Informação Alternativa

América Latina

10/12/2006

 

Um precioso roteiro para entender as esquerdas latino-americanas

 

Gilberto Maringoni

Carta Maior

 

Quem quiser entender as raízes da onda antineoliberal que varre os países da América Latina tem um excelente roteiro à disposição. Trata-se de O marxismo na América Latina: Uma antologia de 1909 aos dias atuais (588 págs., R$ 48), colectânea organizada por Michael Löwy, sociólogo brasileiro radicado em Paris há quase quatro décadas. Foi relançado há pouco pela Editora Fundação Perseu Abramo. Não é um volume académico. É constituído por análises de dirigentes políticos ou do que se classificava como “intelectuais orgânicos”. São documentos que preparam a acção, muitas vezes produzidos antes ou depois de enfrentamentos decisivos.

 

E mais: são dois livros em um. Antes da selecção de textos, há um excepcional ensaio de Löwy, no qual se destacam as referências que balizam as suas escolhas e a história das forças políticas em cada país.

 

Para não fazer uma salada desconjuntada, o autor delimitou um parâmetro, logo de saída. «Um dos principais problemas que o marxismo latino-americano teve de confrontar foi precisamente a definição do carácter da revolução no continente». Como todo erudito de qualidade, Michael Löwy é directo, claro e simples. A sua classificação das forças que investiram na transformação social é periodizada historicamente e cada táctica utilizada nos diversos tempos é cuidadosamente explicada.

 

CICLOS HISTÓRICOS

 

Ele divide a história da esquerda continental em três grandes ciclos. O primeiro é denominado de «período revolucionário, dos anos 1920 até meados dos anos 1930, cuja expressão mais profunda é a obra de [José Carlos] Mariátegui [1894-1930] e cuja manifestação prática mais importante foi a insurreição salvadorenha de 1932». Nesses anos, «os marxistas tendiam a classificar a revolução latino-americana como, simultaneamente, socialista, antidemocrática e antimperialista». A segunda fase foi o «período stalinista, de meados da década de 1930 até 1959, durante o qual a interpretação soviética do marxismo foi hegemónica e, por conseguinte a teoria da revolução por etapas, de Stalin, definindo a etapa presente na América latina como nacional­‑democrática». Em último, ele aponta «o novo período revolucionário, após a Revolução Cubana (...) cuja inspiração e símbolo, em grau elevado, foi Ernesto Che Guevara».

 

Löwy mostra que a esquerda na região se desenvolveu nas tensões de dois conceitos que ora se contrapõem e ora se complementam entre si.

 

A primeira seria uma visão eurocêntrica, tendente a transplantar mecanicamente para os nossos países formações sociais e económicas que toldaram a história de países como França, Inglaterra e Alemanha, como estudadas por Marx e Engels. Por essa visão, o capitalismo na região, como no Velho Mundo, sucederia a formações feudais e haveria um papel intrinsecamente revolucionário da burguesia – como aponta o “Manifesto Comunista” – no seu embate contra o absolutismo feudal.

 

De outra parte, há uma visão particularista a exaltar a todo o momento as especificidades e características originais do continente, «o que acaba por colocar em questão o próprio marxismo como teoria exclusivamente europeia», diz Löwy. A interacção e o diálogo entre as duas vertentes produziu os melhores momentos das esquerdas nos nossos países.

 

Citando embates teóricos e políticos e exibindo os personagens que empreenderam essas lutas (e que por vezes morreram nelas), Michael Löwy faz uma narrativa viva não apenas do marxismo, mas das epopeias políticas e sociais ao longo do século XX no continente. O seu texto funciona como uma espécie de roteiro de leitura dos documentos que compõem o livro, uma espécie de making off acerca da difícil escolha entre milhares de escritos produzidos nesses cem anos.

 

IMPACTOS EXTERNOS

 

O intelectual franco-brasileiro mescla aqui a sua veia de analista político com a de historiador. Destaca o impacto que a Revolução Russa teve no continente, na segunda década do século XX, entre a esquerda e a intelectualidade. Quando fala do período em que o chamado movimento comunista teve à sua testa o dirigente soviético Joseph Stálin (1879-1953), ele avalia que passou a valer «uma interpretação economicista do marxismo», com a formulação de que em países semifeudais e atrasados não haveria condições «amadurecidas» para uma revolução socialista. Quando esta etapa foi superada com a morte do dirigente, predominou, entre os partidos comunistas de matriz soviética, uma virada moderada, com uma linha política de apoio a governos capitalistas considerados progressistas ou democráticos, «como o de Juscelino Kubitschek no Brasil e o de [Arturo] Frondizi, na Argentina».

 

O ensaio trata ainda dos intelectuais comunistas que buscaram criativamente novos parâmetros teóricos dentro do marxismo, como Caio Prado Júnior no Brasil e Sérgio Bagú, na Argentina, ainda nos anos 1940. Este último polemiza com a formulação da sociedade semi feudal, em voga na região: «A estrutura económica que nasce na América do período que estudamos foi mais de um tipo capitalista colonial que feudal. (...) A metrópole cria a América Ibérica para integrá-la ao ciclo do capitalismo nascente, não para proteger o ciclo feudal agonizante».

 

Esta etapa só seria vencida com a Revolução Cubana, iniciativa extremamente original de um grupo de combatentes nas montanhas agindo em consonância com as lutas sociais urbanas e por fora da estrutura e das directrizes do PC local.

 

NOVAS TENDÊNCIAS

 

Depois desse período, «embora por vezes defendendo teses contraditórias», surgem interpretações mais criativas da realidade regional, a partir dos escritos de intelectuais como Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Ruy Mauro Marini, Fernando Henrique Cardoso (sim, ele mesmo!), Fernando Novais, Pablo Gonzáles Casanova, José Aricó, Francisco de Oliveira, Eder Sader e outros.

 

Após analisar a frente popular que levou Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970, e a Revolução Sandinista (1979), o autor volta-se para a «consideração de um fenómeno novo e inesperado: a radicalização de amplos sectores cristãos e sua atracção pelo marxismo».

 

No final do ensaio, Michael Löwy esboça – sem citar explicitamente – a abertura de um possível quarto ciclo, delineado após a perda de legitimidade das políticas do Consenso de Washington, que engendraram reacções populares. Muitas delas são materializadas em governos de centro e centro-esquerda, a partir da eleição de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998, e das movimentações dos Fóruns Sociais Mundiais, realizados a partir de 2001.

 

Os 101 textos que compõem o volume são divididos em cinco grandes capítulos: A introdução do marxismo na América Latina, O período revolucionário, A hegemonia stalinista, O novo período revolucionário e Novas tendências. Os autores e os temas são os mais plurais possíveis. Estão naquelas páginas José Carlos Mariátegui, Luís Emílio Recabarren, Julio Antonio Mella, Patrícia Galvão (Pagú), Luís Carlos Prestes, Dieg Rivera, Caio Prado Júnior, Clovis Moura, Fidel Castro, Che Guevara, Carlos Marighella, Theotonio dos Santos, Rui Mauro Marini, Carlos Nelson Coutinho, Frei Betto, João Pedro Stédile, Emir Sader, Subcomandante Marcos, Leandro Konder e outros, além de documentos oficiais de partidos e movimentos. Os temas variam de apelos à insurreição armada a questões de género, etnia, ecologia, reforma agrária, economia e disputa pelo poder nas urnas.

 

Um livraço. Reserve desde já nas boas casas do ramo.