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10 e 13/11/2006 A mundialização do Teatro do Oprimido – Entrevista a Augusto Boal – Eduardo Carvalho Parte I Presente em mais de 50 países, o Teatro do Oprimido
elevou Augusto Boal ao panteão dos grandes teatrólogos sociais de todos os
tempos, eternizando-o ao lado de nomes como Brecht e Stanislawsky. Na
primeira parte desta entrevista exclusiva, Boal fala da dissiminação mundial
de seu trabalho. Carioca de nascença, aos 75 anos,
o cidadão do mundo Augusto Boal permanece no Rio de Janeiro irradiando para
todo o planeta os germens e frutos de seu maior projecto: o Teatro do
Oprimido, um conjunto conceitual de técnicas que transformam o espectador em
protagonista do espectáculo, profundamente envolvido com a trama da sua
própria existência, mais intensamente com os condicionantes sócio-económicos
da sua situação. Um trabalho libertário que se globaliza não por modismo ou
estratégia de bom empreendimento, mas por necessidade de actuar em todos os
lugares onde a arte ainda possa significar libertação de amarras da
consciência do ser sobre si e sobre a sua condição no mundo. A dimensão cosmopolita do seu
teatro já data dos quinze anos, entre 1971 e 1986, em que esteve no exílio
político. Nesta fase, Boal desenvolveu as experiências teatrais que lhe
renderiam o reconhecimento internacional do público, da crítica, dos
estudiosos e do meio teatral. Elevado ao status de recriador do Teatro
Político, assumiu lugar de definitivo na galeria de nomes mundialmente
reconhecidos na área como Brecht e Stanislawsky, exactamente por fazer aquilo
com que Brecht apenas sonhou e escreveu: um teatro alegre e instrutivo. Isso
de acordo com The Drama Review e com o The Guardian, ambos
citados no verbete a seu respeito na Wikipédia. Augusto Boal, que acaba de
regressar da Índia, onde esteve criando a Federação Indiana de Teatro do
Oprimido, falou com exclusividade por telefone com Carta Maior. [...] – Como está a saúde? A saúde melhorou, está óptima, o
que está ruim é o meu joelho. A doença que tive já está totalmente
controlada, mas o joelho dói. Agora, que estive na Índia, piorou um pouco,
pois participei de uma longa marcha com 12 mil aderentes da Federação Indiana
de Teatro do Oprimido, andando e correndo pelas ruas de Calcutá. – Como foi isso? Na Índia, há um grupo, o Jana
Sanskriti, que esteve aqui no Brasil, em um festival que realizamos em 1993.
Desde então, eles não pararam de crescer e já conseguiram criar centros
semelhantes em 16 estados da Índia, mesmo que, em cada estado, em cada
região, haja uma língua diferente. São 18 línguas mais ou menos oficiais por
lá! Mesmo assim, eles reuniram 12 mil pessoas de 9 estados que caminharam
pelas ruas de Calcutá, ouviram o meu discurso em inglês com as traduções em
bengali e hindi. Depois, fizemos o festival propriamente dito e, no
encerramento, fundamos a Federação Indiana de Teatro do Oprimido, que reuniu
a assinatura de 37 associações, sindicatos e movimentos operários e de massa.
