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15/09/2006 Helena Sut
«O bispo e o céptico ficaram
por um instante parados, encarando-se. Eles um dia pertenceram à mesma
civilização que desapareceu, mas o universo de cada um tinha sido separado
por um mar invisível.» Ler um livro do Quinteto
Islâmico de Tariq Ali exige dedicação exclusiva. Um ritual delicado de
preparação, de limpeza de todos os preconceitos e leituras superficiais, para
embarcar rumo aos séculos com o pensamento arremessado nas ondas da
civilização islâmica. Não há como não se envolver e aprender a história
alinhavada com a envolvente ficção do escritor paquistanês. As sombras da romãzeira
é a projecção silenciosa dos séculos em que os muçulmanos dominaram o sul da
Espanha, região conhecida por Andaluz, e semearam a sua cultura deixando
marcas indeléveis na terra. Logo no prólogo, somos
aquecidos com a grande fogueira de livros escritos em árabe, comandada pelo
cardeal Ximenes de Cisneros, confessor da rainha Isabel, a Católica, em Dezembro
de 1499, representando a quebra do acordo de rendição firmado em 1492 que assegurava
a liberdade de culto para a maioria muçulmana. Numa única noite, tratados de
teologia, manuais de medicina e astronomia, livros de poesia, exemplares do
Alcorão queimam junto aos séculos de conhecimento. «Sobre o borralho de uma
tragédia, espreita a sombra de outra.» A aldeia de Al-Hudail, nas
proximidades de Granada, é o cenário para o encontro das fortes personagens e
a reflexão aprofundada dos medos, das conversões, do cepticismo e da
resistência. A fidelidade ao islamismo demonstrada pelo patriarca Omar bin
Abdala, seus filhos e pelos aldeões; a conversão de alguns parentes próximos
estimuladas pelo cardeal Miguel, tio de Omar, muçulmano convertido e bispo de
Córdoba, e o cepticismo do místico al-Zindiq são confrontados num momento
histórico único que culminou com a expulsão dos muçulmanos de Granada. Ximenes de Cisneros era o «primeiro
arcebispo de Espanha a ser realmente celibatário», «um padre que vivia de
acordo com o que pregava» e, entretanto, foi o instrumento vital para as
arbitrariedades cometidas pela Inquisição contra os muçulmanos e judeus em
Granada, porque ele sabia o poder das ideias e as consequências da fogueira
de livros árabes. «Para que serve a vida sem os
nossos livros de conhecimento?» As figuras esculpidas dos
mouros e cristãos no tabuleiro de xadrez do pequeno Yazid bin Omar é a
metáfora perfeita para o período sangrento e cruel que seguiu a instauração
da Inquisição Espanhola e a intolerância religiosa que culminou no crime
contra séculos de cultura e arte. Mas Tariq Ali não é maniqueísta e apresenta
as tantas perspectivas sem conter as culpas, como na fala do céptico
al-Zindiq: «Nós achávamos que os velhos tempos podiam acabar em toda a parte,
mas nunca em Garnata. Tínhamos certeza de que o reino do islão sobreviveria
em al-Andaluz, mas subestimamos a nossa capacidade de autodestruição. Aqueles
dias nunca mais voltarão, sabe porquê? Porque os defensores da fé brigavam
entre si, matavam‑se e mostraram que não conseguiam unir‑se
contra os cristãos. Até ser tarde demais.» A coragem do filho Zuair bin
Omar e o seu amadurecimento não são suficientes para poupar a sua família da
tragédia. As paixões quando carregam estandartes religiosos jamais se
aproximam da razão e sempre culminam em actos brutais que sangram a
humanidade e jamais serão perdoados. A morte de mulheres e
crianças é justificada pelo temor do capitão exteriorizado para os soldados
após a chacina na aldeia de Al-Hudail: «Eu não disse hoje cedo que o ódio dos
sobreviventes é o veneno que pode destruir‑nos?» As sombras da romãzeira é um romance imprescindível para conhecer a história islâmica e da reconquista cristã durante o reinado dos reis católicos de Espanha, compreender o presente tão propagado nos veículos mediáticos e criar perspectivas para o futuro com a valorização de séculos de cultura islâmica e da sua influência no ocidente. |