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Mundo

21/09/2004

 

Cataclismo anunciado

 

Greenpeace

Planeta Porto Alegre

Tornados devastando os EUA, enchentes relâmpago no Japão e uma vila britânica arrastada para o fundo do mar. Enquanto as mudanças climáticas apertam o passo, torna-se cada vez mais comum a devastação causada por fenómenos climáticos extremos.

A cada ano, o planeta deixa-nos espantados com fenómenos meteorológicos como as monções na Ásia e os tornados que assolam as Américas. Mas, não importa quão devastadoras, as suas aparições sazonais permitiam antes uma espécie de continuidade e previsibilidade. Agora, com o aumento da incidência de fenómenos climáticos extremos, a previsibilidade é algo do passado.

Esta semana, o Japão sofreu o seu terceiro tufão em três semanas. É a terceira maior tempestade a atingir o país desde o fim de agosto, e a mais poderosa a atingir Okinawa desde 1972.

Colheitas fracas causadas pelo mau tempo do último Verão e enchentes relâmpago têm trazido sérios problemas aos agricultores do norte da Europa. Campos inteiros foram deixados para apodrecer devido às fortes torrentes do verão, e alguns países tiveram o tempo mais húmido registrado em meses. Apesar do clima seco de 2003 ter proporcionado uma colheita farta, o caos causado pelas tempestades torrenciais pode ser estendido até 2005 devido ao dano causado às sementes e solo.

Do efeito estufa às inundações

Cada vez mais cientistas indicam as mudanças climáticas como as culpadas pela instabilidade dos padrões climáticos. A concentração de CO2 (principal causador do efeito estufa) na camada mais baixa da atmosfera tem agora o nível mais alto em pelo menos 420.000 anos – ou 20 bilhões de anos, para alguns. O patamar é 34% superior ao nível em que se encontrava antes da Revolução Industrial. Um aumento que se tem acelerado desde 1950.

Em Agosto, a Agência Europeia do Meio Ambiente (EEA, na sigla em inglês), publicou um estudo examinando os impactos das mudanças no clima europeu. O relatório aponta o aumento no número de inundações entre 1975 e 2001 – inundações extremas, que, sugere ainda o relatório, aumentam em possibilidade graças às mudanças climáticas.

Os Alpes derretidos

Os próximos anos verão a Europa passar por tempestades, enchentes, secas, e outras catástrofes climáticas cada vez mais frequentes, com custos cada vez mais altos para a economia. Enquanto, ao norte, a Europa sofrerá com a humidade excessiva, o sul terá tempo um tanto mais seco, ameaçando, em algumas áreas, a agricultura. Ondas de calor mais intensas e frequentes configurarão uma ameaça mortal aos idosos e fragilizados, como aconteceu no Verão de 2003. Outra preocupação presente no relatório da EEA diz respeito ao derretimento das geleiras europeias. Estima-se que três quartos do gelo dos Alpes Suíços podem derreter até 2050.

A década de 90 foi a mais quente já registrada, e três dos anos de maior calor histórico – 1998, 2002 e 2003 – aconteceram dentro dos últimos seis anos. A taxa de aquecimento global é, agora, de quase 0,2 °C por década.

Em agosto de 2002, graves inundações em 11 países tiraram a vida de quase 80 pessoas, afectaram mais de 600 mil e causaram perdas económicas de pelo menos US$15 bilhões. Durante a onda de calor do Verão de 2003, foram registrados no sul e no ocidente europeus mais de 20 mil mortes, especialmente entre idosos. Em muitos países do sul da Europa, as colheitas caíram em até 30%. Apenas no ano de 2003, o derretimento reduziu em um décimo a massa das geleiras alpinas. Quem pode dizer quais serão, este ano, os custos sociais e económicos?

Este ano, a temporada de tornados mostrou de maneira dramática os perigos de um mundo assolado por fenómenos climáticos cada vez mais intensas. Os furacões Bonnie, Charley, Frances e, agora, Ivan, aportaram no Caribe e na Flórida. Em Março, foi a vez da costa brasileira ser atingida por um tornado – o primeiro já registrado no Atlântico Sul. Essas tempestades resultaram em bilhões de dólares em danos, tirando a vida de grande quantidade de pessoas.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática de 2001, a previsão é de que os furacões continuem a crescer em tamanho e estragos causados, com ventos mais fortes e chuva mais intensa – tudo por conta do aquecimento global. Fenómenos climáticos dramáticos existem desde muito antes dos homens começarem a aquecer o planeta. Mas não podemos permitir que se cruzem os braços ao mesmo tempo que os furacões se tornam cada vez mais poderosos.

Não há dúvidas de que a Terra está ficando mais quente. A questão que importa mesmo é se conseguiremos domar o nosso insaciável apetite por combustíveis fósseis – e frear o colapso.

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