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03/11/2004 Tiago Soares 22 de Outubro, 2004. O
parlamento russo vota, por 334 votos contra 73, a favor da ratificação, pelo
país, do protocolo de Kyoto. A votação, que deixa a Rússia muito perto da
assinatura do tratado, volta os olhos do mundo para Moscovo. E por bons
motivos. Com a Rússia a bordo, o
documento, que estabelece, entre os seus 126 signatários, o compromisso pela
redução, dentro de oito anos, da emissão dos gases causadores do efeito
estufa em 5,2% abaixo dos níveis medidos em 1990, atingiria o quorum
necessário para entrar em vigor – 55 países, responsáveis por 55% das
emissões de gases. Mais que isso, a postura da Rússia significaria o
atropelamento da intransigência dos EUA e da Austrália, países que nunca
fizeram muita cerimónia para atirar o tratado para o limbo jurídico –
negam-se veementemente a assiná-lo, apesar de responsáveis por mais de 35%
das emissões de gases causadores do efeito estufa. Embora a decisão do
parlamento russo não possa ainda ser considerada definitiva (votada em
primeira instância na Duma, carece da ratificação de outra instância
legislativa – o conselho da federação russa –, além da assinatura do
presidente Vladimir Putin), ambientalistas saudaram a posição do país, uma
boa notícia há muito esperada. A adopção do protocolo de Kyoto é vista como
um primeiro passo para uma política efectiva de minimização dos efeitos do
aquecimento global. E há motivos para urgência. METAS EM RISCO Relatório divulgado pela ONG
New Economics Foundation (NEF) afirma que, ao contrário do comummente
pensado, os efeitos negativos do aquecimento global não são assunto a ser
pensado para daqui a algumas décadas. Bem pouco subtis, os estragos sentidos
por um planeta que, ao longo do último século, viu a sua temperatura média
ficar 0,6 grau centígrados mais quente, começam, desde já, a cobrar o seu preço. Resultado do inédito trabalho
conjunto de ONGs como Greenpeace, ActionAid, Oxfam, WWF e mais 14
organizações globais voltadas ao desenvolvimento e meio ambiente, o
documento, intitulado Up in Smoke [1], traça um acurado panorama dos
efeitos do aquecimento global sobre ecossistemas e sociedades ao redor do
globo. Apesar de projecções para o ano 2100 estimarem um aumento entre 1,4 e
5,8 graus centígrados na temperatura global (com todos os resultados
catastróficos esperados num cenário desse tipo), o bastante presente aumento
de 0,6 grau pode já ser considerado, segundo o relatório, como «tendo impacto
severo sobre ecossistemas globais – especialmente sobre populações pobres». E isso pode ser explicado de
maneira bastante simples: o aumento da temperatura global, bem como o aumento
da volatilidade atmosférica, torna cada vez mais comuns os fenómenos
meteorológicos extremos. Chuvas cada vez mais fortes e prolongadas, secas e
queimadas cada vez mais longas, tempestades devastadoras, tornados
inesperados – tudo isso acaba afectando, directa ou indirectamente, as
populações carentes, menos preparadas para lidar com fenómenos desse tipo. Os estragos podem vir de
várias formas. Secas e mudanças nos padrões pluviométricos podem afectar a
agricultura, a distribuição de recursos hídricos ou contribuir para a
disseminação de doenças tropicais e outras moléstias. Tornados e enchentes
podem dar fim a comunidades, destruindo do dia para a noite o trabalho de
gerações. Mudanças significativas em padrões climáticos podem gerar fluxos
migratórios, resultando em tensões políticas e económicas. Possibilidades
que, muitas, desdobram-se em ruínas várias para os países pobres e em
desenvolvimento. E o relatório segue com um
alerta: se os países desenvolvidos não adoptarem já políticas agressivas que
ataquem a sua crónica dependência de combustíveis fósseis, é muito pouco
provável que sejam levadas a cabo as metas do milénio estipuladas pela ONU.
Algo que faz todo o sentido. Se a conta do aquecimento global continuar a
recair sobre os que menos podem pagar, as metas, que estipulam para 2015 uma
série de medidas voltadas à diminuição da pobreza e à melhoria da qualidade
de vida de populações carentes ao redor do globo, parecem sem muitas chances
de ver a luz do dia. CIÊNCIA VERSUS ECONOMIA As constatações do relatório
compilado pela NEF batem de frente com outro estudo sobre o assunto,
divulgado quase simultaneamente. A análise coordenada pelo controverso
ambientalista dinamarquês Bjorn Lomborg, juntamente com oito economistas
(três vencedores do Nobel) recomenda aos países ricos que concentrem os seus
esforços em questões ligadas à SIDA, água e livre comércio. Na lista de
prioridades do grupo de estudos, nomeado “Consenso de Copenhagen”, o
aquecimento global ocupa um pouco honroso último lugar. Lomborg ganhou projecção
internacional em 2001, aquando da publicação do best seller “O
Ambientalista Céptico”. Apesar de refutado pela quase totalidade da
comunidade científica internacional, o seu livro, que minimiza os estragos
causados pela utilização maciça de recursos naturais pelos grandes grupos
económicos, tornou‑se uma espécie de bíblia científica para os arautos
do livre mercado. Representantes das ONGs
reunidas no relatório da NEF não pareceram levar a sério o diagnóstico de
Lomborg. Em declaração ao diário britânico The Guardian, de 21 de Outubro
último, Stephen Tinsdale, director do Greenpeace, afirma que «a ideia
simplista e algo banal de um ranking de problemas não deveria ser levada
muito a sério», e completa, lembrando que «essas questões estão todas
ligadas». A resposta do pesquisador dinamarquês não demorou a surgir, nas
páginas do próprio Guardian. Em artigo publicado em 28 de Outubro, Lomborg
tenta explicar a pouca importância dada pelo “Consenso de Copenhagen” ao
protocolo de Kyoto. «Se seguirmos em frente com Kyoto, o custo será de mais
de US$ 150 bi por ano, com o seu efeito sendo sentido apenas em 2100, e de
modo apenas marginal». Seja como for, a certeza que
resta no duelo entre as ONGs coordenadas no relatório da NEF e o grupo de
Lomborg (e o seu “ranking de problemas”) é a de que o planeta está,
efectivamente, a ficar mais quente. E que, se todos concordam que o planeta
sentirá de maneira dura o que é agora feito ao meio ambiente, é lógico que,
hoje, sinta de modo não menos duro os estragos feitos nos últimos cem anos. __________ [1] algo como “Queimado, transformado em fumaça” O relatório original da NEF pode ser encontrado (em inglês) no endereço http://www.neweconomics.org/gen/z_sys_PublicationDetail.aspx?pid=196 |