afectada pela monocultura, uma desertificação biológica marcada, com o denunciado desaparecimento de aves, lebres, crustáceos, minhocas, insectos, etc., afectando particularmente a microbiologia do solo responsável pelos processos que desenvolvem e recuperam a fertilidade natural dos mesmos, exterminando bactérias e outros microorganismos, permitindo a sua substituição por fungos.

Se se chegasse a aprovar o Milho transgénico RR, a cifra de glifossato pelo menos duplicaria, produzindo a astronómica quantidade de mais de 300 milhões de litros por ano, a qual afundaria até à exaustão a catástrofe ecológica em flor.

A Semeadura Directa também prejudica pelos efeitos de diminuição da temperatura do solo que a acumulação de matéria orgânica não descomposta pela semeadura de soja, sobre soja sem arroteamento, produz. Também deve contabilizar-se a aparição de super­‑malezas resistentes ao glifossato.

Os efeitos da Semeadura Directa sobre a capacidade de absorção de água pelo solo puderam ser claramente comprovados nas catastróficas inundações de Santa Fé do ano 2003 – que produziram uma enorme cifra de mortes –, onde à escorrenteza exponencial que permitem os campos não arroteados da soja RR, se somou o efeito do desmonte – e prática de cultivo nas mesmas condições – do Norte santafesino, amplas extensões de Santiago del Estero e do Norte cordobés.

Ao mesmo tempo as fumigações com agrotóxicos sobre os cultivos de soja estão a adoecer e a matar grande quantidade de pessoas, como se comprova nas localidades de Barrio Ituzaingó Anexo, Povo Italiano, Río Ceballos, Saldán, Alto Alberdi, Jesús María, Colonia Caroya, todos em Córdoba ou Lomba Sené na Formosa e outras localidades no litoral.

A monocultura de soja está a produzir um verdadeiro deserto verde, propagando uma agricultura sem agricultores, que tem como destino final o genocídio pela fome do nosso povo, a desertificação dos nossos solos da grande região chaco-pampeana –processo que já se manifesta na região chaquenha – e a perda talvez definitiva da nossa biodiversidade, com grave prejuízo para a nossa soberania nacional.

Por sua vez, a contaminação do ecossistema com a presença em massa de material transgénico afectará de maneira irreversível o mesmo, acentuando a catástrofe ecológica.

A isto devem somar-se os graves efeitos que sobre a saúde da população carenciada produz o consumo de soja forrageira como “alimento” nos refeitórios populares, com a sua sequela de efeitos no desenvolvimento genital de meninas e meninos e na marcada descalcificação que a mesma induz.

Por fim, queremos advertir que a monocultura de soja poderia ser para a nação o que foi o modelo da conversibilidade: a festa de hoje converter­‑se­‑á na tragédia de manhã.

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* Eng. Agrónomo genetista - Membro do Grupo de Reflexão Rural

 

[1] IDEP, cifras de Distribuição do Rendimento na Argentina, Nov. 2003.

 

[2] Clarín 17-3-04.

 

[3] INDEC – Censo Nacional Agropecuario 2001.

 

[4] Walter Pengue, Argentina: Soja. O Grão da Discórdia?, Fevereiro de 2004.

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