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26/03/2007 Foi um grande concerto de
solidariedade!
Na semana do 4º aniversário
da agressão ao Iraque e da resistência do povo iraquiano, realizaram-se três
iniciativas em Lisboa – além de outros actos públicos no Porto e em Évora. Na
terça-feira, dia 20, no Rossio (Lisboa), centenas de manifestantes denunciaram
o crime imperialista e a conivência dos governos portugueses. No sábado 24,
na Casa do Alentejo (Lisboa), realizou-se um debate em que foram oradores
convidados o historiador António Louçã, o físico Rui Namorado Rosa, Carlos
Carvalho (da CGTP), Silas Cerqueira (do CPPC) e o arquitecto Manuel Raposo
(do Tribunal-Iraque). Ambas estas iniciativas foram convocadas por dezenas de
organizações políticas, sindicais e sociais. Na sexta-feira dia 23, na
sala grande do Cinema São Jorge (Lisboa), realizou-se o concerto “Canções
pelo Iraque”, promovido pelo Tribunal-Iraque, que foi um grande êxito sob
todos os aspectos. Perante uma casa
completamente esgotada (muita gente ficou à porta sem conseguir bilhete), um
leque de artistas que nunca tinham estado juntos num palco – Jorge Palma,
Paulo de Carvalho, José Mário Branco, Camané, Pedro Abrunhosa, Fausto e Luís
Represas – empolgaram a assistência com belíssimas canções – e uma alegria e
uma combatividade que não se viam nestas coisas há muitos anos. O cineasta e
encenador Jorge Silva Melo e a actriz Rita Blanco leram duas mensagens
enviadas expressamente para o evento pelo Professor Eduardo Lourenço e pelo
grande cientista e lutador estadunidense Noam Chomsky; leram também dois
poemas, do dramaturgo Harold Pinter (Prémio Nobel da Literatura) e do poeta
palestiniano Mahmud Darwish. Pacman (Da Weasel) enviou uma mensagem gravada
explicando que só não estava presente por motivos de força maior; e também
Rui Veloso, por motivos de saúde. Esta noite memorável acabou
com todos os artistas em palco, cantando com o público “O que faz falta” e
“Venham mais cinco” de José Afonso. Num grande telão que serviu de cenário
podia-se ler: “Canções pelo Iraque – Quatro anos de ocupação – Quatro anos de
resistência”. Os profissionais
participantes – artistas, técnicos, o gráfico que concebeu os cartazes, a
tipografia que os imprimiu, a empresa de som e luz, a empresa que alugou o
piano, a equipa de dez jovens cineastas que filmaram o evento – todos
intervieram gratuitamente em solidariedade para com a resistência iraquiana.
Permitiram assim que o Tribunal-Iraque cobrasse um preço barato pelos
bilhetes, apenas para garantir o pagamento das despesas. MENSAGEM DO
PROFESSOR EDUARDO LOURENÇO QUATRO ANOS A MAIS Há quatro anos que estamos
fora da História. Graças aos Estados Unidos que pensavam ser os donos dela e
mesmo pôr-lhe fim enquanto Messias da Democracia. O resultado está à vista:
estamos em pleno caos, criado em nome dessa mesma Democracia. Os nossos
vizinhos sugerem-nos que levemos a tribunal o famoso “trio dos Açores” – que
são quatro, como os mosqueteiros. Nós somos mais suaves. Contentamo-nos com o
registo da falência espectacular de George Bush. Ao fim destes anos, o Iraque
é uma mancha de sangue conscientemente programada e uma chaga política e
ética ainda em aberto. O Iraque não é o novo
Vietname da América. E se fosse, em nada isso reforçaria a visão democrática
de que os Estados Unidos se imaginam os únicos apóstolos. Só a América mesma
pode sair do atoleiro sangrento que a actual administração inventou para
salvar o mundo à sua maneira. Não o tem salvo e perdeu a sua alma por alguns
barris de petróleo. Outra América reprogramará esse mau filme. Como Clint
Eastwood acaba de fazer com as “Cartas de Iwo Jima”. Esta é a América
universalista de Walt Whitman. A que nós amamos na literatura, no cinema e na
vida, não a que arrasta o Ocidente inteiro nos seu delírios imperiais sem
futuro. Nem para ela nem para ninguém. Eduardo Lourenço Vence, 23 de Março de 2007 MENSAGEM DO
PROFESSOR NOAM CHOMSKY (EUA) O Iraque foi massacrado pelo
Ocidente. Primeiro pela Grã-Bretanha, mais recentemente pelos Estados Unidos
e pelos seus aliados, desde que o país foi criado pela violência britânica
depois da primeira guerra mundial, com fronteiras impostas pelos interesses
britânicos e não da população. Desde então, a lista é
terrível e vergonhosa. E ela inclui o firme apoio a Saddam Hussein pelos
governos de Thatcher, Reagan e Bush, nomeadamente o apoio ao desenvolvimento
de armas de destruição massiva e à agressão assassina contra o Irão. O apoio prosseguiu sem falhas
depois de os Estados Unidos terem ajudado o seu amigo Saddam a ganhar essa
guerra e continuou efectivamente depois da primeira Guerra do Golfo, quando o
governo de Bush Pai autorizou Saddam a esmagar uma revolta Chiita que quase o
destronou, tendo preferido Hussein a um Iraque governado pelos iraquianos. Seguiu-se o regime de sanções
britânicas e americanas que matou centenas de milhares de civis, destruiu a
sociedade civil, reforçou a tirania, obrigou a população a depositar no
tirano a sua esperança de sobrevivência, e muito provavelmente o salvou do
destino de muitos outros gangsters e torturadores como ele, apoiados
