|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
Abril 2005 Da redução das cabeças à
alteração dos corpos Dany-Robert
Dufour * O mercado está em vias de
fabricar, sob os nossos olhos, um novo “homem novo”. Destruindo todas as
formas de lei que representariam um constrangimento para a mercadoria, a
desregulação neoliberal produz efeitos em todas as áreas, e não apenas no
campo económico. O próprio psiquismo humano está a ser perturbado, abalado.
Multiplicam‑se as depressões, os distúrbios da personalidade, os suicídios.
A tal ponto que o mercado já não quer o ser humano tal como ele é. E
socorrendo‑se da clonagem e da engenharia genética, exige doravante,
claramente, a transformação biológica da humanidade. No meu livro L’art de
réduire les têtes [1] tentei evidenciar a profunda reconfiguração das mentes
que o mercado está a levar a cabo. A demonstração é relativamente simples: o
mercado rejeita toda e qualquer consideração (moral, tradicional,
transcendente, transcendental, cultural, ambiental... ) que possa constituir
um entrave à livre circulação mundial da mercadoria. É por isso que o novo
capitalismo procura desmantelar todos os valores simbólicos em benefício do
valor monetário da mercadoria, tido como neutro. E visto agora existir apenas
um conjunto de produtos que se trocam estritamente com base no seu valor mercantil,
os homens têm de livrar‑se de todas essas sobrecargas culturais e simbólicas
que antes garantiam as suas trocas. Um bom exemplo de uma tal dessimbolização, resultante do expansionismo do reino da mercadoria, encontra‑se nas notas do euro, de onde desapareceram as efígies das grandes figuras da cultura, as quais, de Pasteur a Pascal, de Descartes a Delacroix, ainda há pouco relacionavam as trocas monetárias com os valores culturais património dos Estados-nação. Nas notas do euro há agora apenas pontes, portas e janelas, tudo coisas que exaltam a fluidez da descultura, sendo os homens solicitados a inclinar-se ante o jogo da circulação infinita da mercadoria. Podemos pois dizer que a lei do mercado consiste em destruir todas as formas de lei que representem um constrangimento relativo à mercadoria. Ao abolir todo o valor comum, o mercado está a fabricar um novo “homem novo”, destituído da sua faculdade de julgar (sem outro princípio que não seja o lucro máximo), levado a usufruir sem desejar (a única redenção reside na mercadoria), formado para todas as flutuações de identidade (deixou de haver sujeito, há apenas subjectivações temporárias, sempre precárias) e aberto a todas ramificações mercantis. Estamos assim perante um aspecto muito peculiar da desregulação neoliberal, o qual, desgraçadamente, ainda não é bem compreendido, embora já produza efeitos consideráveis em todos os âmbitos, em particular no psiquismo humano. De resto, alguns psiquiatras e psicanalistas estão desde já a proceder ao inventário dos novos sintomas decorrentes desta desregulação, tais como a depressão, dependências diversas, perturbações narcísicas, o alargamento da perversão, etc. Esta desregulação de um novo
tipo suscita grandes confusões nos debates actuais. Tem aliás a acompanhá-la
um certo perfume libertário, baseado na proclamação da autonomia de cada qual
e numa expansão da tolerância em todos os campos sociais (entre os quais o
dos costumes), o que tende a fazer crer que estamos a viver um intenso
período de libertação. Na medida em que o antigo patriarcado é extremamente
depreciado, pensa‑se que está em marcha uma revolução sem
precedentes... esquecendo que foi o próprio capitalismo que impôs esta “revolução”,
visando favorecer a penetração da mercadoria nos domínios onde ela ainda não
reinava – nos costumes e na cultura. Karl Marx não se enganou no respeitante a esta feição “revolucionária” do capitalismo: «A burguesia não pode existir sem convulsionar constantemente os instrumentos de produção, e portanto as relações de produção, e portanto as condições sociais no seu todo. Ao invés disso, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores consistia em conservarem inalterado o antigo modo de produção. O que distingue a época burguesa de todas as anteriores é a incessante convulsão verificada na produção, o abalo contínuo de todas as instituições sociais, em suma, a permanência da instabilidade e do movimento. Dissolvem-se assim todas as relações sociais imobilizadas na ferrugem, com o seu cortejo de ideias e opiniões aceites e veneradas; e aquelas que as substituem envelhecem antes mesmo de se fossilizarem. Volatiliza-se tudo o que era sólido e estava bem assente, é profanado tudo o que era sagrado, acabando os homens por se verem obrigados a encarar com os olhos do desengano o lugar que têm na existência, bem como as suas mútuas relações» [2]. Uma tal capacidade de transformar as relações sociais foi levada ao cúmulo pelo presente estado do capitalismo, por vezes chamado, a justo título, “anarco‑capitalismo”. Esta convulsão tem funcionado