Foi uma coisa muito grande e forte! Algo maravilhoso. Andamos pelo meio das ruas
e não deu para aguentar: enfiei-me no meio dos participantes, apoiado pela minha
bengala e com uma jovem ajudando‑me, e tive que andar depressa por
mais de meia hora. Foi isso que arrebentou de vez o meu joelho! – Como acontece a transposição das técnicas do Teatro
do Oprimido para um país com uma cultura tão díspar como a Índia? As técnicas do Teatro do Oprimido
são aplicados aos problemas deles. Realmente há diferenças culturais; eles
são, por exemplo, muito mais melódicos nos movimentos do que os africanos que
são mais rítmicos ou os franceses que fazem a coisa mais falada. O método é o
mesmo, mas cada cultura o traduz com as suas peculiaridades. Não se pode
esperar que os hindus ginguem como mulatas! A base é o Teatro Fórum, a
entrada do espectador em cena, a forma de desenvolver as entradas até chegar
a conclusões de propostas... tudo feito segundo a regra do Teatro do Oprimido
[1]. – Além da Índia, com toda esta adesão, onde mais se
desenvolvem actividades de Teatro do
Oprimido no mundo? No site internacional do Teatro
do Oprimido [2], podem ser observados, no link Yellow Pages, 50 países
que desenvolvem o trabalho. Mas há mais países que têm Teatro do Oprimido e
que ainda não constam do site. – Vi que você lançou um livro, A Estética do Oprimido, em Londres recentemente. Há muitos
livros seus ou sobre o seu trabalho traduzidos pelo mundo? E nas
Universidades, há estudos sobre o seu trabalho? Muitos sim. Na Inglaterra, são 6
ou 7 títulos. Na França, publiquei o primeiro livro há mais de 30 anos e ele
continua a vender muito. Hoje, já existem pelo menos 29 livros publicados no
mundo inteiro sobre mim ou sobre o Teatro do Oprimido, em línguas que vão
desde o inglês, italiano, alemão, até ao hindi indiano e ao urdu do
Paquistão... Há muitos anos as proposituras do Teatro do Oprimido são objectos
de teses de mestrado e doutoramento e de cursos em diversas universidades
pelo mundo, tanto que, em Agosto passado, professores e alunos da
universidade de Nova Iorque e de San Juan Porto Rico vieram passar uns 10
dias estudando comigo. – Você acha correcta a avaliação
que o meio artístico e académico internacional faz do seu trabalho? Quando há um volume muito grande
de escritos, aparecem coisas maravilhosas. A minha interpretação da tragédia
grega segundo Aristóteles, por exemplo, é tema universitário nos EUA, pois
analiso a catarse e outros elementos de uma forma diferente do que propõem
outros autores. Lógico que, no meio de tanta produção, também aparecem coisas
bobas, daquelas que leio e concluo que nada foi entendido direito. Mas não há
nada de catastrófico ou de distorções, excepto quando pretendem usar para
fins diferentes dos que propomos. Por se tratar de um tema mundial,
amplamente difundido, inclusive pela Internet, não é possível que todos
entendam tudo da maneira mais adequada. Isso acontece com a psicanálise, com
o cristianismo... há diversas e bizarras interpretações de tudo isso. Uma
solução que encontramos para diminuir tais distorções é propor a criação de
federações nacionais de Teatro do Oprimido, como já fizeram os indianos, para
que obtenhamos mais unidade e interligação. – Como fica o seu ego com esta celebridade toda? Olha, eu fico contente, mas não
fico me achando nada de especial. Tem muita gente que faz muita coisa linda
pelo Brasil afora e ninguém fica sabendo. Eu fiz o que queria fazer e
multipliquei-me em milhares de pessoas. O Centro aqui do Rio, por exemplo,
trabalha feito louco. Além dos pontos de Cultura, estamos a trabalhar em
prisões de sete estados, nos CAPS (Centros de Atendimento Psicológico e
Social) no Rio e em São Paulo e, com as escolas no estado do Rio, a desenvolver
a estética do oprimido na pintura, escultura, poesia, música, dança... – Você está directamente à frente
de tudo isso? Não é bem assim. A minha relação
é assim: temos um laboratório de interpretação e um seminário de dramaturgia
que eu dirijo e que são voltados aos 8 curingas do Centro do Teatro do
Oprimido – CTO e a outros que ajudam e participam, mas que não são os
curingas do Centro. Os curingas é que multiplicam o trabalho e o espelham
pelo Brasil e pelo mundo. Eles é que fazem um trabalho intenso e heróico. – Neste sentido, você acha que já
está pronto para sair de cena? Eu não vou sair de cena nunca! Eu
estou vivo! Estou jovem com 75 anos de idade! Estou na juventude da velhice!
