Informação Alternativa

Mundo

04/10/2004

 

O ciberlixo dos ricos

 

Wilson Sobrinho

Planeta Porto Alegre

A velocidade cada vez maior com que celulares, computadores e outros produtos electrónicos se tornam obsoletos e as rigorosas leis ambientais em países ricos estão transformando alguns países da Ásia no lixão tecnológico do mundo. Índia, Paquistão e China são os principais destinos de toneladas de electrónicos descartados no primeiro mundo, em lucrativo comércio mundial do qual mão-de-obra infantil e ameaças ao meio ambiente são partes integrantes.

A lógica é semelhante àquela que gera as sweetshops – corporações que abrem fábricas em países com poucos ou nenhum direito trabalhista, onde os custos de produção são baixíssimos. Dados de um estudo publicado neste ano pela ONG indiana Toxic Link dão a noção exacta. Enquanto nos EUA os custos de reciclagem de um computador giram em torno de 20 dólares a peça, na Índia, por exemplo, este valor cai para 4 dólares. Contabilizando ainda que os computadores são vendidos por uma média de 5 dólares cada, dá para se ter uma ideia do tamanho do mercado.

“Atractivos” do sector

Segundo uma reportagem da revista Wired de 2003, estima-se que entre 50 a 80% dos produtos descartados nos EUA são enviados a outros países. Mesmo assim, em 2000, 4,6 milhões de toneladas foram descartadas sem ao menos irem para a reciclagem. Na Europa, o problema não é menor. Segundo o diário britânico The Guardian de 21 de Setembro último, em 2003, 23 mil toneladas de equipamentos electrónicos foram exportados pela Grã-Bretanha. Além disso, até mesmo a agência da União Europeia (IMPEL) que regula o sector, admite que boa parte dessas exportações é ilegal. Algo em torno de 22%, segundo estudo conduzido nos seis principais portos europeus no ano passado.

Segundo a Toxic Link, apenas na Índia a indústria da reciclagem movimentou 1,5 bilhões de dólares em 2003. Para tamanho valor, avalia-se que cerca de 20 toneladas de lixo electrónico chegam diariamente ao país. Segundo a ONG, os principais “atractivos” para a indústria da reciclagem são os «baixos custos trabalhistas e a falta de padrões ambientais».

Nas usinas de reciclagem, há relatos de emprego de mão-de-obra infantil. Segundo uma reportagem da agência UPI publicada em Abril pelo jornal Washington Times, crianças de até oito anos tomariam parte do trabalho de separar metais e plástico dos produtos descartados.

Pesadelo cibernético

Um caso exemplar é a cidade de Guiyu, na China, onde cerca de 100 mil pessoas trabalham na reciclagem de electrónicos, segundo relata o The Guardian, baseado em estudo divulgado por um conjunto de ONG que combate a proliferação do lixo electrónico e da reciclagem sem padrões mínimos de protecção ambiental.

«Encontramos [em Guiyu] um pesadelo da era cibernética», afirmou ao diário britânico Jim Puckett, membro de uma das organizações que visitou a cidade. «Eles chamam isso de reciclagem, mas na verdade não é mais do que deitar fora». Segundo as ONGs, nem mesmo a água do rio que corta a cidade pode ser usada. A região precisa ser abastecida por caminhões-pipa, tamanho é o nível de contaminação. Crianças e mulheres trabalham na separação de metais e plásticos.

A cidade, que até 1995 sobrevivia do cultivo de arroz, teve a sua paisagem transformada pela indústria da reciclagem. Montanhas de plástico e ferro retorcidos, que fazem as ruas da cidade parecer com a de uma zona devastada por bombas, dividem espaço nas ruas com caminhões que trazem a “matéria-prima”, empilhada tão alta que parece pronta a desmoronar ao menor solavanco. «Por dinheiro, as pessoas transformaram num caos essa boa vila de fazendeiros», reclama um morador antigo ouvido pelas ONGs. «Muitos desenvolveram problemas respiratórios e de pele».

Veneno puro

Cada computador pessoal, com cerca de 27 quilos, contém plástico (6,26 kg), cobre (1,9 kg), ferro (5,58 kg), chumbo (1,72 kg), níquel (0,23 kg), zinco (0,6 kg), alumínio (3,36 kg) e traços de selénio, cobalto, mercúrio, prata, ouro, e outros metais. Para separá-los é preciso manusear ácidos, derretê-los a altas temperaturas.

«Os frutos da nossa revolução de alta tecnologia são veneno puro se o destino desses produtos ao fim da sua vida útil for impróprio», argumenta Ted Smith, fundador da Silicon Valley Toxics Coalition, numa reportagem da revista Wired de 2003. Mas a tendência é de que o problema se agrave ainda mais. Estimativas dão conta de que, a partir do ano que vem, para cada novo computador no mercado, haverá um sendo descartado.

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Fontes:

 

Poisonous detritus of the electronic revolution (Guardian)

http://www.guardian.co.uk/uk_news/story/0,3604,1309066,00.html

 

India: a dump yard for electronic waste (Washington Times)

http://washingtontimes.com/upi-breaking/20040415-114709-1913r.htm

 

E-Waste: Dark Side of Digital Age (Wired) http://www.wired.com/news/technology/0,1282,57151,00.html