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03/06/2006 Em novo álbum, Neil Young pede deposição de Bush Wilson Sobrinho Living With War,
trigésimo‑segundo álbum de estúdio de Neil Young, é uma colecção de
canções sobre política e guerra. Dito assim, pode até parecer pouco. Mas o
registro que acaba de chegar às lojas brasileiras em CD é o maior manifesto
político de um músico com quatro décadas de carreira, que já condenou a forma
como a América foi conquistada e colonizada pelos europeus (“Cortez The
Killer”); atacou a repressão aos movimentos pacifistas dos anos 1970 (“Ohio”);
retratou as mazelas sociais do país que adoptou como lar, os EUA (“Rockin’ In
A Free World”), e é um notório defensor de causas ambientais. Nas nove faixas autorais de Living
With War (Convivendo com a Guerra, em uma tradução livre), o
roqueiro canadense, que mora na Califórnia desde meados da década de 1960,
foca a campanha militar norte‑americana no Iraque. Por 41 minutos e 36
segundos, Young critica a forma como as decisões foram tomadas em Washington;
fala das manifestações antiguerra; defende o diálogo ao lembrar que nem todo
o mundo islâmico está ao lado do terror; retrata famílias vendo os seus
filhos irem para o front e soldados que voltam à terra natal dentro de
caixas de madeira. E, na mais controversa das canções do álbum, “Let’s
Impeach the President”, pede a deposição de George W. Bush. Na música, Young acusa o
presidente norte-americano de mentir para justificar a guerra com o Iraque,
espionar cidadãos norte-americanos «dentro das suas casas» ao «grampear
computadores e telefones» e desperdiçar o dinheiro do povo. Young ainda
ironiza ao perguntar se Nova Orleans, devastada pelo furacão Katrina em Setembro
de 2005, estaria «mais segura» e teria recebido mais atenção do governo, caso
o desastre não tivesse sido motivado por causas naturais e sim por muçulmanos
suicidas. Como que para dar mais peso ao que diz, Young permeou o álbum com
um coral de cem vozes, conduzido pessoalmente por ele e gravado em uma única
sessão de 12 horas. E é em “Let’s Impeach...” onde este coro aparece com mais
força. Em “Lookin’ for a Leader”,
faixa imediatamente posterior a “Let’s Impeach...”, Neil Young dá uma pausa
às críticas e descreve as características de uma liderança para unir e
fortalecer o país. Alguém «correcto e forte», que «está entre o povo»,
sugere. ESPERA EM VÃO «[Este é um disco] sobre
troca de ideias. É sobre fortalecer as pessoas ao dar voz a elas», declarou
Young em Abril, antes do disco ser lançado. «Eu sei que nem todos acreditam
no que eu disse, mas (...) vermelho e azul não são preto e branco. Estamos
todos juntos. É um disco sobre unificação». E, para reforçar essa ideia,
entra a última faixa do álbum, a única que não saiu do punho de Young. Uma
versão vocal para a tradicional canção patriótica norte-americana “America
The Beautiful”. «Estava esperando alguém
jovem, com 18, 22 anos, que escrevesse essas canções», justificou-se ao Los
Angeles Times sobre o intervalo de três anos entre o início da guerra e o
lançamento de LWW – quase
quatro, se contabilizadas as primeiras insinuações de invasão. «Eu esperei
bastante. Então decidi que talvez a geração que tinha que fazer isso ainda
era a geração dos anos 1960», disse Young, que completa 61 anos em Novembro. Para ampliar o poder de
impacto de LWW, Young fez-se valer da Internet para o lançamento do
disco. Antes de chegar em CD nas lojas norte-americanas, o álbum ficou
disponível no seu site oficial [www.neilyoung.com]
em streaming áudio. Porém, ele tomou cuidados para que a polémica em
torno de “Let’s Impeach...” não obscurecesse o resto do trabalho. Para ouvir
o disco, o internauta teria de fazê-lo desde a primeira faixa, sem opção de
avançar as músicas. Uma maneira de compreender o trabalho de maneira ampla,
argumentou ao New York Times. «Ao invés de simplesmente ir a “Let’s
Impeach the President”, as pessoas terão de absorver a coisa como um todo.
Isso protege os meus direitos de artista de ter o trabalho apresentado do
modo que o criei». Apesar da possibilidade de
ouvir o disco na íntegra desde o final de Abril (duas semanas antes do
lançamento oficial) quando LWW chegou às lojas, entrou directo na 15ª posição
da parada de álbuns da Billboard. E, para alegria dos puristas, nesta semana,
ganha uma edição em vinil de 200 gramas nos EUA. A VOLTA DA “OLD BLACK” Porém, mais que um disco de
protesto – ou de reconciliação, como prefere Young – LWW é um álbum de
rock. A enxutíssima banda que o acompanha, formada por Rick Rosas (baixo),
Chad Cromwell (bateria) e Tommy Bray (trompete), é parte da mesma equipa com
quem trabalhara em dois dos álbuns que o reaproximaram do rock após alguns
anos de experimentalismo na década de 1980 – This Note’s for You
[1988] e Freedom [1989]. Desde Mirror Ball
[1995], quando recrutou os músicos do então novato Pearl Jam como sua banda
de apoio, a sua “Old Black” Les Paul não soava tão suja, distorcida e
inquieta para construir riffs. O álbum, que ganhou resenha positiva da
Rolling Stone (cotação de quatro estrelas de cinco possíveis tanto da
revista quanto dos leitores), foi concebido e gravado em menos de duas
semanas – com algumas das faixas gravadas no mesmo dia em que foram escritas.
Isso deu a LWW uma sonoridade crua como a de Broken Arrow
[1996]. Tão crua que alguns críticos chegaram a dizer que o disco parece mal
acabado. Mal acabado ou não, Neil
Young resgata em LWW alguns dos seus mais inspirados momentos
musicais, comparável até mesmo a obras clássicas do seu vasto catálogo. Seja
nos belos backing vocais de “Families”, que remete a álbuns dos anos
1970; nas simples e directas “Flags of Freedom” e “Shock And Awe”, que
poderiam estar em Ragged Glory [1990], ou nas poderosas “Let’s
Impeach...” e “The Restless Consumer”, onde a sua surrada Les Paul dispara
acordes tão potentes quanto as palavras para as quais dá moldura. SITES RELACIONADOS Para ouvir o álbum na íntegra Blog de LWW http://livingwithwar.blogspot.com/
Letras de LWW (em
inglês) http://www.freedomtoexhale.com/lww.htm [em castelhano: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=31175] |