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26/10/2006 Rivoluto? José Soeiro Está previsto para o próximo dia 31 o anúncio dos resultados da consulta pública referente às candidaturas a uma gestão privada do Rivoli. Nesse mesmo dia, uma simbólica marcha fúnebre irá ocupar a Praça D. João I: ela representa a forma como a Câmara do Porto pretende enterrar de vez o serviço público associado à cultura e, em geral, qualquer responsabilidade que pudesse ter no âmbito cultural. Mas este luto não significa nenhuma declaração de óbito em relação à defesa do Rivoli e do serviço público. Desse ponto de vista, as 79 horas de ocupação do Rivoli valeram certamente a pena: ajudaram a promover um debate público sobre o papel de um equipamento municipal como aquele, abriram o campo de possíveis das formas de luta e despoletaram a solidariedade de uma cidade demasiado cansada do autoritarismo de Rui Rio. Aqueles que, vindos de tantos lados diferentes, traziam a sopa, a comida ou a água aos ocupantes, traziam consigo também a indignação face à forma como a Câmara estava a lidar com o problema, à sua acção covarde e quase sádica de encarceramento das pessoas. Mas a ocupação teve outros efeitos. Na segunda-feira, alguns dos ocupantes de dentro reuniram-se com a Ministra da Cultura, que, segundo noticiado no Público, se comprometeu a deslocar-se ao Porto para um debate público sobre a natureza e as funções de um teatro municipal como instrumento de uma política cultural. A este nível, nunca é de mais lembrar as três reivindicações dos ocupas face aos patamares mínimos de um serviço público: a garantia de uma gestão do Rivoli não regida por critérios de pura rentabilidade; o acesso ao Rivoli garantido a todos os núcleos de criação artística em todas as artes; a garantia da existência de um serviço de formação continuada de públicos. Aguardemos então efectivamente esse debate público e os compromissos que o Governo assumirá. A forma como, neste conflito, foi hesitando, ora oferecendo-se para mediar o problema, ora lavando as mãos com o pretexto de que só a Câmara deverá falar sobre o Rivoli, ora recorrendo ao discurso conservador sobre a ilegalidade da forma de luta, não augura nada de especialmente prometedor... Na semana passada, foram muitas as vozes que se juntaram na rua à razão dos ocupantes. Se alguém quis em algum momento caricaturar o protesto como uma excentricidade de um qualquer grupo de intelectuais ociosos, as mais de 10 mil assinaturas do abaixo-assinado promovido pelo Movimento Juntos no Rivoli [1], que ontem foi entregue na Assembleia Municipal, falam por si: este é um protesto generalizado na cidade, que envolve milhares de pessoas que recusam a alienação de um equipamento que lhes pertence e que se opõem a uma gestão contabilística da cultura. Se na terça-feira a cidade estará de luto, será apenas de forma simbólica. A RIVOLUTA continua! _______ [1] Ver http://www.juntosnorivoli.com. Mais pormenores em Helena Teixeira da Silva, 10797 lutam pelo Teatro Rivoli, JN 26/10/2006. (n. IA) |