Informação Alternativa

Mundo

02/06/2004

 

«A agricultura transgénica não é sustentável»

– Entrevista com Lorna Haynes –

 

BBC Mundo

1. O que é um alimento transgénico?

Os “transgénicos” ou organismos geneticamente modificados (OGM) são organismos novos criados em laboratório, cujas características se alteraram mediante a inserção de genes de outras espécies, o que lhes traz novas características herdáveis.

Os alimentos chamados “transgénicos” são alimentos em cuja elaboração se usou algum transgénico. Pode ser o organismo em si como no caso dos grãos de milho, ou um alimento derivado de um transgénico, como por exemplo: a “carne” e o azeite de soja transgénica, os cornflakes fabricados utilizando milho transgénico, os produtos obtidos de animais alimentados com produtos transgénicos, entre outros.

2. Poderiam produzir-se de forma natural essas alterações genéticas provocadas pelas experiências?

Sabe-se da transferência de matéria genética espontânea entre microorganismos como bactérias e vírus. Não se sabe de maneira nenhuma natural em que, por exemplo, genes humanos se inserem no genoma do arroz, nem genes de salmão no da papa, mas, através da engenharia genética, pode-se transferir genes de qualquer espécie a qualquer outra espécie.

3. Como influi um gene estranho no resto do genoma?

Não se sabe. Há que salientar que a ciência genética está na sua infância e não sabemos muito das consequências da manipulação genética.

De facto, não se trata de introduzir um só gene: com o estado actual da tecnologia, juntamente com o gene associado à característica que se deseja introduzir, introduzem­‑se outros genes promotores e marcadores. Não se pode controlar nem predizer quantas destas combinações de genes se inserirão, nem onde se localizarão nos cromossomas, nem se serão estáveis. Os genes interagem. Dependendo de onde “caiam” os transgenes, poderiam dar lugar ao silenciamento de outros genes, em cujo caso não se expressariam certas características normais do organismo, ou a sua expressão poderia mudar.

Os genes, que codificam proteínas, constituem uma parte pequena do nosso ADN, aproximadamente 4%. Até há pouco tempo, a maioria dos cientistas, de maneira pouco científica, descartava como “ADN lixo” o resto do ADN (96%) mas à luz de novas descobertas de segmentos compartilhados por muitas espécies, crê-se que cumprem funções vitais. Fica por ver que impactos os genes forasteiros possam exercer sobre essas funções. (Leia na BBC em inglês uma nota relacionada com este tema)

4. Quais são os riscos reais de contaminação genética?

Quando as culturas transgénicas polinizam os culturas não transgénicas, “contaminam­‑nas geneticamente” e as suas sementes tornam­‑se híbridas transgenéticas. É geralmente aceite que é impossível evitar a contaminação genética e, portanto, culturas transgénicas e não-transgénicas não podem coexistir. A contaminação genética de culturas é irreversível, impossível de controlar e significa que as sementes destas culturas serão transgénicas e assim se pode perder, para sempre, a opção e o direito a consumir alimentos livres de transgénicos.

No México, centro de origem e diversidade do milho, muitas variedades tradicionais de milho já estão contaminadas com milho transgénico Bt, o que constitui uma perda irreversível deste património da humanidade, fonte única para o desenvolvimento de novas variedades. Num estudo piloto nos EE.UU. sobre mostras de culturas supostamente não-transgénicas, encontrou-se contaminação genética em 50% das mostras de milho e soja, e em 100% das mostras de canoula. (Gone to seed – Transgenic contaminants in the traditional seed supply, pdf, 1.172 kb)

A contaminação genética, com genes de tolerância a herbicidas, de parentes silvestres e culturas pode dar lugar a super­‑malezas difíceis de eliminar. Está-se a modificar culturas genetica­mente para que produzam fármacos (anti­conceptivos, vacinas, hormo­nas, etc.) e produtos de interesse industrial (azeites, etc.) Não se pode descartar o risco de que estas culturas contaminem genetica­mente as culturas destinados ao consumo humano, ou entrem na corrente alimentícia por erro ou negligência (como sucedeu no caso do milho Starlink) produzindo alimentos contaminados com fármacos ou outras substâncias de uso industrial.

5. Mudarão as propriedades nutritivas dos alimentos?

Segundo as empresas promotores dos transgénicos, as culturas transgénicas são “substancialmente equivalentes” às culturas não-transgénicas e afirmam que a sua composição em termos de hidratos de carbono, azeites e outras substâncias não difere significativamente entre os dois tipos de culturas.

Mas no momento de patentear estas culturas, as empresas demonstram exactamente o contrário: que são essencialmente diferentes, requisito para obter a patente, e de facto é assim. Todos as culturas transgénicas produzem novas proteínas que nunca foram parte da alimentação e que podem causar alergias e outras doenças. Além disso, devido a novas interacções entre genes, (a resposta à sua pergunta #3) poder­‑se­‑ia alterar a produção de nutrientes e de anti-nutrientes na planta ao suprimir, reduzir ou aumentar a actividade dos respectivos genes associados.

