Informação Alternativa

Mundo

29/05/2003

 

Agora os “biopiratas” são os camponeses?

 

Silvia Ribeiro *

La Jornada

Depois de um julgamento de mais de nove anos, a Monsanto conseguiu ficar com uma patente (a europeia 301.749) sobre todas as variedades de soja transgénica que existem – e as que poderiam existir – enquanto seja válida. É a primeira resolução deste tipo que outorga direitos monopólicos exclusivos não sobre uma variedade, mas sobre uma espécie alimentar. Originalmente foi outorgada em 1994 à Agracetus, então subsidiária da gigante química WR Grace.

Organizações da sociedade civil, como RAFI (agora Grupo ETC) e Greenpeace, alertaram sobre a imoralidade de reclamar direitos monopólicos sobre uma espécie, e junto com outras iniciaram em 1994 uma acção judicial para conseguir a sua revogação. Empresas biotecnológicas, como Sandoz, Ciba-Geigy, a Monsanto, Dekalb e Pioneer Hi­‑Bred, também alegaram que se deteria a investigação e que uma patente deste tipo não podia ser legal. Em 1994, a Monsanto apelou contra esta patente ante o gabinete europeu respectivo. Ao longo de 292 páginas argumentou que a patente devia ser «revogada na sua totalidade» porque não cumpria com os requisitos mínimos: não era uma «novidade», não tinha «passo inventivo» e o requisito de divulgação da informação, necessário para obter qualquer patente, era «altamente deficitário». Em 1996, a Ciba Geigy e a Sandoz uniram­‑se para formar a Novartis, enquanto a Monsanto comprou a Dekalb e a Agracetus. A partir de então, a A Monsanto retirou a acção e disse que ia defender a sua patente. A Novartis – que depois se fundiu com a AstraZeneca e se transformou na Syngenta – continuou a sua apelação contra a resolução juntamente com a Pioner Hi-Bred (agora subsidiária da DuPont).

Apesar da variedade e amplitude de argumentos apresentados, o Gabinete Europeu de Patentes ignorou todos os aspectos éticos, de segurança e soberania alimentar e, num acto aberrante, decidiu a 6 de Maio a favor da Monsanto, mudando um só ponto, pelo qual se tentava controlar também outras plantas modificadas usando a mesma metodologia.

Segundo dados de 2002, a Monsanto vendeu o total das sementes de soja transgénica no mundo, plantadas em 36,5 milhões de hectares, que é mais de metade de toda a cultivada a escala global. A Monsanto encaminha­‑se para o monopólio exclusivo de uma das culturas alimentares mais importantes do planeta – utilizado como forragem, azeite e factor de produção de mais de 60 por cento dos alimentos processados dos supermercados – com um valor de 22 mil milhões de dólares em 2001.

Os maiores exportadores de soja no mundo são os Estados Unidos, o Brasil, a Argentina e a China. Destes, somente o Brasil não permitiu o cultivo de transgénicos. A Monsanto pressionou fortemente para introduzir a soja modificada nesse mercado, o segundo exportador à escala mundial. Não o conseguiu devido ao protesto e a acções legais de organizações ambientalistas, de consumidores e camponeses que desde há quatro anos frenaram a autorização de transgénicos. No mesmo período, os grandes fazendeiros anunciaram que iam a contrabandear soja transgénica para pressionar a sua aprovação. Muitos pensam que isto foi uma política apoiada ou inclusive impulsionada pela Monsanto. Paradoxalmente, o governo de Lula, em lugar de sancionar os contrabandistas, permitiu a comercialização da colheita de soja geneticamente modificada que tinha sido plantada ilegalmente.

No mesmo dia em que foi aprovada a sua patente monopólica, a Monsanto anunciou que ia iniciar os trâmites para cobrar as regalias da sua patente pela oleaginosa plantada ilegalmente no Brasil. A associação de cultivadores de soja estadunidense começou uma campanha de pressão alegando que os agricultores brasileiros são “biopiratas” por não pagarem regalias à Monsanto, publicando uma foto de um labrego vestido de pirata carregando um saco de soja transgénica para um barco corsário. Interessante imagem para os fazendeiros brasileiros que diziam defender o seu direito a plantar o que quisessem. Verdadeiramente preocupante é ver como o direito ancestral dos agricultores a guardar e replantar as suas próprias sementes é esvaziado de conteúdo pelos sistemas de patentes, e que as mesmas empresas biocorsárias que desde há décadas vêm roubando as inovações e conhecimentos camponeses e indígenas, agora dizem que os biopiratas são estes, com a legalidade da sua parte. É o que espera todos os que cultivem transgénicos em qualquer parte do mundo.

Ante isto, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil (MST), juntamente com organizações participantes no seminário Jornadas de Agro­‑ecologia no Paraná, ocuparam na semana seguinte uma fazenda da Monsanto em Ponta Grossa, queimando os cultivos transgénicos que ali se encontravam. O MST voltou a tomá‑la uns dias depois e anunciou que iam repetir a acção em cada fazenda que plantasse organismos geneticamente modificados.

Os casos do Brasil com os transgénicos e a Monsanto mostram­‑nos o que podemos esperar por permitir sistemas de patentes e liberar transgénicos. O legal, sem dúvida, não é necessariamente o legítimo.

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* Silvia Ribeiro é investigadora do Grupo ETC

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