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30/04/1939 O perigo fascista e o
desemprego * Albert Einstein Retirado de Resistir.info O New York Times
convidou-me a exprimir-me brevemente sobre o perigo fascista. Em resposta a
esse convite envio as linhas que se seguem. Pretendendo ser breve,
exprimir-me-ia de um modo categórico e dogmático que poderia dar uma
impressão de imodéstia. Pedirei, portanto, aos leitores o favor de serem
indulgentes para com a forma das minhas considerações e de não se interessarem
senão pelo seu conteúdo. Quase toda a gente neste país
considera o regime e o modo de vida fascistas um mal contra o qual nos devemos
defender por todos os meios disponíveis. É reconfortante ver os espíritos
concordarem nesse ponto. Mas uma tal unanimidade não existe nem acerca da
natureza desse perigo nem sobre os meios a mobilizar para o afastar.
Exprimirei o meu ponto de vista sobra este assunto nas linhas que se seguem. Eu tive oportunidade de
observar a propagação da epidemia na Alemanha. Não é sem dificuldades nem
reticências que o homem renuncia às suas liberdades e aos seus direitos. Mas
basta que um povo se veja, em grande parte, confrontado com uma situação
insuportável para que se torne incapaz de um julgamento são e se deixe abusar
voluntariamente por falsos profetas. “Desemprego” é a palavra terrível que
designa essa situação. Também o recear do desemprego é igualmente lancinante. A ausência constante de
segurança económica engendra uma tensão que as pessoas são incapazes de
suportar a longo termo. Essa situação será ali pior do que aqui porque, num
país fortemente povoado e dispondo de recursos naturais extremamente limitados,
as flutuações económicas fazem-se sentir com ainda maior dureza. Existe também aqui uma
situação semelhante; o progresso tecnológico e a centralização da produção
provocaram um desemprego crónico e uma parte muito considerável da população
em idade de trabalhar luta em vão para se integrar no processo económico.
Sobreveio desde então que tanto aqui como lá os demagogos encontraram algum
sucesso provisório mas, graças à existência neste país de uma mais forte e
mais avançada tradição política, eles não duraram muito tempo. Estou convencido de que só
medidas eficazes contra o desemprego e a insegurança económica do indivíduo
poderão realmente afastar o perigo fascista. Por certo é necessário
contrariar a propaganda fascista levada a cabo do exterior. Mas é preciso
abandonar a ideia errónea e perigosa de que alcançaremos o fim do perigo
fascista através de medidas puramente políticas. Tudo se passa, pelo
contrário, como quando existe uma ameaça de contágio pela tuberculose. É
certamente bom que existam medidas de higiene impeditivas logo que entremos
em contacto com os germes da doença, mas uma boa alimentação é ainda mais
importante, dado que ela reforça as defesas naturais do indivíduo contra a
infecção. Todos os que se interessam
pela salvaguarda dos direitos cívicos neste país devem, por conseguinte,
estar disponíveis também a procurar de forma sincera uma solução para o
problema do desemprego, tal como devem prestar‑se aos sacrifícios
necessários para a alcançar. É preciso então perguntar se não é justificado
sacrificar uma parte da liberdade económica se isso permitir em contrapartida
garantir a segurança do indivíduo e da comunidade política. Não é preciso
considerar estas questões de um ponto de vista sectário, pois trata‑se
de nos defendermos contra um perigo que a todos diz respeito [1]. O desempregado não sofre
somente por estar privado de bens de primeira necessidade. Ele sente‑se
ainda excluído da comunidade humana. Ele vê recusada a possibilidade de
colaborar no bem-estar geral; não goza de nenhuma consideração, sendo mesmo
percebido como um fardo. É absolutamente natural que ele tenha o sentimento
de que nós procedemos incorrectamente perante ele e que, procurando
desembaraçar‑se por si mesmo, tenha pouco a pouco recorrido a meios
ilegais, a actos criminosos. Mas, se um dentre eles
consegue mesmo assim encontrar um emprego, após um período mais ou menos
longo de desemprego, ele não é mesmo assim um homem livre, porque é
inevitável que receie encontrar‑se, em breve, de novo no desemprego.
Esse estado de tensão bem real dos que têm um emprego, junto ao desemprego
bem real daqueles que perderam o seu, torna as pessoas amargas. Na busca de
uma saída, eles concedem sem discernimento a sua confiança ao primeiro que
chegue a prometer-lhes uma melhoria da sua situação. É aí que reside o perigo
político do desemprego. O perigo de ver o desemprego ameaçar a democracia é
particularmente elevado quando são jovens aqueles que devem suportar essas
amargas decepções; eles preferem não importa que combate à resignação e a sua
falta de experiência torna-os cegos aos perigos e aos riscos que comporta uma
acção irreflectida. É interessante constatar a
que grau a atitude dos homens face ao trabalho se modificou ao longo do
tempo. Quando Adão foi punido, escutou: “Ganharás o teu pão com o suor do teu
rosto” [2]. O trabalho foi‑lhe imposto como castigo e foi por isso
considerado como uma maldição. O castigo do Adão moderno é o de ser
desocupado e privado do seu trabalho. Aquele que tem um trabalho suscita a
inveja. Se considerarmos o progresso económico da humanidade deste ponto de
vista lá se acaba essa bela altivez tanto dá a impressão de termos, ao longo
dos séculos, evoluído. O desemprego é
particularmente cruel em período de crise económica. Muitas pessoas têm por
isso tendência a crer que uma vez ultrapassadas as crises, o desemprego
tenderá também a desaparecer. Isto parece‑me, no entanto, incorrecto.