Também existem efeitos específicos associados à característica introduzida. Há que recordar que, na produção comercial mundial de transgénicos, predominam duas características: tolerância a herbicida (77%) e resistência a pragas (15%) e 7% têm ambas as características. No primeiro caso, aumenta o uso de herbicida e aplica­‑o directamente à cultura a consumir. No segundo, os transgénicos são, em si, pesticidas, já que são manipulados geneticamente para produzir toxinas insecticidas em toda a planta que depois se consomem, apesar de não se ter demonstrado a sua inocuidade a longo prazo.

6. Contamos com informação suficiente para determinar os efeitos dos transgénicos sobre o organismo humano?

Não, porque quase não se está a financiar investigação independente sobre os possíveis efeitos a longo prazo e relatos de riscos não têm adequado seguimento. Por exemplo, os vírus, as bactérias e o seu material genético constituem as ferramentas da engenharia genética. Demonstrou-se que sequências de ADN às vezes passam intactas pelo sistema digestivo e podem ser assimiladas por bactérias do intestino humano, pelo que existe a possibilidade de transferência horizontal dos transgenes a estes vírus e bactérias, criando microorganismos patogénicos e novas doenças. Ainda que se creia que esta possibilidade seja remota, deve ser pesquisada.

Não podemos desligar a saúde do ambiente. Descobriu-se impactos que ressaltam a necessidade de indagar mais sobre os efeitos ecossistémicos de lançar biliões de organismos no ambiente. Por exemplo, o pólen do milho transgénico (Bt) é tóxico para certos insectos benéficos e os exsudados das suas raízes são tóxicos para alguns microorganismos do solo.

A presença de toxinas Bt nas culturas inibe a decomposição da sua matéria orgânica que é um elo do ciclo planetário do carbono. Desta maneira, poder­‑se­‑ia desencadear uma série de efeitos em cascata que afectam o equilíbrio ecológico.

7. Qual é a sua opinião sobre esses possíveis efeitos e em que baseia os seus argumentos?

Considero que é inaceitável que os reguladores tomem decisões baseando-se nos resultados de estudos a curto prazo desenhados e realizados pelas mesmas corporações que solicitam autorização para produzir e comercializar os seus produtos transgénicos.

É responsabilidade dos Estados exigir e financiar estudos independentes para pesquisar os impactos sobre a saúde e o ambiente a longo prazo. A Associação Médica Britânica, o Conselho Nacional de Investigação dos Estados Unidos e outras prestigiosas instituições assinalaram a necessidade de tais estudos. Entretanto, a ética científica e a responsabilidade social obriga­‑nos a aplicar O Princípio de Precaução e proibir a libertação no ambiente e o uso dos transgénicos na alimentação.

A Convenção sobre a Diversidade Biológica e O Protocolo de Cartagena, assinados por mais de 150 países, reconhece os riscos potenciais inerentes aos organismos modificados geneticamente (transgénicos) para a biodiversidade e para a saúde, bem como os seus impactos sócio­‑económicos e, na ausência de dados científicos, estabelecem que se aplique o enfoque de precaução.

8. Norman Borlaug, pai da revolução verde dos anos 50 e 60 é partidário destes alimentos como uma alternativa às necessidades alimentares do mundo e à sobre‑exploração da ecologia. Sem os transgénicos, poderemos alimentar o mundo no futuro sem queimar as reservas naturais que nos ficam?

Com o respeito que merece o Sr. Borlaug, não estou de acordo porque o seu argumento baseia­‑se em dois mitos:

1) A falsa premissa de que o problema da fome se resolverá com produzir mais alimentos.

O mesmo se disse para justificar a Revolução Verde, através da qual a produtividade na agricultura aumentou 4 vezes mas com o uso de 17 vezes mas agro­‑químicos e fertilizantes. No entanto, o nível de pobreza subiu de 40% para 80% e sabemos que má­­ nutrição e fome acompanham a pobreza.

Entre 1940 e 1975 o conteúdo de nutrientes nos vegetais caiu em até 75%, consequência deste mesmo modelo de produção agro­‑química e de desenvolver variedades só em função das características exigidas pela agricultura industrial. Actualmente, produz-se mais alimentos do que o necessário para alimentar todo o mundo mas, por exemplo, 40% do milho produzido destina­‑se a alimento para animais, por isso não é simplesmente uma questão de produzir mais alimentos. As mesmas corporações que utilizam estes argumentos “humanitários” na sua propaganda, também o sabem.

2) O pressuposto erróneo de que a agricultura transgénica aumentará a produtividade.

