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Mundo

Julho 2005

 

Palavras para compreender

 

Le Monde diplomatique

 

XIISMO

 

O xiismo é o principal ramo dissidente do islão. As divergências com o sunismo maioritário são nele menos importantes do que os elementos comuns, a começar pela crença num Deus único e na mensagem de Maomé. O xiismo constituiu-se em torno de uma questão fundamental: a sucessão do profeta Maomé. Após a morte deste, em 632, os primeiros califas foram designados entre os seus próximos. Ali, primo e genro do profeta, quarto califa, reinou de 656 a 661, data em que, deposto por uma revolta, foi assassinado. A Chi’a, o “partido” de Ali, defendeu os direitos dos seus descendentes contra os califas oficiais. Para retomar uma expressão de Louis Massignon, eles são «os legitimistas do islão».

 

IMÃ

 

O xiismo dividiu-se em várias tendências, que se definem a partir dos imãs – os sucessores de Ali – aos quais se referem. O lugar destes imãs é importante para o xiismo, na medida em que eles são os mais aptos a compreender os ensinamentos de Maomé. O terceiro imã, Hussein, filho de Ali, ocupa um lugar privilegiado. Foi perseguido por Yazid, o califa omíada, e cercado em Karbala, em Outubro de 680. Resistiu durante muito tempo, com os seus setenta e dois companheiros, mas acabou por ser morto. O martírio de Hussein e a sua resistência ao “mau” califa desempenham um papel crucial na mitologia xiita. Todos os anos, durante o mês de muharram, cerimónias expiatórias espectaculares recordam a gesta de Hussein.

 

IMÃ ENCOBERTO

 

Para a maioria dos xiitas – em particular os iranianos, iraquianos e libaneses –, chamados imanitas ou duodecimanos, sucederam-se doze imãs que detinham o poder de Deus, tornando-os infalíveis. O último, Mahamed, desapareceu em 874. Depois de ter comunicado com o mundo exterior, através de mensageiros, “retirou­‑se”, mas permanece vivo: é o imã encoberto.

 

O zaidismo representa um outro ramo, mais moderado, do xiismo. Apenas reconhece cinco imãs, cuja designação se prende sobretudo com as qualidades pessoais que os caracterizavam. Não se encerra, por isso, no legitimismo rígido dos imanitas e rejeita o dogma do imã encoberto. Várias dinastias zaiditas reinaram ao longo da história, em particular no Iémen, em Sanaa, entre 1592 e 1962.

 

Quanto aos ismaelitas, separaram-se devido ao problema da sucessão do sexto imã. Estiveram na origem dos Estados karmates, da brilhante dinastia fatimida do século X no Egipto, da famosa seita dos Assassinos – fundada, na fortaleza de Alamut, no fim do século XI – e da doutrina drusa. Actualmente, é o Aga Khan, 49º imã hereditário, que dirige a principal comunidade ismaelita. Acrescente-se aos drusos a seita heterodoxa dos alauitas, sobretudo presente na Síria, e os alevitas, numerosos na Turquia.

 

VELAYAT-E FAQIH

 

Enquanto se aguarda o fim dos tempos e o regresso do imã encoberto, que virá restaurar um reino de justiça, quem deve guiar a comunidade dos crentes? Para o ayatollah Khomeini, esse papel cabe aos mulás (“teólogos”) e ao faqih (“douto”), vigário do imã encoberto e delegatário da soberania divina.

 

Esta doutrina do “governo do douto”, que atribui aos mulás enormes poderes, e que orienta o poder iraniano, foi e continua a ser contestada por muitos outros ayatollahs.

 

(Estes dados foram extraídos, no essencial, de Alain Gresh e Dominique Vidal, Dicionário do Médio Oriente, Campo da Comunicação, Lisboa, 2003.)