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Janeiro 2006 Do holocausto nazi à nova
eugenia no século XXI Andréa Guerra * Embora a produção da bomba
atómica seja sempre lembrada como exemplo da ciência ao serviço da
destruição, há outro igualmente relevante: o desenvolvimento das teorias eugénicas
e o seu aproveitamento por movimentos raciais, culminando no Holocausto nazi
na Segunda Guerra Mundial. A maioria dos geneticistas do
século XXI, quando a genética é assunto rotineiro na mídia, pouco ou nada
sabe sobre a história da eugenia. Conhecê-la, porém, é fundamental em face de
situações concretas da actualidade, como fertilização in vitro,
diagnósticos pré-natal e pré-implantação, aborto terapêutico e clonagem
reprodutiva. Em vista das preocupações sobre a emergência de uma nova
eugenia, é importante rever o passado e aprender com os erros cometidos. O MOVIMENTO EUGÉNICO Quando em The origin of
species, de 1859, Darwin propôs que a selecção natural fosse o processo
de sobrevivência a governar a maioria dos seres vivos, importantes pensadores
passaram a destilar as suas ideias num conceito novo – o darwinismo social. Esse conceito, de que na luta
pela sobrevivência muitos seres humanos eram não só menos valiosos, mas
destinados a desaparecer, culminou numa nova ideologia de melhoria da raça
humana por meio da ciência. Por trás dessa ideologia estava sir Francis J.
Galton, cujo nome é associado ao surgimento da genética humana e da eugenia. Convencido de que era a
natureza, não o ambiente, que determinava as habilidades humanas, Galton
dedicou a sua carreira científica à melhoria da humanidade por meio de
casamentos selectivos. No livro Inquiries into human faculty and its
development, de 1883, criou um termo para designar essa nova ciência:
eugenia (bem nascer). No início do século XX,
quando as teorias de Darwin eram amplamente aceites na Inglaterra, havia
grande preocupação quanto à “degeneração biológica” do país, pois o declínio
na taxa de nascimentos era muito maior nas classes alta e média do que na
classe baixa. Para muitos, parecia lógico que a qualidade da população
pudesse ser aprimorada por proibição de uniões indesejáveis e promoção da
união de parceiros bem‑nascidos. Foi necessário, apenas, que homens
como Galton popularizassem a eugenia e justificassem as suas conclusões com
argumentos científicos aparentemente sólidos. As propostas de Galton
ficaram conhecidas como “eugenia positiva”. Nos EUA, porém, elas foram
modificadas, na direcção da chamada “eugenia negativa”, de eliminação das
futuras gerações de “geneticamente incapazes” – enfermos, racialmente
indesejados e economicamente empobrecidos –, por meio de proibição marital,
esterilização compulsória, eutanásia passiva e, em última análise,
extermínio. Como salienta Edwin Black no
livro A guerra contra os fracos, «os EUA estavam prontos para a
eugenia antes que a eugenia estivesse pronta para os EUA». O aumento no
número de imigrantes no final do século XIX levou o grupo dominante no país,
os protestantes cujos ancestrais eram oriundos do norte da Europa, a buscar
motivos para exclusão. Encontraram terreno fértil na pseudociência da
eugenia. IMIGRANTES Os eugenistas usaram os
últimos conhecimentos científicos para “provar” que a hereditariedade tinha
papel‑chave em gerar patologias sociais e doença. Os imigrantes
tornaram-se alvos fáceis de defensores dessa nova “ciência”, que empregaram
os achados do movimento eugénico para construir a sua imagem como pessoas
deformadas, doentes e depravadas, encontrando eco em seus contemporâneos nas
ciências sociais e na biologia, entre os quais a eugenia se propagou como
algo considerado perfeitamente lógico. O racismo dos primeiros
eugenistas norte-americanos não era contra não-brancos, mas contra não‑nórdicos,
e as doutrinas de pureza e supremacia raciais eram elaboradas por figuras
públicas cultas e respeitadas. Quando as teorias de Mendel chegaram aos EUA,
esses pensadores influentes acrescentaram um verniz científico ao ódio racial
e social. O líder do movimento
eugenista dos EUA foi Charles Davenport, que dirigia o laboratório de
biologia do Brooklin Institute of Arts and Science, em Long Island, instalado
em Cold Spring Harbor. Em 1903, obteve da Carnegie Institution o
estabelecimento de uma Estação Biológica Experimental no local, onde a
eugenia seria abordada como ciência genuína. Em seguida, juntou-se aos
criadores de animais e especialistas em sementes da American Breeders
Association, muitos deles convencidos de que o conhecimento mendeliano sobre
gado e plantas era aplicável a seres humanos. ANTECEDENTES GENÉTICOS O próximo passo de Davenport
