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11/12/2003 Marta
Caravantes Agencia
de Información Solidaria Assistimos nos últimos anos
ao que poderíamos denominar a “sofisticação da espoliação”, isto é, a criação
de subtis medidas, recursos e legislações por parte dos países ricos para
apropriar-se dos recursos naturais do Sul. A usurpação da biodiversidade por
métodos “legais” leva‑se a cabo com a mesma dinâmica sofisticada
daqueles desvirtuadores da realidade que qualificam de “humanitárias” as
guerras ou de “desenvolvimento” a perpetuação do bem-estar para uns poucos.
Um desses subtis modos de roubo é o actual sistema de patentes. Os famosos
“direitos de propriedade intelectual” converteram‑se na chave para que
umas poucas transnacionais açambarquem os recursos naturais do mundo.
Enquanto nos foros internacionais se constata como os mecanismos para acabar
com a fome não prosperam, as multinacionais competem numa feroz corrida onde
tudo vale para patentear qualquer pedaço de vida que seja susceptível de
negócio, sejam espécies de plantas cultiváveis, microorganismos, animais,
processos biológicos universais ou segmentos genéticos procedentes de seres
humanos. UMA LEGISLAÇÃO SOB MEDIDA Na sua origem, o sistema de patentes
tratava de estimular a inovação, premiar os inventores industriais e impedir
o roubo das novas criações. Nada mais longe do que agora acontece. Por um
lado, à evolução da engenharia genética e da biotecnologia não correspondeu
uma evolução paralela do regulamento de patentes. E por outro, quando a
legislação se criou, foi sempre em função das necessidades das grandes
empresas. O resultado extravasou qualquer previsão catastrofista: desde há um
par de décadas foram‑se aprovando solicitações de patentes sobre
material vivo, algo que não tinha ocorrido antes ao longo da história e que
criou uma jurisprudência muito perigosa. À margem das questões éticas, esta
febre patenteadora está a gerar um descalabro económico no Sul e põe em risco
a sobrevivência da segurança alimentar. O marco legal vem definido
pelos famosos “Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados
com o Comércio”, mais conhecidos como TRIPS (por suas siglas em inglês), que
asseguram que os direitos das patentes sejam respeitados por todos os países
membros da Organização Mundial de Comércio (OMC). Como se fosse pouco, para
reforçar os monopólios criaram‑se à posteriori os TRIPS-plus,
requisitos de protecção dos direitos de propriedade intelectual, que
habitualmente se estabelecem através de convénios bilaterais, e que são mais
rigorosos do que os TRIPS exigidos pela OMC. Segundo a ONG Grain, a União
Europeia forçou compromissos TRIPS-plus relativos à propriedade intelectual
sobre formas de vida em quase 90 países em via de desenvolvimento. Isto exige
aos países signatários, entre outras coisas, entrar a fazer parte da União
Internacional para a Protecção das Obtenções Vegetais (UPOV), o que significa
que os seus agricultores terão que pagar regalias e enfrentar outras restrições
sobre as sementes, muito além das prescrições da OMC. O grupo político “Os
Verdes” pediu à Comissão Europeia que explique a política de coerção que,
sobre patentes, levam implícitos os convénios bilaterais que realiza com os
países em desenvolvimento, por exemplo os acordos já assinados com o
Bangladesh, o Líbano e Marrocos. O ROUBO DISFARÇADO Com o tecido legal bem
armado, as transnacionais já só precisam criar uma linguagem à sua medida que
dissimule o delito. “Bioprospecção” é a palavra escolhida para encobrir o
roubo dos recursos naturais. Com este termo, as multinacionais definem as
suas actividades de “exploração” da biodiversidade, especialmente nas zonas
onde vivem povos indígenas, cujos conhecimentos milenares sobre animais e
plantas são “recolhidos” por estes “pesquisadores” como se fossem achados
próprios. Os exemplos sobre a apropriação de recursos do Sul são inumeráveis.
