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30/08/2006
O livro proibido: uma obra profética e surpreendente Luis Leiria [Naguib Mahfuz, o único Prémio Nobel da Literatura egípcio
e da língua árabe, morreu hoje aos 94 anos num hospital do Cairo. Começara a
publicar com 17 anos, mas ficou famoso no Egipto e todo o mundo árabe com a
publicação da Trilogia do Cairo, uma
obra em três volumes que descreve a trajectória política, as esperanças e as
desilusões de uma família cairota em três gerações, de 1917 a 1944. Mas,
apesar da sua importância, teve um livro proibido no próprio país, Os Filhos do Meu Bairro. Foi
considerado o percursor do moderno romance egípcio, e um dos mais inovadores
e prolixos escritores do Egipto. Alguns dos seus livros, como o Beco dos Milagres, foram levados ao
cinema. Conquistou o Prémio Nobel da Literatura em 1988.] Em Outubro de 1994,
Naguib Mahfuz foi esfaqueado em plena luz do dia quando saía de um carro em
direcção ao seu café favorito do centro do Cairo. O assassino, membro da Irmandade
Muçulmana, queria matá‑lo: a lâmina do punhal que usou para atacar o
velho escritor foi directa ao pescoço. Uma quantidade enorme de
coincidências, porém, salvou-lhe a vida: instintivamente, ele aparou
parcialmente o golpe com a mão. O condutor do carro, seu amigo, era médico e
imediatamente fez um tampão no pescoço com um casaco que impediu que o
escritor se esvaísse em sangue. E o atentado ocorreu quase na porta de um
hospital. O grande escritor
sobreviveu, mas a sua vida mudou completamente. O golpe na mão impediu-o de
voltar a escrever, e daí para a frente, para continuar a exercer o seu
ofício, teve de se habituar a ditar os seus escritos. Mas o que explica a
sanha assassina contra um escritor que, além de ser uma das grandes glórias
do Egipto, era amado por milhares de leitores árabes em todo o mundo e, para
mais, é um bom muçulmano? O pecado, para os fanáticos, foi ter escrito Os
Filhos do Meu Bairro (infelizmente não
traduzido em português; na tradução francesa, Les Fils de la Médina, na tradução inglesa, Children of Gebelawi). O mais incrível é que a obra saíra em folhetim
no mais prestigiado diário em língua árabe do mundo, o Al Ahram, em... 1959. Diante dos protestos pelo seu
carácter “herético”, o texto foi publicado no jornal até ao fim, mas nunca
saiu em livro no Egipto. Uma editora libanesa publicou-o só em 1967. Muitos
dos críticos literários egípcios consideram esta a obra máxima de Mahfuz,
superior até à famosíssima Trilogia do Cairo. O livro fora já
esquecido, quando ocorreu a famosa fatwa
das autoridades religiosas iranianas contra os Versículos Satânicos, de Salman Rushdie. Mahfuz saiu em defesa da
liberdade de expressão do escritor indiano, o que atraiu para si também as
atenções. Afinal, ele era aquele escritor que também tinha cometido uma
enorme heresia. E merecia ser punido. O governo egípcio ofereceu protecção ao
escritor, mas este não a aceitou. E sobreviveu, o que mostra que Alá tem mais
discernimento que aqueles que supostamente seguem os seus ensinamentos, ou
pelo menos aquilo que eles interpretam como seus ensinamentos. Os Filhos do Meu Bairro
é uma obra surpreendente. Como alguns dos mais importantes escritos de Mahfuz,
passa‑se num bairro do Cairo antigo. O que o torna verdadeiramente
especial é que, à medida que o vamos lendo, compreendemos que estamos diante
de uma grande metáfora: a história bíblica está toda lá, transportada para
este cenário de um bairro pobre do Cairo. Deus é Gabalawi, o fundador do
bairro, homem severo e caprichoso, capaz de aterrorizar os mais simples com
as suas súbitas fúrias e que um dia, sem motivo aparente e sem explicações,
decide nomear o filho mais novo, Adão, administrador da fundação. O mais
velho, Idris, revolta-se e é expulso da Grande Casa e amaldiçoado pelo pai.
Eis o demónio que nasce. Adão demonstra-se um
excelente administrador, mas, um dia, instigado pela mulher, Oumayma, entra
furtivamente no quarto do pai para tentar ler um documento fundador. Como era
de esperar, é surpreendido e o casal é expulso, por sua vez do Paraíso, isto
é, da Casa Grande. Adão tem dois filhos,
Hammam e Qadri e – já adivinharam, não? – Qadri mata Hammam. Depois da morte
natural de Hammam e Eva, perdão, Oumayma, Qadri casa com Hind, filha de
Idris, e é deles que descende toda a população do bairro. Seria uma grande
maldade contar toda a história deste romance fascinante, retirando ao leitor
o prazer de folhear as suas páginas. Apenas deixamos alguns traços: os
personagens principais que se seguem são Gabal, um grande líder militar que
organiza a primeira revolta contra o administrador do bairro, mas que depois
apenas exerce o poder para o seu clã, o “povo escolhido”, e não para todos os
habitantes do bairro (Moisés); Rifaa, um verdadeiro hippie que prega o amor e a não-violência, que casa com a
prostituta Yasmina para a salvar da fúria do povo mas que não consuma o
casamento, e que morre sob os varapaus dos guardas (Jesus); e Qasim, um hábil
líder político e militar que cria um poderoso partido/exército, treinado no
deserto dos arredores e que finalmente conquista pela força o bairro (Maomé).
Este é, obviamente, o favorito de Mahfuz, que o descreve como aquele que «combinava
a força e a doçura, a sabedoria e a simplicidade, a majestade e a
afabilidade, o poder e a modéstia, a habilidade e a honestidade mais
escrupulosa». Mas nenhum dos grandes
profetas consegue trazer de forma duradoura a justiça ao bairro, e Mahfuz
tinha uma partida reservada ao leitor: cria um último personagem, Arafa, o
mágico e alquimista, que consegue, ele também, tomar o poder. Mas de pouco
lhe serve, e o seu mister, o do conhecimento, também não é eficaz para acabar
com as injustiças do bairro. Em todo o romance
transparece o clima de ebulição cultural que acompanhou os anos do nasserismo
e, aliás, sente‑se que só nessa época poderia nascer uma obra de tal
calibre. No ano em que começou a ser publicado Os Filhos do Meu Bairro, por exemplo, 60 filmes de longa metragem foram
produzidos num só ano no Cairo. Nesse mesmo ano, havia no país 850 mil
aparelhos de rádio e a emissora Voz dos Árabes emitia para os vizinhos,
levando a palavra de Nasser a todo o povo. Os jornais vendiam-se às centenas
de milhares e a mais famosa cantora egípcia de sempre, Um Kulthum, fazia
sucesso em toda a nação árabe. Hoje, mais de 40 anos depois, o Egipto marca passo, apesar das capacidades e do carisma de Nasser. Também neste aspecto a obra de Mahfuz é profética. |