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18/12/2006 Passa por mim no Rivoli! Alda
de Sousa O anúncio feito por Rui Rio durante este fim de semana do vencedor do concurso à gestão do Rivoli nos próximos 4 anos já não surpreendeu. Foi apenas a confirmação oficial do que há alguns meses se adivinhava, desde a sua decisão de entregar a privados a gestão do teatro municipal Rivoli. O caderno de encargos do concurso, com o critério da rentabilidade à cabeça, apontava à partida para o vencedor. O objectivo da Câmara era precisamente afastar do Rivoli quer os grandes festivais já aí ancorados, quer tudo o que “cheirasse” a criação independente ou arte contemporânea. Seis anos depois de ser capital europeia da cultura, o Porto vai ter como espectáculo de fim de ano, na Avenida dos Aliados, pago pela autarquia.... nem mais nem menos do que Quim Barreiros. Seis anos depois de as populações de vários bairros da cidade terem sido não apenas espectadoras mas também participantes e criadoras de eventos culturais (ex: a representação de Wozzeck, de Alban Berg, no Bairro de Aldoar, um dos bairros estigmatizados da cidade, trabalhado noites a fio com os seus moradores), o programa de Rui Rio “para os bairros” é feito em parceria com a Rádio Festival e resume-se a música pimba e fado. Não sei o que é mais chocante nesta forma de Rui Rio ver a cultura. Se a sua aversão a tudo o que é independente, experimental, novo, ou se a sua concepção dual de fruição cultural. Para ele, há uma cultura para o povo, ou melhor dizendo, a que o povo tem direito a ter acesso (fado, música pimba e quando muito festas populares) e uma cultura erudita que se pode desfrutar na casa da Música, em Serralves ou no Teatro S. João, entre outros. Mas nem uns nem outros podem ou sobretudo devem cruzar os limites dos seus territórios. Cada um no seu lugar! Nada de misturas! Com esta gestão camarária, a cidade dualiza-se cada vez mais. A política cultural de uma autarquia pode ser decisiva na transformação de uma cidade, ao ser geradora de novas vivências e portadora de novas oportunidades e emancipações. Ela pode ser impulsionadora da expressão de novas e múltiplas identidades. Mas também pode ser opressora e castradora das mesmas. Rui Rio escolheu um caminho. Apesar do imenso protesto da cidade e de muitos criadores culturais por esse país fora, nada fez recuar o homem que disse há uns anos que quando ouvia falar em cultura pegava logo numa máquina de calcular. O ódio e o desprezo de Rui Rio pela cultura são uma imensa ferida aberta na cidade. Essa ferida não vai sarar de forma natural. Talvez faça um abcesso que venha a rebentar mais cedo do que tarde! |