tão bem que alguns foram levados a reter apenas, nesta nova forma do
capitalismo, a sua feição “libertária”, “jovem” e “na moda”, entusiasmando‑se
facilmente com a revolução dos costumes que ela introduziu. A confusão é de
tal ordem que chegam a julgar-se muito revolucionários os que se limitam a ir
atrás desta desregulação cultural e simbólica – tenho aqui em mente esse
sector da esquerda na moda que se entusiasma por todas as causas do último
grito. Ora, é isso exactamente o que quer o anarco‑capitalismo, que
gosta, senão da revolução, pelo menos de todas as formas de desregulação
cultural e simbólicas. Todos os anúncios da publicidade o evidenciam. Segundo parece, as populações
pressentem os potenciais grandes perigos que a civilização corre perante
semelhante desregulação simbólica. Mas o Mercado pode recuperar em seu
proveito tudo e mais alguma coisa, vendo-se já a irromper uma quantidade de
grupos que gabam e vendem morais de pacotilha. Ora, seria um erro crucial
deixar o debate respeitante aos valores entregue aos conservadores, quer
estes sejam antigos ou “neo”. Com efeito, se descorarmos este terreno, ele
será ocupado por George W. Bush, pelos tele‑evangelistas e seus
sequazes puritanos, como acontece nos Estados Unidos, ou por populismos
fascizantes, como na Europa. É pois urgente empreender uma nova reflexão
sobre os valores, sobre o sentido da vida em sociedade e sobre o bem comum,
tendo em vista populações confusamente alarmadas com os danos morais
resultantes duma expansão ilimitada do reino da mercadoria. Uma coisa é
certa: se este terreno não for investido, as populações sentir‑se‑ão
tentadas a sucumbir aos que o ocupam de forma tão ruidosa como indevida. QUANDO A CRIATURA INTERFERE
NA SUA CRIAÇÃO Muito nos equivocaríamos, porém,
se restringíssemos o debate a estes aspectos culturais. Torna‑se
manifesto que a reconfiguração das mentes é apenas a primeira fase dum
mecanismo de maior amplitude. Em poucas palavras, a “redução das cabeças” e a
dessimbolização não passam do prelúdio a uma outra profunda redefinição do
homem, que desta feita se aplicará, já não só à sua mente, mas também ao seu
corpo. Uma tal dessimbolização do
mundo surge num momento decisivo da aventura humana; com efeito, é a primeira
vez na história dos organismos vivos que uma criatura consegue ler a escrita
de que é expressão. Ao atingir‑se este ponto, torna-se possível um
acontecimento singular: o momento em que a criatura vai poder retornar à
criação para ela própria se reconstruir, o momento em que a criatura vai interferir
na sua criação e afirmar‑se como seu próprio criador – surgindo assim
o momento inconcebível em que uma espécie poderá intervir no seu próprio
devir, substituindo-se às leis naturais da evolução. É como se a recomendação
humanista feita no Renascimento por um dos seus grandes pensadores, Pico
della Mirandola, tivesse sido ouvida para além de todos os limites. Opondo-se
às antigas formas de dominação absoluta do divino, Pico queria introduzir uma
parte de livre arbítrio humano, chamando o homem a «esculpir a sua própria
estátua» [3]. O apelo foi ouvido por toda a filosofia ulterior, podendo aliás
considerar‑se esta última como um prolongado desenvolvimento do tema
do livre arbítrio humano, da construção do cogito cartesiano ao tema
nietzscheano da morte de Deus, passando pelo ideal crítico do Iluminismo. Ora, o homem actual
encontra-se em vias de ultrapassar esse ideal; se ele de facto está a «esculpir
a sua própria estátua», esta poderá ser uma estátua viva, chamada a
substituir o próprio homem. Notemos, de passagem, que semelhante desígnio de
redefinição das bases materiais da humanidade implicaria o fim da filosofia. Com
efeito, essa realização pressuporia a irremediável transformação de um
empreendimento, incessantemente repetido desde a Antiguidade, de reforma do
espírito (pela ascese, pela busca de autonomia, pela refundação do entendimento),
num desígnio puramente tecnicista de modificação do corpo. Mas se for para
perder a mente, para que servirá obter um corpo novo? Vale a pena levantar esta
questão, visto existir desde já um difuso programa de fabricação de uma “pós‑humanidade”.