pela Grã Bretanha e pelos Estados Unidos até ao fim do seu reino sangrento: Ceausescu,
Suharto, Marcos, e uma incomensurável galeria de patifes, à qual
permanentemente se vêm juntar novos nomes. Veio depois a invasão britânica
e americana, uma agressão criminosa que transformou o que ficara do Iraque
numa terra devastada. Bem podemos evocar o
julgamento de Nuremberga, a fundação do moderno direito internacional que
definiu a agressão como o “supremo crime internacional” que gera todo o mal
que dela decorre. Todo o mal, incluindo os
crimes de guerra americanos em Fallujah e Abu Ghraib, as odiosas matanças
sectárias que resultam da invasão, a imensa fuga de refugiados do país em
ruínas e muito mais. Chegados aos dias de hoje, os
Estados Unidos, o Reino Unido e os seus aliados recusam‑se
simplesmente a aceitar a sua responsabilidade de agressores: a pagar
reparações às vitimas (que incluem as das sanções e outros crimes), a julgar
os responsáveis e a ouvir a vontade das vítimas. O governo dos Estados Unidos,
a classe política e os meios de informação sabem muito bem o que querem os
iraquianos. Sondagens realizadas pelos Estados Unidos indicam que dois terços
dos habitantes de Bagdade querem que o exército ocupante saia imediatamente e
a grande maioria dos restantes querem um calendário claro da retirada dentro
de um ano ou menos. A opinião pública do Iraque
não é tida em conta, tal como a opinião pública espanhola o não foi quando
Aznar se juntou a Bush e Blair na cimeira dos Açores para anunciar a guerra,
com o apoio de 2% do povo espanhol. Há muitos problemas no mundo
– mas alguns dos mais graves estão nos mais poderosos estados do Ocidente – o
que é uma conclusão optimista, pois significa que podemos fazer bastantes
coisas para os resolver, se o quisermos. Noam Chomsky POEMA DO POETA
PALESTINIANO MAHMUD DARWISH VÃO-SE EMBORA Passageiros entre palavras
fugazes: carreguem os vossos nomes e
vão-se embora, Cancelem as vossas horas do
nosso tempo e vão-se embora, Levem o que quiserem do azul
do mar E da areia da memória, Tirem todas as fotos que vos
apetecer para saberem O que nunca saberão: Como as pedras da nossa terra Constróem o tecto do céu. Passageiros entre palavras
fugazes: Vocês têm espadas, nós o
sangue, Têm o aço e o fogo, nós a
carne, Têm outro tanque, nós as
pedras, Têm gases lacrimogéneos, nós
a chuva, Mas o céu e o ar São os mesmos para todos. Levem uma porção do nosso
sangue e vão-se embora, Entrem na festa, jantem e
dancem… Depois vão-se embora Para nós cuidarmos das rosas
dos mártires E vivermos como queremos. Passageiros entre palavras
fugazes: Como poeira amarga, passem
por onde quiserem, mas Não passem entre nós como
insectos voadores Porque temos guardada a
colheita da nossa terra. Temos trigo que semeámos e
regámos com o orvalho dos nossos corpos E temos aqui o que não vos
agrada: Pedras e pudor. Se quiserem, levem o passado
ao mercado de antiguidades E devolvam o esqueleto à
poupa Numa travessa de porcelana. Temos o que não vos agrada: o
futuro E o que semeamos na nossa
terra. Passageiros entre palavras
fugazes: Amontoem as vossas fantasias
numa sepultura abandonada e vão-se embora, Devolvam os ponteiros do
tempo à lei do bezerro de ouro Ou ao horário musical do
revólver Porque aqui temos o que não
vos agrada. Vão-se embora. E temos o que não vos
pertence: Uma pátria e um povo exangue, Um país útil para o olvido e
para a memória. Passageiros entre palavras
fugazes: É hora de vocês se irem
embora. Fiquem onde quiserem, mas não
entre nós. É hora de se irem embora Para morrerem onde quiserem,
mas não entre nós Porque nós temos trabalho na
nossa terra E aqui temos o passado, A voz inicial da vida, E temos o presente e o
futuro, Aqui temos esta vida e a
outra. Vão-se embora da nossa terra, Da nossa terra, do nosso mar, Do nosso trigo, do nosso sal,
das nossas feridas, De tudo… vão-se embora Das recordações da memória, Passageiros entre palavras
fugazes. Mahmud Darwish é um símbolo
da cultura da Palestina e um dos maiores poetas árabes contemporâneos. Os
seus livros circulam aos milhares em todos os países árabes e os estádios
enchem-se para ouvir os seus recitais poéticos. Uma das maiores esperanças do
poeta, actualmente a viver entre a Jordânia e a Cisjordânia, é poder voltar
um dia à sua terra natal, a Galileia, onde nasceu em 1942. UM POEMA DE
HAROLD PINTER (PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2005) MORTE Onde foi o corpo morto
encontrado? Quem encontrou o corpo morto? Estava morto o corpo morto
quando foi encontrado? Como foi o corpo morto
encontrado? Quem era o corpo morto? Quem era o pai ou filha ou
irmão Ou tio ou irmã ou mãe ou
filho Do corpo morto e abandonado? Estava morto o corpo quando
foi abandonado? O corpo foi abandonado? Por quem foi ele abandonado? Estava o corpo morto nu ou
vestido para viagem? O que te fez declarar morto o
corpo morto? Declaraste morto o corpo
morto? Conhecias bem o corpo morto? Como soubeste que o corpo
morto estava morto? Será que lavaste o corpo
morto Será que lhe fechaste ambos
os olhos Será que enterraste o corpo Será que o deixaste
abandonado Será que beijaste o corpo
morto (Tradução de Pedro Marques
e Jorge Silva Melo) |