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18/09/2006
O livro de Saladino Helena Sut Livro de Tariq Ali, segundo da série Quinteto Islâmico [1], conta a vida do chefe militar de origem curda, Saladino, a par dos acontecimentos históricos que culminaram na tomada de Jerusalém em 1187, após a longa ocupação cristã.
«Estou a dizer apenas
que somos criaturas que têm um destino e as nossas vidas dependem da época em
que vivemos. As nossas biografias são escritas pelos factos.» (Tariq Ali) Um livro repleto de
personagens históricos. A vida do chefe militar de origem curda, Salah al Din
ibn Ayub, conhecido no ocidente como Saladino, é contada a par dos
acontecimentos históricos que culminaram na tomada de Jerusalém em 2 de Outubro
de 1187, após uma longa ocupação pelos cristãos. A sua habilidade
diplomática conjugada com o uso estratégico da força imortalizou o génio
militar na história do islamismo e consagrou‑o como o herói de um
ciclo de lendas que percorreram todo o Médio Oriente e o Ocidente. A sua devoção à causa
da jihad era inabalável e alicerçou o
objectivo de reconquistar a cidade dominada pelos cristãos. A percepção das
divisões entre os muçulmanos e das traições fez com que Saladino, antes de
libertar Jerusalém, unificasse a Grande Síria e o Egipto, eliminando o
sectarismo sunita/xiita e a rivalidade que tanto ajudou os europeus. «O meu pai tinha‑me
ensinado que dois exércitos, com dois comandos diferentes, jamais poderiam
coexistir por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, por Alá, um deles
vencerá.» Nos depoimentos de
Saladino ao escriba, encontramos ensinamentos profundos que desnudam o homem,
as políticas e as religiões. «Tudo isso me ensina
que os homens só lutam por uma causa maior do que os seus próprios interesses
quando estão convencidos de que ela trará benefícios para todos.» O personagem judeu, o
grande médico-filósofo Maimónides (Ibn Maimum), retratado enquanto
conselheiro e médico do vizir al-Fadil e como autor do Guia dos
Perplexos, é fundamental para a compreensão
do período das cruzadas, da valorização dos filósofos e escribas, do valor de
uma biblioteca e da convivência entre judeus e muçulmanos no período,
principalmente depois da cruel chacina dos habitantes muçulmanos e judeus,
perpetrada pelos cristãos, «adoradores de estátuas», em 1099, na conquista de
Jerusalém. Ao contrário das
barbáries cometidas pelos cavaleiros fanatizados pela Igreja Medieval,
Saladino marcou a vitória muçulmana com um comportamento civilizado e cortês.
Com rara sensibilidade, soube angariar o respeito e a afeição do seu povo com
hábitos simples, sem a ostentação característica de muitos sultões. «Para merecer o respeito
do povo, e em particular dos nossos soldados, aprendi que devemos acostumar‑nos
a comer e a vestir‑nos como eles. Nós fazemos as leis, Farruk Xá.
Devemos segui-las e dar o exemplo... Nunca esqueça que um homem é aquilo que
faz.» Tariq Ali
presenteia-nos com a história enredada numa ficção envolvente, marcada com
fortes personagens, como o narrador judeu Ibn Yakub, responsável por escrever
as memórias de Saladino, o ancião Xadi, as mulheres do Sultão, Hamila e
Jamila, os eunucos, enfim, todos os preciosos tipos criados pelo escritor que
contextualizam a história do grande líder curdo Saladino, o conhecimento do
filósofo Maimónides, e trazem à tona a cultura islâmica, o seu
desenvolvimento e as suas fragmentações, com uma perspectiva fiel aos
acontecimentos relevantes. Saladino fundou a
dinastia aiúbida, que governou até 1260. Contudo, após a sua morte em 1193, a
unidade acabou, os seus sucessores aiúbidas discutiam entre si e a Síria
partiu-se em pequenas dinastias. Ainda assim, o período aiúbida consagrou-se
pelas actividades culturais que transformaram o Egipto e a Síria em grandes
centros de erudição e literatura árabe. ______ [1] Sobre o primeiro romance da
série Quinteto Islâmico, ler Helena Sut, As sombras da
romãzeira, Carta Maior, 15/09/2006. |