Este programa, dissimulado, não é objecto de qualquer publicidade. Isto
porque não convém apavorar os homens; o que convém, acima de tudo, é eles não
compreenderem que são levados a trabalhar em prol da abolição da humanidade –
ou seja, em prol do seu próprio desaparecimento. O capitalismo investiu de
tal forma o mundo do vivo, com o objectivo de nele desenvolver novos espaços
para a mercadoria, que algumas das possíveis consequências que isso poderá
ter na própria humanidade acabaram por atravessar o muro do silêncio. Francis
Fukuyama, o arauto do neoliberalismo, que proclamou, após a queda do Muro de
Berlim, o início do «fim da História» graças ao advento generalizado das
democracias neoliberais, teve de se corrigir, admitindo que o triunfo do
mercado não era o último episódio da história humana, devendo seguir‑se‑lhe
um outro: a transformação biológica da humanidade [4]. Mas o facto de ter
aberto os olhos só lhe permitiu cometer um novo erro de apreciação. Pretende Fukuyama que o
neoliberalismo saberá preservar-nos dessa engrenagem fatal – quando o
neoliberalismo, precisamente por ser aquilo que é, nos leva para esse rumo em
linha recta. Com efeito, sustenta este autor que a democracia de mercado
seria um estado perfeito se não tivesse a ameaçá‑la o desenvolvimento
de certas técnicas: «De facto, uma técnica bastante poderosa para remodelar
aquilo que nós somos poderá ter consequências potencialmente nefastas para a
democracia liberal» [5]. Deixando de haver seres humanos, temos de convir que
a democracia corre o risco de funcionar em vão. Ora, para se evitar
semelhante perigo, bastaria, segundo Fukuyama, que «os países regulassem
politicamente o desenvolvimento e a utilização da técnica». Trata-se duma
piedosa intenção, que não põe a mão na massa e lhe permite silenciar o
essencial: é o mercado que mantém o desenvolvimento sem fim das tecnociências,
as quais, não reguladas, nos arrastam em linha recta para o abandono da
humanidade. De resto, a associação entre
o mercado e as tecnociências é óbvia: visto o mercado implicar o fim de toda
e qualquer forma de inibição simbólica (ou seja, o fim da referência a
qualquer valor transcendental ou moral em benefício exclusivo do valor
mercantil), a manter-se esta lógica nada poderá impedir que o homem se
liberte de qualquer ideia que pretenda conservá-lo no seu lugar nem que ele
saia da sua condição ancestral logo que disponha de meios para isso. Por
conseguinte, não é apenas a ciência, como amiúde se diz, que poderá tornar
possível a realização desse programa, mas sim a ciência juntamente com o
efeito deletério exercido pelo mercado nos valores transcendentais. Temos
pois de fazer a seguinte pergunta: haverá nas nossas democracias pós‑modernas,
em que se pode dizer tudo, uma instância política para decidir se queremos ou
não semelhante mutação? De modo nenhum. Ora, a falta dessa instância
tem muito peso, vendo-se aonde pode levar o programa de fabricação de uma pós‑humanidade:
directamente a uma era de produção de indivíduos ditos superiores que não
foram gerados. E de indivíduos inferiores destinados às tarefas subalternas. A
existência, já banalizada, de organismos geneticamente modificados, deveria
ser motivo de alerta; a curto prazo, poderão começar a fabricar-se, por
clonagem e modificação genética, novas variantes humanas. Sendo até verosímil
que já estejam a ser realizadas experiências nesse sentido, ou que o venham a
ser a breve trecho. Quando chegar esse dia,
teremos passado da pós‑modernidade, época desorientada no desmoronamento
dos ídolos, à pós‑história. Ninguém está em condições de vaticinar o
que isso venha a ser, mas o que isso deixará de ser podemos sem dúvida dizê‑lo.