foi identificar os que deveriam ser impedidos de se reproduzir. Em 1909 criou
o Eugenics Record Office para registrar os antecedentes genéticos dos norte‑americanos
e pressionar por legislação que permitisse a prevenção obrigatória de
linhagens indesejáveis. Para isso, o grupo concluiu que o melhor método seria
a esterilização, e o estado de Indiana foi a primeira jurisdição do mundo a
introduzir lei de esterilização coercitiva, logo seguido por vários outros
estados. Desde o início, porém, o uso de câmaras de gás estava entre as
estratégias discutidas para eliminação daqueles considerados indignos de
viver. Com o tempo, a eugenia passou
a ser vista como ciência prestigiosa e conceito médico legítimo, disseminada
por meio de livros didácticos e instituições de instrução eugenista. No
primeiro Congresso Internacional de Eugenia, em 1912, líderes de delegações
dos EUA e países europeus formaram o Comité Internacional de Eugenia, que,
posteriormente, deu origem à Federação Internacional de Organizações
Eugenistas, cuja agenda política e científica era dominada pelos EUA, para
onde eugenistas estrangeiros viajavam para períodos de treinamento em Cold
Spring Harbor. Na Alemanha, a eugenia
norte-americana inspirou nacionalistas defensores da supremacia racial, entre
os quais Hitler, que nunca se afastou das doutrinas eugenistas de
identificação, segregação, esterilização, eutanásia e extermínio em massa dos
indesejáveis, e legitimou o seu ódio fanático pelos judeus envolvendo‑o
numa fachada médica e pseudocientífica. Não houve apenas extermínio
em massa de judeus e outros grupos étnicos. Em Julho de 1933, foi decretada
lei de esterilização compulsória de diversas categorias de “defeituosos” e,
com o início da Segunda Guerra Mundial, os alemães considerados mentalmente
deficientes passaram a ser mortos em câmaras de gás. Médicos nazis realizavam
experimentos em prisioneiros nos campos de concentração, e, em Auschwitz,
Mengele dedicou‑se ao estudo de gémeos para investigar a contribuição
genética para o desenvolvimento de características normais e patológicas – de
1.500 pares de gémeos submetidos às suas experiências, menos de 200
sobreviveram. A NOVA EUGENIA DO SÉCULO XXI A revelação das atrocidades
nazis desacreditou a eugenia, científica e eticamente, e fez com que a
palavra desaparecesse abruptamente do uso. No entanto, a eugenia não
desapareceu, mas refugiou‑se em muitos casos sob o rótulo “genética
humana”. O laboratório de Cold Spring Harbor é dirigido hoje por um dos
descobridores da estrutura de dupla hélice do DNA, o geneticista James
Watson, que vem propagando ideias claramente eugénicas. Avanços científicos
vêm sendo direccionados para a identificação de “indesejáveis”, como a
utilização de exames que detectam doenças genéticas por companhias de seguro
e planos de saúde e o uso de bancos de DNA no controle da imigração. À medida que diminui o número
de filhos por casal, pressiona-se para que sejam cada vez mais perfeitos.
Técnicas de diagnóstico pré-natal permitem detectar bebés com problemas
genéticos, e embora a decisão sobre aborto terapêutico seja pessoal,
difunde-se o conceito de que é cruel não levar em conta a qualidade de vida e
que interrompê-la pode ser um acto de amor. Os pais também são levados a
priorizar a qualidade das suas próprias vidas. Como saber, porém, o que faz
com que a vida não mereça ser vivida ou não mereça ser cuidada? FERTILIZAÇÃO IN VITRO Num futuro próximo, se a
eugenia for além dos abortos terapêuticos para de facto projectar bebés que beneficiem
de todos os avanços da genética, provavelmente não fará sentido que a
concepção ocorra da maneira tradicional, mas sim em clínicas de fertilização in
vitro. No final da sua vida, Galton
escreveu um romance chamado Kantsaywhere, em que descrevia uma utopia eugénica.
Após o exame das suas características genéticas, os habitantes de
Kantsaywhere com material genético inferior eram destinados ao celibato em
colónias de trabalho. Os que recebiam um “certificado de segunda classe”
podiam reproduzir‑se “com reservas” e os bem qualificados eram
encorajados a casar entre si. Em 1997, o filme Gattaca esboçava uma versão
moderna de um paraíso eugénico em que a procriação ocorria por fertilização in
vitro e só eram implantados embriões sem defeitos genéticos. Como
salienta o geneticista Nicholas Gillham, Kantsaywhere e Gattaca são lugares
semelhantes e as questões éticas levantadas são as mesmas – a diferença está
em um século de avanços tecnológicos. _______ * Andréa Trevas Maciel Guerra, médica geneticista, é professora titular do Departamento de Genética Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. |