O trabalho não precisa mais de mim, mas eu estou aí, realizando-o e estarei
sempre! Parte II A sinergia entre as acções do Teatro do Oprimido e Os Pontos de Cultura, a preocupação com o património da humanidade que se deteriora no Brasil, um balanço do ministério Gil e as perspectivas em relação ao segundo mandato do presidente Lula estão nesta segunda parte da entrevista com Boal. – Antes que me esqueça, quero
transmitir o agradecimento do Emir Sader por você ter assinado o manifesto em
sua defesa no caso da condenação em processo movido pelo senador Bornhausen
[3]... Eu tive uma ideia, que acho até
melhor do que simplesmente assinar o manifesto. Deveríamos pegar o artigo do Emir
que gerou esta condenação e republicá-lo, assinado não mais pelo Emir, mas
por todos os que aderiram ao manifesto. Começar, por exemplo, com Antonio
Candido, este emblema da intelectualidade brasileira, ou com juristas, como o
Fábio Konder Comparato. Isso para mostrar que não se trata de um arroubo de
jovens românticos, ou até mesmo de velhos românticos, mas para mostrar que é
algo baseado na lei, para mostrar se temos ou não o direito de falar o que o
Emir expressou! Podemos, assim, assinar como co-autores. O que fará o juiz?
Processará todo mundo? Condenará todos a perderem os seus empregos? A mim parece‑me
que um político que chama um milhão de petistas de “raça” da qual se quer
livrar, esse sim, me parece que comete uma falta grave, passível de punição
por lei. – Como está a crise que envolve o risco de o Teatro do
Oprimido perder a sua sede no
corredor cultural da Lapa? Eu soube, não estava lá, pois
estava viajando por ai, que o Sérgio Cabral, governador eleito do Rio, foi ao
corredor cultural da Lapa e disse ao Amir Haddad, que o recebeu, que o seu
primeiro acto seria resolver este problema um tanto intricado, pois envolve
pastas diversas, como a da Secretaria da Cultura e outras. Parece que o
compromisso é o de mais 10 anos de concessão de uso, pois todos os ocupantes
fizeram várias reformas, muito caras, que embelezaram e melhoraram a Lapa,
potencializando o carácter de atracção turística e cultural da região. Tenho
absoluta certeza de que, diante do empenho pessoal do Sérgio Cabral, esta
questão será resolvida com rapidez. – Recentemente o Centro de Teatro do Oprimido passou a
ser um dos Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva do Ministério da
Cultura... Na verdade, é o chamado “pontão”
de cultura. Nós temos a obrigação de apoiar outros centros de cultura pelo
Brasil afora. Há oito regiões nas quais estamos a dar este apoio, e isso
inclui Moçambique e Guiné-Bissau; os pontos de cultura de cada uma delas
inscrevem-se e mandam representantes para que ensinemos todas as técnicas de
Teatro do Oprimido para que eles próprios as desenvolvam nos seus pontos de
cultura. Assim, somos um ponto de cultura propriamente dito, com actividades
dentro do nosso centro, e também somos um “pontão de cultura”, como fomos
apelidados por este carácter multiplicador. – Como isso impacta o vosso
trabalho? Este convénio veio absolutamente
ao encontro dos nossos objetivos que passam pelo desejo de multiplicar tudo
aquilo que é bom do ponto de vista artístico e social. Se o Teatro do
Oprimido está a ser útil em 50 países, no Brasil ele tem que ser mais útil
ainda, tem que se multiplicar e disseminar-se. Neste sentido, estamos
inteiramente sintonizados com o Ministério da Cultura. – A iniciativa partiu de vocês ou do Ministério da
Cultura? Partiu do MinC. Nós já tentávamos
fazer isso sem meios nem recursos para tanto. O Gilberto Gil teve, então, a
ideia luminosa de colocar em prática aquilo que era um desejo nosso desde
1989, na primeira campanha do Lula: todo mundo queria locais para a cultura,
que eles chamavam de “barracões de cultura”, “centros de cultura” e outros
nomes. O Gil baptizou de Pontos de Cultura esta iniciativa democrática,
diferente dos CPCs [Centros Populares de Cultura] que eram formados de cima
para baixo. O que o Gilberto Gil fez foi verificar quais os pontos de cultura
que já existiam sem recursos no Brasil inteiro e deu-lhes recursos para que
se desenvolvessem. – Extrapolando esta questão dos
