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07/12/2005
Confissões
sinistras (I)
Pedro Campos
Avante!
Esteve durante sete semanas
consecutivas na lista dos livros mais vendidos do New York Times.
Cento e setenta mil exemplares desapareceram das livrarias num abrir e fechar
de olhos. O Boston Herald disse que era «deslumbrante». O Library
Journal, que se lia «como um romance de espionagem... altamente
recomendado». Trata-se de Confessions of an Economic Hit Man, ainda
não vertido para o português, mas que se poderia traduzir como “Confissões de
um Sicário Económico”. O autor é John Perkins, um executivo de topo, que
“era” um respeitado membro da comunidade financeira internacional. O
pretérito imperfeito deve-se a que em Confessions... define com
enorme precisão que os sicários económicos «são profissionais muito bem pagos
(pelas multinacionais mas ao serviço dos poderes mais sinistros do Império)
que enganam países de todo o mundo em triliões de dólares. As suas
ferramentas são relatórios financeiros fraudulentos, eleições manipuladas,
recompensas, extorsões, sexo e assassinatos».
O livro esteve para sair nos anos noventa mas só apareceu recentemente porque
o autor recebeu um suborno de meio milhão de dólares para o não publicar.
Realmente, afirma Perkins, não foi um suborno: «pagaram-me como consultor»
(...) não teria que fazer muito trabalho, simplesmente não escrever este
livro, que, nesse momento, se chamava “A Consciência de um sicário
económico”. O meio milhão saiu dos cofres de Stone Webster, uma empresa
construtora, mas poderia ter partido da Halliburton, da Betchel ou de
qualquer outra grande corporação.
Se não se entende com clareza o que é um “sicário económico”, o autor
explica. «O que nos ensinaram a fazer é reforçar o império estado-unidense.
Criar situações nas quais o máximo de recursos naturais chegue a este país,
às nossas corporações e ao nosso governo», e de facto tivemos muito sucesso.
Construímos o maior império da história. Isto foi conseguido nos últimos 50
anos (...) com muito pouca intervenção militar. É só em casos como o do
Iraque que o militar entra como último recurso».
SÓ OS “MELHORES” SÃO ESCOLHIDOS
Logo a seguir à II Guerra Mundial, os encarregados destes “trabalhos” eram
homens ligados à CIA, como por exemplo Kermit Roosevelt, neto de Teddy, que
foi «homem do ano» da revista Time, muito provavelmente por ter derrubado o
governo de Mossadegh (Irão) e tê-lo substituído pelo Xá. O “netinho” teve
sucesso, mas se tivesse sido apanhado com as mãos na massa teria sido um
sarilho porque aquilo não era “politicamente correcto”. É então quando surde
a necessidade de criar os “sicários económicos” e deixar a CIA e a NSA para
quando não há mais alternativa...
John Perkins, que trabalhou para Chas T. Main, de Boston, Massachussets, onde
chefiava um grupo de meia centena de economistas, conta que foi recrutado nos
anos sessenta, quando ainda estava na universidade, pela National Security
Agency (Agência Nacional de Segurança), a «maior e menos conhecida das
organizações de espionagem» dos Estados Unidos. Yale e Harvard, entre outras
casas de estudo, são as que fornecem a matéria-prima para a transformação de
jovens academicamente brilhantes em “sicários económicos”.
Nesta leitura a não perder, Perkins conta que a função destes “sicários
económicos” é emprestar dinheiro, quantidades enormes de dinheiro a países
que depois não o podem pagar. Uma espécie de “fundo perdido”, diríamos... Uma
das condições para esta “generosidade” é que esse dinheiro – fala-se
geralmente de milhares de milhões – seja utilizado em 90% em grandes
projectos de sistemas de energia eléctrica ou portos ou aeroportos ou outras
obras de infra-estrutura, que deverão ser construídos por empresas norte‑americanas.
O dinheiro sai dos Estados Unidos e regressa rapidamente ao ponto de partida
com juros tão leoninos que deixam o país “beneficiário” hipotecado de por
vida, económica e politicamente.
Tome-se o caso do Equador. O autor recorda-nos que este país latino-americano
«deve hoje dedicar mais de 50% do seu orçamento nacional só para pagar a
dívida. E não o pode fazer. Temo-lo agarrado pelo pescoço. Então, quando
queremos mais petróleo, vamos ao Equador e dizemos: “Olhem, vocês não podem
pagar a dívida, entreguem então os vossos bosques amazónicos, que estão
cheios de petróleo, às nossas companhias petrolíferas, e assim entramos e
destroçamos a Amazónia, obrigando o Equador a que nos entregue essa zona
porque acumulou uma dívida imensa».
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