Mesmo em períodos de prosperity [3] , o desemprego é significativo. É
por isso que penso que podemos, sem riscos de errarmos, abstrair-nos do
fenómeno das flutuações quando reflectimos nas causas do desemprego. Parece-me que a maneira mais
convincente de elucidarmos a questão será recorrer a um modelo simplificado
ao extremo. Imaginemos uma ilha isolada do resto do mundo, na qual a terra
possui um rendimento suficiente para nutrir os seus 300 habitantes. Supondo
que existem 100 campos nessa ilha e que 100 habitantes possuem um campo cada
um, com a condição de que todos os cultivem produz-se mesmo à justa para sustentar
os trezentos habitantes. Para que todo este sistema
funcione de maneira satisfatória aqui está o que deve passar-se: cada
camponês cultiva o seu campo com dois empregados, a quem paga para o ajudarem.
Com o seu salário estes compram aquilo de que têm necessidade para viver. Deste
modo, tudo está em ordem. É então que um dos camponeses
inventa uma ferramenta de trabalho particularmente eficaz que lhe permite
obter do seu campo o rendimento habitual com a ajuda de um só empregado.
Resultado: temos um desempregado e um camponês para o qual o lucro é mais
importante que aqueles seus colegas, porque este último pode vender os seus
produtos mais baratos dado que tem que desembolsar menos em salários. A satisfação é de curta
duração. Ele faz, de facto, aos outros camponeses uma concorrência
desmesurada. Estes vêem-se, deste modo, constrangidos a utilizar por seu
turno a nova ferramenta que ele inventou, o que lhes permitirá também obter
doravante com um só empregado o mesmo rendimento do costume. Mas algo de grave se passou
entretanto. Cem homens são forçados ao desemprego e os camponeses não mais
chegam a desfazer-se de um terço da sua colheita, tanto mais que não existe
mercado exterior. Produzir do mesmo modo de futuro não tem mais sentido
algum. Não existe “procura” correspondente àquilo de que cem homens têm
necessidade para viver. Pode-se, entretanto, produzir quanto muito um pouco
mais que dois terços da quantidade normal a fim de evitar que os 100
desempregados morram de fome e se revoltem. Eis que vejo os meus sensatos
leitores torcerem o nariz de desdém e dizerem que nada percebo de economia.
Esses cem desempregados, pensam, acabarão na realidade por descobrir na sua
miséria um meio de fazer frutificar o seu trabalho utilmente e de receber em
troca dinheiro e pão. Eles poderão, por exemplo, tornar‑se
cabeleireiros, actores, enfermeiros, etc., e dessa forma suavizar a vida da
comunidade. Eis o que é perfeitamente verdadeiro. Mas que este processo não
logra, contudo, compensar o facto de que a necessidade de mão-de-obra baixou
em virtude do aperfeiçoamento do processo, eu o vejo revelar-se na nossa
economia de verdade e não neste exemplo um pouco simplista que escolhi para
clarificar a ideia. Voltemos ainda ao nosso
exemplo! Os nossos trezentos insulares quebraram a cabeça para encontrar uma
forma de se desenvencilharem do desemprego de modo a recriarem o seu paraíso
perdido. Para começar, é evidente que um só camponês não pode contratar duas pessoas
e dividir o tempo de trabalho por dois. Isto porque lhe seria necessário
gastar tanto dinheiro com os salários destes dois empregados que se tornava
impossível a ele sustentar a concorrência dos outros camponeses. De facto, sozinho um camponês
não pode resolver o problema! Mas, todos juntos poderiam consegui-lo, e eis o
que eles determinaram: cada um deles contrataria duas pessoas a meio tempo,
mas com salário completo. A bem dizer, não era indispensável exigir um
salário normal, porque se as pessoas passassem a receber um salário reduzido
a metade os preços dos cereais teriam forçosamente que baixar, eles também,
para metade, e seria oportuno evitar este choc [4] no mundo dos
negócios. Se estas pessoas tivessem
podido dispor, como nós, de um vocabulário erudito elas teriam qualificado
essa solução de “economia planificada” no quadro de uma sociedade
capitalista. No caso da nossa estrutura económica actual, que é eminentemente
complexa, o problema é muito mais complicado; [ainda assim] ele não permanece
[por isso], no essencial, menos o mesmo. Como as pessoas da nossa ilha
estavam longe de serem tão instruídas quanto o somos hoje em dia, não se
encontrará pessoa alguma para combater essa proposição sob o pretexto de que
se trata aqui de um entrave ao direito do cidadão de agir livremente, tal
como o está garantido pela constituição; e, por outro lado, à falta de um Supreme
Cour [5], uma tal diligência não teria, por assim dizer, nenhum sentido. Indiquei, no que precede, o
que é preciso, quanto a mim, procurar o único remédio contra o perigo
fascista. Impormo-nos voluntariamente limites em favor de uma ordem cuja
necessidade reconhecemos é, na verdade, em geral, o meio mais eficaz para
chegar ao mais alto grau possível de liberdade e de segurança, inclusive no
domínio da política internacional. _____ * Artigo publicado no número
especial (para a Feira internacional) do New York Herald, de
30/Abril/1939. Einstein intitulou primeiramente a sua contribuição de “O
perigo fascista e os meios de o combater”. [1] No seu manuscrito,
Einstein riscou vinte e quatro linhas, dentre as quais as seguintes: «Hoje em
dia não há ninguém que negue que as concessões da França e da Inglaterra a
Munique desenvolveram a arrogância e a agressividade [da Alemanha e da Itália]». [2] No Génesis, 3, 19. [3] A palavra, em inglês no
original, é assim, ao mesmo tempo, uma alusão ao passado compreendido entre a
Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929, nos Estados Unidos da América. [4] Em francês no texto. [5] O Supremo Tribunal dos EUA. |