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Mundo

05/05/2007

 

Dez anos sem Paulo Freire

 

Raúl Zibechi

La Jornada

 

No dia 2 de Maio cumpriram-se 10 anos da morte de Paulo Freire. Passaram­‑se mais de 45 anos, quase meio século, desde que começou o seu trabalho de alfabetização com camponeses no Recife, Brasil. Neste curto período de tempo, a educação popular triunfou, a tal ponto que se transformou no sentido comum, no modo habitual de trabalho numa porção significativa dos movimentos sociais do nosso continente.

 

A educação popular, corrente de pensamento e de resistência cultural nascida na América Latina sob as ditaduras dos anos 60, cresceu e expandiu­‑se a partir dos anos 70. Há dez anos atrás, o continente ainda era sacudido pela onda neoliberal privatizadora que desmantelou os estados nacionais. Para os movimentos sociais, os contributos de Freire foram decisivos no momento de construir formas de acção e reflexão colectivas, que lhes permitiram adquirir autonomia de análise e de compreensão da realidade.

 

Mas o triunfo coloca a educação popular num lugar impensado e impensável há décadas atrás. Foi reconhecida e adoptada por sectores do Estado: há pouco tempo pude observar no Ministério de Desenvolvimento Social do Uruguai reuniões que se realizam seguindo os preceitos popularizados por Paulo Freire: pequenos grupos trabalhando em círculo, debatendo com base em perguntas lançadas pelo coordenador, realizando dinâmicas de grupo, utilizando papelógrafos.

 

As vitórias trazem novos desafios e problemas a resolver. No caso da educação popular, desde há alguns anos podemos observar a sua crescente institucionalização. Centenas de ONG contratadas por ministérios para promover o “desenvolvimento” dos mais pobres, em sintonia com as políticas do Banco Mundial, utilizam as metodologias da educação popular. O estatuto do educador popular ganhou respeito e um lugar nas instituições. Isto coloca um duplo problema.

 

Por um lado, a institucionalização da educação popular gera elevados níveis de confusão que debilitam os movimentos. Os estados compartilham com frequência os mesmos espaços que os movimentos sociais, mas esses espaços não estão claramente delimitados e a utilização por ambos os protagonistas de técnicas próprias da educação popular acentua ambiguidades. Desde que existem governos progressistas, cresceu uma tendência que já se vinha expandindo pela mão das ONG: funcionários estatais e militantes sociais partilham estilos de trabalho, linguagens e códigos similares.

 

Em segundo lugar, a educação popular ficou em muitos casos reduzida a uma espécie de caricatura: dinâmicas grupais vazias de conteúdo. As metodologias de trabalho de grupo, que foram criadas para fomentar a participação e o espírito crítico, como forma de potenciar a mobilização dos sujeitos colectivos, agora aparecem como fins em si mesmas. Transformaram-se em técnicas ocas que não contribuem para a autoconsciência, melando a potencialidade crítica dos sectores populares. Pela mão das ONG e dos estados, milhares de educadores populares contratados não têm já interesse em superar a relação sujeito-objecto e limitam­‑se a perpetuar o papel do “coordenador”. Desse modo, uma educação popular “oficializada” tornou­‑se funcional para os estados e para a estrutura institucional.

 

No entanto, o espírito de Paulo Freire continua vivo. Mas parece ter-se refugiado nas práticas educativas de alguns movimentos que tomaram a educação nas suas mãos. Ou seja, que já não a delegam nos estados. É o caso do Movimento Sem Terra do Brasil (MST), que tomou como ponto de partida a proposta de Freire, mas não se limitou a repeti­‑la mecanicamente, e antes a pôs em movimento. O MST procura que a comunidade se encarregue da escola e defina o rumo da educação. O movimento converteu-se num “sujeito educativo” e, portanto, todos os seus espaços, acções e reflexões têm uma intencionalidade pedagógica. Isto implica desbordar o papel tradicional da escola e do docente: deixa de haver um espaço especializado na educação e uma pessoa encarregada da mesma; todos os espaços, todas as acções e todas as pessoas são espaço­‑tempo e sujeitos pedagógicos. «Transformar-se transformando» é o princípio pedagógico, e o movimento é o sujeito educativo. Já não se regista divisão e separação entre escola e sociedade. A pedagogia deixa de ser uma técnica dominada por especialistas para se converter num “ambiente”, um processo de auto­‑educação permanente.

 

Outra experiência importante é a que se regista nos municípios autónomos zapatistas, em Chiapas. Segundo a crónica de Gloria Muñoz Ramírez [1], nas escolas zapatistas os critérios educativos baseiam-se em que a educação «sai do pensamento dos povos», em que «as crianças vão consultar os anciãos das aldeias e juntamente com eles vão montando o seu próprio material didáctico». Uma pedagogia que teria entusiasmado Paulo Freire. Mais ainda, não atribuem qualificações: «Aos que não sabem não se lhes põe zero, em vez disso o grupo não avança até que todos vão a par, a ninguém se reprova». No final do curso, os promotores indígenas – eleitos pelas suas comunidades – organizam actividades que são presenciadas pelos pais de família, que «valorizam a aprendizagem dos seus filhos, sem lhes outorgar qualquer qualificação».

 

Creio que as práticas educativas destes e doutros movimentos recolhem a intencionalidade libertadora de Paulo Freire: a educação tende a ser auto­‑educação; o espaço educativo não é só a aula, mas toda a comunidade; os que ensinam não são só os professores, mas todos os membros da comunidade; as próprias crianças mostram a sua capacidade de aprender­‑ensinar; todo o movimento é um espaço auto­‑educativo. Abaixo, longe das instituições, a educação popular abriu espaços pelos quais transitam agora sujeitos que estão a criar um outro mundo.

 

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[1] Gloria Muñoz Ramírez, Chiapas, la resistencia, La Jornada, 19/09/2004.