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15/02/2007 O artista enquanto
trabalhador José
Soeiro O mundo das artes, que historicamente construiu a sua autonomia através da oposição ao mercado e às suas lógicas, aparece agora como o percursor das formas mais avançadas de flexibilidade e de um mercado de trabalho ultra-individualizado, sem protecção e sem organizações de classe. Por isso mesmo, a Petição que corre pelos direitos sociais dos intermitentes, e que em breve será entregue no Parlamento, é um bom pretexto para lançar o debate sobre a protecção social numa época de flexibilidade. A dificuldade de entendermos
os artistas como trabalhadores deriva, desde logo, da ideologia romântica da
criação como algo “fora do mundo” e, sobretudo, fora do mercado. Mas resulta
também da permanência da oposição, desenvolvida por Marx, entre trabalho
alienado e trabalho livre: o trabalho artístico seria neste caso o modelo do
trabalho não alienado, através do qual o sujeito se realiza na plenitude da
sua liberdade, exprimindo a sua essência humana. Por ser um trabalho
expressivo e que implica o indivíduo em toda a sua autonomia, o trabalho
artístico parece ser a antítese da exploração do trabalho assalariado. E no
entanto, cada vez mais, ele é simultaneamente um trabalho expressivo e
assalariado, com a agravante de não usufruir das protecções sociais
construídas para o comum dos trabalhadores. As actividades de criação
artística são hoje a expressão mais avançada dos novos modos de produção e
das novas relações de emprego do capitalismo flexível [1]. Analisando a
condição do artista enquanto trabalhador, podemos ler muitas das tendências
mais importantes do “novo espírito do capitalismo”: ancorado nos valores da
inovação, do conhecimento, da motivação, o artista age num mercado
hiperflexível de trabalho intermitente, de freelancing, de relações de
emprego efémeras, de práticas de subcontratação. O trabalho em free-lance
e o emprego intermitente permitem contratar e despedir consoante as
necessidades e colocam os artistas num estatuto incompatível com as
disposições do subsídio de desemprego próprios dos assalariados. Os paradoxos do trabalho
artístico permitem-nos adivinhar o que se espera do trabalho precário
qualificado: os artistas reconhecem e reivindicam a autonomia e a
flexibilidade funcional (e não numérica ou contratual), a forte implicação no
trabalho, a combinação de remunerações materiais/salariais e simbólicas/não monetárias.
Mas a flexibilidade impõe-lhes uma situação de permanente alternância entre
períodos de trabalho, de desemprego não indemnizado, de procura de emprego,
de multi-actividade dentro ou fora da esfera artística – e tudo isto, em
Portugal, com a obrigação de contribuição mensal obrigatória para a Segurança
Social (mesmo em períodos em que não têm rendimento) e sem a garantia de
subsídios de desemprego e de doença. A diferença para a maioria
dos trabalhos precários é, todavia, importante. Como diz a petição dos
profissionais do espectáculo e do audiovisual, «a instabilidade profissional
não é apenas uma característica da nossa profissão mas uma exigência do
próprio trabalho artístico». É que num trabalho qualificado e em que a
instabilidade lhe é constitutiva, a flexibilidade é vivida de maneira
substancialmente diferente da maioria dos trabalhos precários
desqualificados, alienantes e em que a incerteza não é uma característica do
trabalho em si, mas um instrumento do patrão para manter o trabalhador submetido
e mal remunerado através de contratos a prazo para funções permanentes. Neste sentido, é
imprescindível perceber que a especificidade do trabalho artístico exige uma
protecção social que responda à sua natureza intermitente e descontínua e que
essa luta é um combate fundamental pelos direitos sociais. Precisamos, por
outro lado, de estar atentos para não permitir que a exaltação destas
características do trabalho artístico se transforme num discurso ideológico
que, transposto para outros trabalhos, encubra ou legitime novas formas de
exploração, adaptadas às exigências de precarizar, aumentar a produtividade e
retirar o Estado da responsabilidade de criar uma protecção social que
responda aos riscos do desemprego, do subemprego e do trabalho temporário. De
facto, em profissões cuja natureza é de continuidade e estabilidade, a
precariedade é uma forma de reduzir direitos e, por isso mesmo, as propostas
sobre a “flexisegurança” devem merecer grande desconfiança, ainda mais vindas
de quem tem apostado na destruição do Estado Social e na desregulamentação
(como Cavaco ou Sócrates). O alerta de Florival Lança (CGTP) no Esquerda
[2] é da maior importância: a flexisegurança está a ser usada para defender
que há uma «inevitabilidade em relação à flexibilidade, mas que não há dinheiro
para pagar a segurança». Assim, a análise do trabalho
artístico permite-nos perceber os perigos e as seduções do trabalho com
grande autonomia, responsabilidade, criatividade, mas em que os riscos de um
mercado flexível são assumidos pelos próprios trabalhadores. Se a flexibilidade
tem sido usada como uma forma de gerir as incertezas do mercado, pondo os
trabalhadores a pagar directamente os custos dessas incertezas, reivindicar
formas de protecção social para o trabalho intermitente é uma luta da maior
importância. Por isso mesmo, a Petição que
será apresentada pelos profissionais do espectáculo e do audiovisual na
Assembleia da República merece um apoio combativo e a discussão que ela gerar
merece toda a atenção da esquerda. ______ [1] O livro de Pierre-Michel Menger, Retrato do Artista enquanto trabalhador. Metamorfoses do Capitalismo (Roma Editora, 2005), constitui uma análise útil para pensarmos este problema e a natureza do trabalho artístico nas sociedades de hoje. [2] Nuno Ramos de Almeida, «É preciso somar forças com outros movimentos sociais». Entrevista a Florival Lança. Esquerda, 31/01/2007. |