Tal coisa significa o desfecho de cinco grandes topoi da humanidade: o
fim da humanidade comum, o fim da usual fatalidade da morte, o fim da
individuação, o fim do entendimento (problemático) entre os sexos e a desordem
na sucessão das gerações. O perigo que ameaça a espécie
humana não é unicamente o perigo do eugenismo. O que a curto prazo corre
perigo é também, muito simplesmente, a conservação e perpetuação da própria
espécie, conservação que não procede de si mesma, passando por um quadro
simbólico e cultural. Isto explica-se pelo facto, reconhecido por uma parte
da investigação paleoantropológica, de o homem ser concebível como um ser de
nascimento prematuro, incapaz de atingir o seu desenvolvimento germinal
completo e apesar disso capaz de se reproduzir e de transmitir os seus
caracteres de juvenilidade, normalmente transitórios nos outros animais. A
este respeito, fala-se da neotenia do homem [6], a qual implica que
este animal, inacabado, diferentemente dos outros animais, tem de
aperfeiçoar-se fora da primeira natureza, ou seja, numa segunda natureza,
geralmente chamada cultura. Nesta segunda natureza
encontram-se muitas coisas: deuses, narrativas, gramáticas relativas a qualquer
objecto do mundo (as estrelas, as pedras, os micróbios, a música, a narração,
o cálculo, a subjectividade, a sociabilidade...), uma intensa actividade
protética (todos os objectos que permitem a este animal não acabado habitar o
mundo), leis, princípios, valores... Ora, danificando-se este quadro,
tornando-se imprecisas as leis e os princípios que o regem, podem ocorrer,
não só efeitos individuais e sociais deletérios, mas também ameaças sobre a
espécie, visto nada mais ser suficientemente legítimo para se opor a
manipulações cujo objectivo é transformar a espécie, logo que isso seja
possível. Já começaram a ouvir-se
algumas vozes, inclusive entre a intelectualidade, que acolhem a pretensa boa
notícia de uma próxima mutação do homem. Em particular o filósofo alemão
Peter Sloterdijk, que já se celebrizou ao pronunciar, em fins de 1999, na
Alemanha, uma conferência intitulada Regras para o parque humano [7],
num colóquio dedicado à obra de Heidegger, conferência essa que suscitou uma
grande controvérsia, nomeadamente com Jürgen Habermas. As declarações deste “nietzscheano
de esquerda” parecem muito significativas no respeitante à forma como a
actual desregulação simbólica pode confundir as mentes. Numa outra conferência,
proferida no Centro Pompidou, em Paris, em Março de 2000 [8], Sloterdijk
retomou uma tese de Heidegger, invertendo-a. Já não se tratava de dizer que a
técnica era o «olvido do Ser», mas sim de proclamar que ela contribui para a
«domesticação do Ser», constituindo o atributo maior do homem neoténico [9],
levado a produzir-se ele próprio. Como se a técnica fosse a única conquista
do homem neoténico e o quadro simbólico feito de prescrições e interditos
nunca tivesse existido! Com tais premissas, todas as possíveis consequências
da técnica ficam previamente justificadas. A deliberação moral é aliás tão
pouco levada em conta neste discurso “desinibido” que só a técnica acaba por
poder determinar uma ética – e, note-se, não uma ética qualquer, mas uma «ética
do homem mais elevado», como tal aberta às «automanipulações biotecnológicas». Neste discurso, a ética
consiste assim em pôr de lado qualquer forma de exame moral. Deste modo, o
homem, puxado para fora de si mesmo pelo Ser, teria a responsabilidade de
alterar a sua condição biológica para se abrir à multiplicidade biológica [10].