Pontos de Cultura, qual avaliação você tem da administração do Gil à frente do
Ministério da Cultura durante este primeiro mandato do Lula? O Gil finalmente fez com que o
Ministério da Cultura passasse a existir. Pois, antes, o MinC era uma
organização burocrática que só existia no papel. Eu lembro‑me, por
exemplo, de um facto ocorrido há cinco anos, que ilustra esta questão: num
quartel em São Paulo, havia a obrigatoriedade de um vigia ficar numa torre
sem fazer nada, só olhando. Um belo dia, o vigia teve a brilhante ideia de colocar
um boneco com a farda no seu lugar e deixou‑o lá com espingarda e tudo
e desceu, com roupas de civil, para tratar da vida. O Ministério da Cultura,
até à entrada do Gil, funcionava como aquele vigia, ou seja, não tinha
ninguém lá, só figurativamente, nada se fazia, ou muito pouco se fazia. E o
Gil veio e revelou-se uma surpresa maravilhosa, pois muitos achavam que ele
não ia dar certo, mesmo sendo o grande compositor e cantor que é, muitos
julgavam que ele não teria o mesmo brilho numa função administrativa. – Em termos de projectos
e programas, o que você destacaria na actuação
do Gil no Minc? Além dos Pontos de Cultura que, a
meu ver, foi a acção mais importante, eu destacaria a mudança que se observa
no cenário do cinema nacional. Passamos a ver filmes baianos, pernambucanos
etc. Uma verdadeira descentralização no eixo da produção cultural. Agora, eu
gostaria de ver também filmes do Amazonas, do Tocantins, do Mato Grosso, do Ceará,
do Piauí, etc. Mas o simples facto de já termos visto boas produções
nordestinas já é um enorme avanço. Para não ficar num discurso
apenas laudatório, acho que faltou uma atenção especial à Serra da Capivara,
no Piauí. Trata-se de um inestimável património da humanidade que se encontra
sem recursos de preservação e estudo. Torço para que, neste segundo mandato
do Lula, e do Gil, pois espero que ele continue, uma atenção especial seja
dada ao Parque Nacional da Serra da Capivara e ao Museu do Homem Americano,
além de outros patrimónios semelhantes que se espalham pelo Brasil, como em
Minas Gerais, com as suas cavernas também ricas em inscrições rupestres que
se constituem património da humanidade, além de oferecer um grande potencial
de exploração económica. Quem saberia, por exemplo, da existência de
Altamira, na Espanha, ou Lascaux, na França, se não fossem as cavernas
conservadas e preparadas para a exposição pública? – Quais as suas perspectivas para
o segundo mandato do Lula? Bem, o Lula já prometeu, logo
depois de reeleito, portanto não é promessa de campanha, que este mandato
será muito melhor do que o primeiro. Acho que o primeiro, só com a bolsa
família e outros programas sociais que ele implantou, já representou um passo
gigantesco se pensarmos que 11 milhões de famílias, traduzidas num montante
de 40 milhões de indivíduos, passaram a comer... isso é algo inestimável!
Agora ele promete que será muito melhor. Isso deve significar que haverá mais
desenvolvimento, mais cultura, mais reforma agrária, mais de tudo aquilo que
estamos há tanto tempo esperando... – Você julga que, no primeiro mandato, ele não teve
condições de atender a estas demandas que promete contemplar agora no
segundo? No primeiro mandato ele teve
condições de arrumar a casa, seja no campo da cultura, das relações
exteriores, da educação, da Polícia Federal, do Ministério da Justiça, da
economia... Agora, como a casa está arrumada, a expectativa é a de que o
avanço seja mais rápido e contemple questões que ainda não foram cabalmente
resolvidas. – Se você fosse recebido pelo presidente Lula em
audiência e pudesse apresentar uma pauta mínima de reivindicações pontuais,
quais seriam? Na cultura, que o Gil permaneça e
multiplique a sua acção, se possível com mais recursos. No campo das Relações
Exteriores, que continue a aproximação com a África, com a Ásia e com a
América Latina. Que se faça a Reforma Agrária com urgência e que se preste
atenção especial ao caso da Serra da Capivara. São tantas coisas urgentes! _____ [1] Eduardo Carvalho, Teatro-Fórum e Teatro Legislativo, Carta Maior, 16/09/2005. [2] www.theatreoftheoppressed.org [3] Manifesto
em solidariedade a Emir Sader, Carta Maior, 01/11/2006. |