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09/02/2006 Vilar de Mouros: Um ponto
vermelho no coração do Minho José Augusto Vilar de Mouros é daquelas
freguesias que tem de ser tratada com respeito quando sobre ela se escreve ou
dela se fala. Encravada no verdejante Vale do Coura, rio que a corta ao meio,
a esta aldeia estão ligados milhares de portugueses de todos os pontos do
País que dos festivais guardam das mais belas recordações da sua existência.
Cercada por arredores politicamente adversos, Vilar de Mouros é gerida pela
CDU desde 1989: é um ponto vermelho‑vivo numa paisagem agarrada ao
verde durante as quatro estações do ano. Carlos Alves, o presidente da Junta
de Freguesia, é um comunista consciente das dificuldades que tem de enfrentar
quotidianamente na gestão da autarquia, dificuldades que não ferem a sua
visão optimista da vida e do futuro. É impossível falar de Vilar de Mouros sem referir o Festival, o mais antigo realizado no nosso país e, por certo, o mais conhecido e procurado. «O festival foi lançados pelo Dr. António Barge, primeiro (em 1965), como festival de folclore, mas fomos nós que o revitalizámos em 1996, trazendo à nossa terra artistas de gabarito internacional», diz-nos Carlos Alves. «Em termos musicais correu bem, mas foi um fracasso no capítulo financeiro e organizativo. O festival prolongou-se uma semana, com jovens vagueando sem dinheiro, sem comida, sem roupa. Lavavam-se no rio, nus. Ora, tudo isto desencadeou uma onda de descontentamento em muita gente da freguesia. Mas em boa hora o relançámos.» Hoje, sublinha o autarca, a
coisas são diferentes, «o festival está consolidado, é acarinhado por todos,
existe o reconhecimento da sua importância para a freguesia, para o concelho
e até para a região». AS ETERNAS DIFICULDADES E
FALTA DE MEIOS O que Carlos Alves nos vai dizer é conhecido, pois acontece a muitas juntas de freguesia da CDU localizadas na jurisdição de câmaras de outro quadrante político. A Câmara de Caminha, por exemplo, é do PSD. «A Câmara empurrou‑nos para um protocolo, mas não assumiu totalmente as suas responsabilidades. Quis apenas assumir um protagonismo que não lhe competia», acusa o autarca de Vilar de Mouros. «O curioso, é que o protocolo de descentralização de meios e competência funcionava desde o 25 de Abril. Agora, acabou, e nem sequer temos meios para limpar as valetas. As dificuldades são muitas». E prossegue: «Há câmaras que têm dinheiro a rodos e esbanjam‑no, enquanto as freguesias recebem uma ninharia do Orçamento do Estado. Por exemplo, o nosso orçamento é de 4.500 contos. Por outro lado, aumentaram-nos o IVA e as prestações sociais com os funcionários». «Muitas» e «imensas» são
palavras a que Carlos Alves recorre para caracterizar as contrariedades. «É
triste conhecermos perfeitamente os problemas da população e nada podermos
fazer por carência de meios. Por falta de dinheiro e descentralização de competências,
estamos manietados na acção nas áreas de acessibilidades, abastecimento de
água e habitação social.» SÓ LICENÇAS PARA CÃES O presidente da Junta de Vilar de Mouros desabafa: «Dá a impressão que querem que a nossa função se limite à passagem de licenças para cães. Quando a Câmara delegava competências, ainda conseguíamos fazer alguma coisa. Agora, delapida dinheiro em obras de duvidosa utilidade, enquanto deixa por solucionar os problemas reais. O esbanjamento de dinheiros públicos deveria ser mais severamente condenado em tribunal. Esta é a minha opinião.» Apesar de tudo, a autarquia
tem vários projectos entre mãos, que Carlos Alves enumera: «Um centro de
apoio à terceira idade, alargamento do cemitério, melhoria das
acessibilidades (que até há pouco era tarefa da nossa responsabilidade, mas a
Câmara está a fazer pressão para a suspender). Entretanto, no domínio da
habitação social, entregámos três casas e gostaríamos de entregar mais, mas
não há dinheiro. Num outro campo de acção, denunciámos o estado precário da
ponte romana e exigimos a construção de outra sobre o Coura, de extrema
necessidade. Aliás, no último mandato, foi muito importante a nossa luta
contra projectos de impacto negativo que nos queriam impor.» Quais? «Por
exemplo, o corte horizontal do monte e viadutos enormes por cima da
freguesia. Com a comissão de moradores, afrontámos essas soluções de impacto
negativo. Fizemos até um protesto de rua, quando da visita de Durão Barroso.
