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02/10/2006
Confronto de fundamentalismos – cruzadas, jihads e modernidade Helena Sut
«Quando o mundo real é
dominado pela insanidade, a normalidade só existe no manicómio. Os lunáticos
têm uma compreensão melhor do crime que está a ser perpetrado do que os políticos
que concordam com ele.» (Tariq Ali) Ler Confronto de
fundamentalismos – cruzadas, jihads e modernidade, de Tariq Ali, é compreender os factos da modernidade e os seus
paradigmas numa perspectiva histórica. As três religiões, cristianismo,
judaísmo e islamismo, são apresentadas desde o berço no oriente. As suas
relações, aproximações e dissensões e influências produzidas durante a Idade
Média, o Renascimento e as grandes guerras que marcaram o cenário mundial no
século XX são apresentadas em paralelo com a concepção da jirah. Os temas e personagens dos
livros do Quinteto Islâmico são apresentados nos contextos históricos. O
autor, logo no primeiro capítulo: “A infância de um ateu”, apresenta-se como
nascido no Paquistão (Terra dos puros) numa família abastada e que teve as suas
primeiras percepções determinadas pela situação política do seu país e do
oriente a partir da década de 40. O menino, que aos cinco anos era agnóstico,
com doze tornou‑se «ateu ferrenho». Tariq Ali em todos os
seus livros de ficção e não-ficção valoriza a cultura islâmica, demonstra a
dedicação ao conhecimento, o avanço da medicina e de outras ciências, as
traduções das obras de Aristóteles para o árabe e posteriormente para o
latim, a formação das bibliotecas, bem como a influência das artes e o
prestígio dos poetas e escribas. Faz um resgate histórico para lamentar a actual
situação do Islão: «A vida intelectual ficou atrofiada, tornando o islamismo,
em si, uma religião estática e de aparência atrasada». A leitura é instigante
e explica as formações das diversas facções dentro do islamismo, as raízes do
wahhabismo que até hoje domina a sociedade na Arábia Saudita, o sionismo, a
formação do Estado de Israel, a guerra dos seis dias em 1967, a ocupação dos
territórios da Cisjordânia e Faixa de Gaza, o nacionalismo árabe, a jirah islâmica contra nacionalistas seculares e
marxistas, o fim súbito da guerra fria, a guerra Irão‑Iraque, a guerra
do Golfo, a tensão entre a Índia e o Paquistão e outros tantos factos
históricos, sociais e políticos que culminaram no fatídico 11 de Setembro. Tariq Ali não se limita
às críticas ao imperialismo norte-americano, expande as suas observações para
o cenário mundial, com perspectivas religiosas, políticas, económicas e
sociais. Inclusive traz ao lume as opiniões de Samuel Huntington, autor de O
choque das civilizações, e Francis Fukuyama. A transcrição do poema Hawamish
‘ala Daftar al-Naksah (Anotações à margem do
livro da derrota), escrito imediatamente após a guerra de 1967, e de um
trecho de Cidades de sal do romancista
saudita exilado Abdelrahman Munif são pontos reveladores da narrativa. Confronto de Fundamentalismos foi publicado em 2002 quando o Iraque era um inimigo anunciado após a intervenção militar no Afeganistão. Tariq Ali alerta para os efeitos do confronto, que com certeza comentou posteriormente no livro Bush na Babilónia: «Depois dos acontecimentos de 11 de Setembro os planejadores militares do Pentágono levantaram de novo a questão de retirar Saddam Hussein do poder. Se for lançada uma nova guerra contra o Iraque, a chamada “Guerra contra o terrorismo” irá transformar‑se no oposto. A combinação de raiva e desespero levará a um número cada vez maior de jovens no mundo árabe e em outros lugares sentindo que a única reacção ao terrorismo de Estado é o terrorismo individual». |