Ao homem, que nasceu insuficiente e é produto da técnica, só resta, por
conseguinte, levar esta última às suas derradeiras consequências. O velho homem
tem pois de ser rebaptizado «homem primevo» – expressão em que ressoa um
claro eufemismo de «primitivo» (como, por exemplo, em “museu das Artes
Primevas”) –, porque este homem já não passa de um primitivo perante os
homens superiores que hão-de vir. Não se deverá ver, de forma alucinada, o
retorno do Ser na sinistra farsa histórica do nazismo – porque isso não
passou de um lamentável erro do meu querido mestre, parece dizer Sloterdijk. E
agora que o verdadeiro êxtase se apresenta: o homem superior, o autêntico,
está a chegar, e os seus aduladores cantam-no já, policiando o caminho por
onde ele há-de passar. Ora acontece que este caminho
está pejado de «homens primevos» – sendo nisto que reside o problema. Para o
nosso profeta, o velho homem primitivo é manhoso, revelando-se
constitutivamente surdo – passo a citar – ao «potencial generoso» da
transformação «pluriforme». Mais: devido ao seu «egoísmo antigo» ele apenas
serviria para «exercer o poder sobre as matérias‑primas», para «delas
dispor» com vista a subtrai-las às mudanças prometidas – compreendendo-se que
essas tais «matérias-primas» poderão muito bem ser o próprio corpo humano. Este
velho homem não passaria, evidentemente, do «homem do ressentimento», pronto
a provocar «ajuntamentos» para recrutar «populações desinformadas» e a
levá-las para «falsos debates sobre ameaças não compreendidas, sob a batuta
de editorialistas lascivos»... Abaixo, portanto, os velhos «humanólatras» que
pretendem, movidos por «uma histeria antitecnológica», opor-se a esse salto a
que o Ser nos apela, porque, obviamente, não há «nada de perverso» nisso de
alguém querer «transformar‑se por autotécnica»... Estas declarações de Sloterdijk
– por força do seu próprio excesso – revelam-se de grande utilidade,
permitindo compreender que a actual desinibição simbólica não é apenas uma
questão de emancipação dos costumes e de um fim mais ou menos doloroso do
patriarcado. Na realidade, a actual supressão dos interditos revela que
perdura um autêntico projecto pós-nazi sacrificial do humano, orientado pelo
anarco-capitalismo, o qual, ao destruir todas as regulações simbólicas, torna
possível que a técnica avance sozinha até à destruição da humanidade. A CIVILIZAÇÃO DO CONSUMO
TOTAL «O discurso capitalista, como
já dizia o doutor Lacan, é algo de loucamente astucioso (...), funciona às
mil maravilhas, não pode funcionar melhor. Mas, justamente, funciona
demasiado depressa, consome‑se. E tão facilmente se consome, que se
consume» [11]. Resumindo: o verdadeiro problema do capitalismo é ele
funcionar bem demais. De tal forma que um dia terá de acabar por tudo
consumir: os recursos, a natureza, tudo sem excepção – incluindo os
indivíduos que o servem. Na lógica capitalista, notou
Lacan, «o antigo escravo» foi substituído por homens reduzidos ao estado de «produtos»:
«produtos (...) consumíveis tanto como os outros» [12]. Esta observação permite‑nos
compreender o seguinte: é exactamente neste sentido, deveras ameaçador, que
devemos entender as expressões ligeiramente eufóricas que se encontram em
todos os escritos neoliberais – «o material humano», o «capital humano», a
gestão esclarecida dos «recursos humanos», a «boa governança ligada ao
desenvolvimento humano». O anarco-capitalismo propagou
a ideia de que atribuirmo-nos leis é cruel e se limita a uma espécie de
insuportável masoquismo, remetendo cinicamente para o puritanismo
