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Mundo

09/10/2006

 

Bush na Babilónia

 

Helena Sut

Carta Maior

 

«Os poetas que compreendem a história costumam estar cheios de pressentimentos profundos.» (Tariq Ali)

 

 

O título da obra de Tariq Ali, Bush na Babilónia, não poderia ser mais sugestivo. Babilónia, a cidade daninha da Mesopotâmia presente no Antigo Testamento, também é a confusão, a babel... O imperialismo, a resistência e o caos.

 

Tariq Ali alerta para a importância da memória histórica para resgatar as origens de um povo e compreender os seus contextos actuais. Descreve a história do Iraque, berço da escrita cuneiforme e do código de Hamurabi, as suas fronteiras actuais delimitadas pela colonização inglesa após a queda do império otomano, mas o grande destaque na narrativa é a exposição de como a cultura é importante para a política árabe e como ambas estão inter­‑relacionadas.

 

Poemas de dois poetas iraquianos exilados pelo regime de Saddam Hussein e que se recusam a aceitar a ocupação, Saadi Youssef e Mudhaffar al-Nawab, ilustram o sentimento do povo iraquiano.

 

Saadi Youssef observa de longe o seu país e, às vésperas da guerra de 2003, presencia uma reunião de “traidores” num hotel de Londres para discutir o futuro do Iraque após a “libertação”. Indignado, o poeta escreve um poema, Bodas de Chacal, dedicado ao colega poeta Mudhaffar al-Nawab, exilado em Damasco:

 

«Ó Mudhajjar al-Nawab,

façamos um trato: irei em teu lugar

(Damasco é longe demais daquele hotel secreto...)

Cuspirei no rosto dos chacais,

Cuspirei nas suas listas,

Irei declarar que somos o povo do Iraque

As árvores genealógicas desta terra,

orgulhosos sob o nosso modesto abrigo de bambu.»

 

Mudhaffar al-Nawab também redige o seu alerta solene em Março de 2003:

 

«Você perdoaria uma tropa sem lei

Por lhe ter puxado o rígido cadáver

Da forca?

E nunca acredite num guerreiro da liberdade

Que renasce sem armas!

Acredite em mim, pois já queimei no crematório.

A verdade é que você é tão grande quanto os seus canhões,

Enquanto as multidões que sacodem garfos e facas

Olham somente para o próprio estômago.

Ó, meu povo apaixonado pela nossa terra mãe

Não me assustam os bárbaros reunidos nos nossos portões.

Mas, sim, os inimigos aqui dentro.»

 

Somos levados por uma viagem no tempo. Percorremos os séculos do império otomano; a definição dos países depois da Primeira Guerra Mundial de acordo com os interesses europeus; a colonização inglesa e as suas reacções; a independência do Iraque em 1958; o comunismo; o partido Baath na Síria e no Iraque; a chegada ao poder de Saddam Hussein em 1979; a sanguinária guerra Irão-Iraque estimulada pelas grandes potências mundiais que, em oito anos, matou milhões de pessoas e alimentou o mercado de armas; a invasão do Kuwait; o retorno de Osama bin Laden à Arábia Saudita recebido como o “guerreiro da liberdade” pelo seu papel na derrota da União Soviética no Afeganistão e o seu desejo de mobilizar seus fedains para derrotar Saddam Hussein, a quem acusava de ter transformado o Iraque num Estado laico; a guerra do Golfo e a “disputa de tiro ao alvo” para destruir um exército em retirada; a oposição dos fundamentalistas islâmicos à presença de forças “infiéis” em território sagrado islâmico, considerada um acto de traição, e a consequente formação do grupo al­‑Qaeda; a destruição da infra-estrutura social do Iraque; o regime de sanções imposto pela ONU durante anos, e os interesses não manifestos no processo de democratização e de reconstrução do Iraque.

 

Bush na Babilónia traz factos históricos e opiniões que devem ser conhecidos e ponderados por cada leitor na interpretação do imperialismo e da resistência.

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