Estudos demonstram que os transgénicos não rendem mais do que as culturas naturais, podem ser mais contaminantes e introduzem novos riscos.

A produtividade não é “uma característica” de uma planta associada a um só gene cuja inserção pode dar-lhe esta característica. Portanto, não é objecto de desenvolvimento por parte das empresas, já que a sua política é concentrar-se em traços que «são controlados por um só gene pois é o que é economicamente viável, já que se podem desenvolver em menos tempo» (Declarações de um director da Dupont na reunião REDBIO, Caracas, Venezuela Dez. 2003).

Resolver o problema da fome está subordinado a que a população não aumente além da capacidade da produção sustentável para alimentá-la e requer que se adopte um modelo de agricultura sustentável de baixos factores de produção externos. Grande parte do problema é que o sistema agro-alimentar está nas mãos de umas poucas corporações transnacionais que controlam o fornecimento de alimentos desde a semente até ao produto. Por exemplo: a Monsanto produz 91% das sementes transgénicas e a sua sócia Cargill processa e comercializa a maior parte da soja e os grãos a nível mundial; a Syngenta, líder mundial em agro­‑químicos, terceiro produtor mundial de sementes depois da Monsanto e da Dupont, está associada com a Archer Daniels Midland, outro líder mundial em processar e comercializar produtos agrícolas. O interesse e razão de ser destas corporações não é precisamente resolver problemas de fome, mas obter ganhos fomentando o modelo agro­‑industrial não-sustentável que é a sua fonte de lucro.

9. 52 países do mundo têm regulações específicas sobre esta matéria e em alguns casos, como na União Europeia, as normas são bastante estritas (O Grupo Verde do Parlamento europeu nem sequer votou contra o projecto aprovado em 2001). Por que dizem vocês que não existe uma regulação clara e estrita actualmente em nenhum país sobre os alimentos transgénicos?

Na minha comunicação com a BBC Mundo sobre comentários do seu especialista em genética (veja em castelhano a nota a que se refere a professora Haynes), disse: «Ela refere­­‑se a normas estritas quando, na maioria dos países, não existem normas nem tampouco infra-estrutura para implementá-las no caso de que as tivessem».

Não se trata somente de “regulações específicas”. A Argentina tem regulações específicas e está afogada em soja transgénica que cumpre com as suas regulações. O Brasil tinha proibido transgénicos, mas resultou que a maior parte da colheita de soja em 2003 estava contaminada de soja transgénica. Por outro lado, a União Europeia desfruta de um dos sistemas regulatórios mais exigentes do mundo, ainda que tenha os seus defeitos.

O objectivo de regular o uso de transgénicos deve ser prevenir riscos, mas requer um correspondente sistema administrativo e infra-estrutura para garantir o seu cumprimento. A mesma União Europeia, com todos os seus recursos científicos, financeiros, humanos e tecnológicos impôs uma moratória durante 5 anos precisamente porque se considerou que não tinha regulações adequadas, nem a infra­‑estrutura necessária para implementá-las.

Criar tal marco de bio­‑segurança constitui um enorme custo para os países subdesenvolvidos e significa desviar recursos de projectos nacionais urgentes. Dados os enormes investimentos requeridos, a falta de conhecimento sobre o tema e interesses poderosos promovendo os OGM, corre-se o risco de que se criem regulações débeis e permissivas. Mas o problema da contaminação genética não se resolve com regulações e quando não se possa prevenir os riscos associados a uma actividade, o Princípio de Precaução obriga­‑nos a proibi-la.

10. Na questão do consumo de alimentos transgénicos, não se trata afinal de contas de uma decisão pessoal de cada indivíduo que deve deixar-se à margem de discussões científicas ou políticas?

Não creio. Em primeiro lugar, para poder tomar decisões, têm que existir opções, mas a contaminação genética ameaça com eliminar a opção de consumir alimentos não­‑transgénicos.

Em segundo lugar, porque estas decisões não são pessoais: afectam os demais, já que a produção de alimentos transgénicos tem impactos ambientais que prejudicam os direitos colectivos das atuais e futuras gerações. A alimentação tem um contexto ecológico, social, económico e político. Temos a obrigação de assegurar que a agricultura e a pesca sejam sustentáveis para garantir a alimentação das gerações futuras.

A agricultura “transgénica” não é sustentável. É uma receita para consolidar, ainda mais, o controle das transnacionais sobre o sistema agro-alimentar, minando assim a soberania e a segurança alimentar; é também uma receita para agudizar a crise ambiental, aumentar a erosão genética de culturas, introduzir novos riscos para a saúde e engendrar impactos ecossistémicos imprevisíveis, o que no todo prejudica a sociedade actual e futura. Consumir transgénicos é contribuir para tal situação. Portanto, a sua discussão é relevante e importante para que cada um adquira consciência das consequências das suas decisões.

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