obscurantista as pessoas que tenham necessidade de mais consciência. Convém
todavia lembrar aqui que os filósofos das Luzes, como Jean‑Jacques
Rousseau e Immanuel Kant, diziam que a liberdade em nada mais consiste do que
em obedecer às leis que se estabeleceu para si próprio. Na verdade, temos
necessidade de verdadeiras leis jurídicas e morais, e não de sucedâneos
moralizantes, para finalmente fazer justiça, para salvaguardar o mundo antes
que seja tarde demais, para preservar a espécie humana, que se encontra
ameaçada por uma lógica cega. Acontece porém que nós estamos em vias de
revogar todas as leis – com excepção das do mais forte –, e a continuarmos
nesta funesta direcção entraremos numa crueldade muito mais viva do que a de
termos de nos submeter a leis. Entraremos numa crueldade desconhecida, que
consiste em querer modificar este corpo humano com mais de 100.000 anos. Para
tentar atamancar um outro corpo. ________ * Director de programas no
Colégio Internacional de Filosofia, Paris. Autor, entre outras obras, de On achève bien les hommes, Denoël,
Paris, 2005. [1] Dany-Robert Dufour, L’art de réduire les
têtes. Sur la nouvelle servitude de l’homme libéré à l’ère du capitalisme
total, Denoël, Paris, 2003. [2] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifeste
du Parti communiste, Éditions sociales, Paris, 1976, p. 35. [3] Pic de la Mirandole (1463-1494), Discours
sur la dignité de l’homme, citado por Jean Carpentier, Histoire de l’Europe,
Seuil, Paris, 1990, pp. 224-225. [4] Em “O fim da História dez
anos depois”, Fukuyama repete o seu credo: «A democracia liberal e a economia
de mercado são as únicas possibilidades viáveis para as nossas sociedades
modernas». Mas reconhece uma insuficiência no tocante à sua concepção do fim
da História: «A História não pode terminar enquanto as ciências da natureza
contemporâneas não atingirem o seu termo. E nós encontramo-nos em vésperas de
novas descobertas científicas que, pela sua própria essência, abolirão a
humanidade enquanto tal», Le Monde, 17 de Junho de 1999. [5] Francis Fukuyama, Our Posthuman
Future: Consequences of the Biotechnology Revolution, Picador, 2003. Edição francesa: La Fin de l’homme:
les conséquences de la révolution biotechnologique, La Table Ronde,
Paris, 2002. [6] Ver os trabalhos do
grande antropólogo norte-americano Stephen Jay Gould, O mundo depois de
Darwin (Presença, Lisboa, 1988) e O polegar do panda (Gradiva,
Lisboa, 1990). [7] Peter Sloterdijk, Règles pour le parc
humain, Mille et une nuits, Paris, 2000. [8] Integrada numa colectânea de textos
com o título La domestication de l’être, Mille et une nuits, Paris,
2000. Todas as citações que se seguem são extraídas desta obra. [9] Que mantém os caracteres
larvares ou juvenis. A neotenia é a persistência de caracteres filogenéticos
larvares ou juvenis na fase adulta, como acontece com animais anfíbios. (N. dos
T.) [10] Esta diversificação, na
realidade, já está em curso. A revista norte-americana Science, de 27
de Julho de 2001, relatou que uma equipa americana conseguiu implantar
células estaminais cerebrais humanas em cérebros de fetos do macaco Macaca
radiata por volta da décima segunda semana da sua gestação, podendo essa
implantação levar à criação de símios antropóides cujos cérebros, por conseguinte,
terão sido mecanicamente “humanizados”. [11] Jacques Lacan, “Conférence à l’université
de Milan”, 12 de Maio de 1972, texto inédito. [12] Jacques Lacan, L’envers de ta
psychanalyse, Seuil, Paris, 1991, sessão de 17 de Dezembro de 1969, p.
35. |