Ainda hoje estou na situação de arguido, porque alguém chamou a GNR por não
termos cumprido todos requisitos exigidos para se levar para a frente a
manifestação.» A TRADIÇÃO ANTIFASCISTA DE
VILAR DE MOUROS Carlos Alves explica assim o
êxito da CDU na freguesia: «Em Vilar de Mouros sempre houve uma tradição
antifascista. Aqui, Humberto Delgado ganhou as eleições presidenciais de
1958. Talvez tivesse contribuído para isso a existência, na aldeia, de um
centro republicano. Por outro lado, também o PCP goza desde há muito de forte
implantação, reforçada após o 25 de Abril. Sempre houve um espírito de
esquerda, para o que muito concorre a base de apoio e organização do
Partido.» O FESTIVAL DOS FESTIVAIS EM
TERRAS PORTUGUESAS Em 1965, Vilar de Mouros recebe o primeiro festival, este limitando-se ao folclore, organizado por António Barge. Três anos depois, o festival evolui para outro género de música, como o indica o nome dos artistas convidados: Zeca Afonso, Carlos Paredes e Manuel Freire. É evidente que a PIDE começou a movimentar‑se, e disso existem documentos de sobra. Todavia, este Festival de
1968 teve algo de histórico, pois nele se encontraram pela primeira vez Zeca
Afonso e Manuel Freire. Num álbum deslumbrante, intitulado «Vilar de Mouros –
35 Anos de Festivais», da autoria de Fernando Zamith, descreve-se assim esse
momento, que todos teríamos gostado de testemunhar. Foi na casa ao cimo do
Caminho de Chêlo, onde se encontravam os verdadeiros “bastidores” do
festival, que Zeca Afonso veio a conhecer Manuel Freire, então um cantor
pouco conhecido que ainda «não sabia nem sonhava» que a sua Pedra
Filosofal iria ter tanto êxito. «Manuel Freire conheceu Zeca Afonso aqui
ao lado, na varanda da nossa casa», conta Isabel Barge. «Tornaram-se amigos e
logo aí o doutor José Afonso, como era oficialmente tratado, convidou Manuel
Freire, então com 26 anos, para cantarem juntos, o que aconteceu duas vezes
na semana seguinte.» Porventura, nada melhor do
que alguns pontos do índice da obra referida para, de forma sucinta, ficarmos
com uma ideia da importância deste festival. Passo a citar: 1971. Elton John e Manfred Mann no
“Woodstock português” 1982. U2, Stranglers e Durutti em
nove dias de loucura controlada 1985. Trovante e
Emílio Cao no molhado 1.º Encontro de Música Popular 1996. Stone Roses e
Madredeus na profissionalização de Vilar de Mouros 1999. Pretenders
estreiam edições anuais no novo recinto 2000. Alanis
Morissette, Iron Malden e Skunk Anansie no “super-cartaz” de todos os
recordes 2001. O ano Neil Young 2002. Manu Chao, Lamb,
Rammstein, Bush e UB40 no festival heterogéneo 2003. O regresso do
rock frenético O Festival de Vilar de Mouros marcou e continua a marcar o panorama musical do nosso país. Impulsionado por pessoas de boa vontade, ele prosseguirá o seu caminho, num ambiente de liberdade e encontro de culturas. |