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Setembro 2005 O eticismo de Bernardino
Machado Manuel Machado Sá Marques *
Bernardino Machado,
caricaturado por Jorge Barradas Quando da entrevista que me
foi feita, em Julho passado, por uma equipa do Museu Bernardino Machado,
depois de falar sobre as recordações de infância e do posterior convívio com
meu Avô após o seu regresso do exílio, quer em Mantelães, quer na Senhora da
Hora, o interlocutor perguntou-me: «Tem falado como neto, mas o que pensa de
Bernardino Machado como figura histórica?» De repente fiquei surpreso, porque
a imagem do Avô não se me poderia separar daquela que guardo, cada vez mais
intensamente do Cidadão, do seu amor pela Liberdade e do seu grande respeito
pelo Povo. Bernardino Machado viveu toda
uma longa vida para harmonizar estes dois sentimentos. «Duas forças sobretudo
dominam o mundo, maiores que todas as outras, a liberdade, que é a maior
força singular, e a sociabilidade, que é a maior força colectiva.
Harmonizá-las, eis o problema. Unidas, dão a prosperidade e a grandeza das
nações e da humanidade; separadas, em conflito, a sua decadência e ruína. E
tão condenável é a selvajaria licenciosa que atente contra os laços sociais,
como a escravatura corporativa que sufoque as livres aspirações das almas». «Onde o único soberano é o
povo, só se governa com ele». «A grande massa trabalhadora
reclama da justiça social o bem que lhe é devido, mas não lhe é indiferente
alcançá‑lo de direito ou recebê‑lo de esmola. Repele o caldo da
portaria do convento». «A revolução só o povo tem o
direito de a decretar». A sua figura de cidadão no
alto sentido moral, corresponde a todas as épocas. Bernardino Machado viveu
durante a metade do século XIX e os primeiros 40 anos do século XX, sempre
actuando conforme o seu pensamento. Tinha a força do exemplo quando combatia
a corrupção, a prepotência, as clientelas. «As clientelas não têm dono
certo, pertencem ao Poder». «Para um governo de
privilégios não há problemas nacionais, porque o mal estar geral não é nada,
enquanto não afecte a sorte dos poderosos. Nos momentos críticos vêm então em
nome da ordem falar ao sentimento público, como se não fosse ele o principal
fautor da desordem, ele, que, para viver, cultiva todas as desgraças, a
ignorância, a miséria e o vício. Com um governo assim, os cidadãos dividem-se
em exploradores e explorados, e quase todos os que ascendem na escala social,
abismam-se na corrupção». Homem que sacrificou a sua
vida e a da família (a sua segunda república), com tolerância para com as
pessoas, mas altivamente intransigente nos princípios, batalhando por eles
destemidamente, cerradamente, sem o mínimo desfalecimento, hoje mais que
nunca, tem que ser lembrado como símbolo do político digno. Recordamos que em 1934, já
com 83 anos, editou um opúsculo apelando à unidade na luta antifascista, onde
escreveu: «Não é a paixão comunista, do
bem comum, que rompe os laços íntimos de coesão da sociedade. Seria
paradoxal. Rompe‑os a desalmada reacção. Mas cabem enormes
responsabilidades aos egoístas pusilânimes de todos os que, tudo devendo à
democracia, que os criou, os instruiu e os levou a postos dirigentes, devendo
ser os seus poderosos esteios, ao contrário, renegando-se, abdicando da
indeclinável missão social que lhes compete, se convertem, por medo ou
ignávia, em aliados dos seus inimigos. Eis o que faz com que o povo, isolado,
só, em frente das prepotências flagelantes da reacção, se arregimente em
classe. É ele então ainda, honra lhe seja! quem defende a vida e os foros do
terceiro Estado, que, em tantas procelas perigosas, foi desde os inícios da
nossa nacionalidade a alma ardente da nossa autonomia. Ditadura por ditadura,
prefere a sua. Nem o bem se deve impor, é certo. Mas de quem sobretudo a
culpa?» Todas as citações referidas
exprimem bem o pensamento activo de um político sempre actual – Bernardino
Machado. __________ [*] Ex-membro do Conselho Geral da Ordem dos Médicos de Portugal e primeiro presidente do Sindicato dos Médicos. |