Em 1994, a empresa de biotecnologia Agracetus obteve uma patente que abarcava
todas as variedades transgénicas do feijão de soja, produto alimentar básico
para milhões de pessoas no mundo. A Monsanto, a omnipotente companhia
estadounidense, opôs‑se com veemência a dita patente pois considerava
que «não implicava nenhum processo criativo». Tempo depois, a Monsanto
comprou a Agracetus, fez-se com os direitos mundiais da patente e impôs um
férreo controle à sua exploração. Entre outras coisas, impede aos
agricultores guardar uma só semente da sua colheita para semeá‑la na
safra seguinte, como se faz na agricultura tradicional. Em 1999, a Monsanto
já tinha denunciado mais de 475 agricultores sob suspeita de terem replantado
as sementes. Mas isto é só uma pequena
mostra. Em 1986, a International Plant Medicine Corporation dos EUA patenteou
nada menos que a ayahuasca, planta sagrada dos povos indígenas da Amazónia.
Em 1994, dois “pesquisadores” da Universidade de Colorado, patentearam uma
variedade da quinua, cereal rico em proteínas e parte essencial da dieta de
milhões de pessoas na região andina da América. Em 2001, a empresa francesa
DuPont patenteou uma variedade de milho com alto conteúdo em azeite que já se
cultivava no México de maneira tradicional. Em 1985, o importador de madeira
estadounidense Robert Larson patenteou alguns usos da árvore Nim, empregada
desde há milénios como planta medicinal na Índia. Felizmente, todas estas
patentes conseguiram ser revogadas depois das denúncias de ONG e organizações
indígenas. A vitória mais recente foi no passado 12 de Novembro, quando o
Escritório de Marcas e Patentes dos EUA cancelou por fim a patente da
ayahuasca, depois da luta perseverante empreendida por organizações indígenas
de nove países sul‑americanos. O extremo da febre das
patentes protagonizou‑o a companhia japonesa Asahi Foods que patenteou
o nome do “cupuaçu” – popular fruta amazónica de alto conteúdo nutritivo -
como marca a nível internacional. Isto impede que o Brasil possa exportar a
sua fruta autóctone com o seu verdadeiro nome. É como se alguém registrasse
“maçã” ou “banana” e se erigisse no único capaz de comercializar ditas frutas
com os seus nomes originários. O facto provocaria riso se não fosse de tal
calibre o dano que ocasiona. O VALOR DA ESPOLIAÇÃO O alcance deste roubo
sistemático aos países do Sul é incalculável. Segundo o Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), só o valor das plantas medicinais do
Sul utilizadas pela indústria farmacêutica é de uns 32.000 milhões de dólares
ao ano. A Rural Advancement Foundation International (RAFI) estima que os
Estados Unidos devem aos países pobres cerca de 200 milhões de dólares de
regalias em agricultura e mais de 5.000 milhões de dólares em produtos
farmacêuticos. Em 2001 a RAFI apresentou o seu relatório Concentration in
Corporate Power: The Unmentioned Agenda, onde expunha dados precisos
sobre os riscos que para a alimentação e a saúde humana tem o actual sistema
de comércio e patentes. Só 10 empresas possuem uma participação próxima a 84%
do mercado global de produtos agro‑químicos, valorizado em 30.000
milhões de dólares; e 10 companhias controlam quase um terço do mercado
mundial de sementes, estimado em 24.000 milhões de dólares. DuPont, Monsanto,
Syngenta e Advanta, são alguns destes gigantes que estão a pôr em risco a
segurança alimentar. Estas poucas companhias controlam cerca de duas terças partes
do mercado global de pesticidas, a quarta parte do mercado das sementes e
praticamente a totalidade do mercado de sementes manipuladas geneticamente. A moda da acumulação de
patentes está a degenerar num lucro imoral e desorbitado de algumas empresas
cujo maior mérito é ter-se colado no amparo legal dos direitos “de
propriedade intelectual” para registrar o que não é seu e despojar dos
direitos de uso os seus verdadeiros proprietários. E o pior não é que uns
poucos enriqueçam, mas que se condene à miséria a maioria. Além da pressão
política para que os governos protejam os recursos naturais e se neguem a
assinar acordos abusivos sobre direitos de patentes, nós cidadãos temos
também uma responsabilidade à hora de negar-nos a consumir os produtos dessas
transnacionais. Estar bem informado sobre o que comemos e consumimos é uma
obrigação. Desgraçadamente, cada vez é mais fácil convertermo‑nos em
cúmplice da infâmia; mas a ignorância ou a indiferença já não são desculpas
válidas que isentem da culpa. |