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Portugal |
19/01/2006 Homenagem a Artur Ramos Correia da Fonseca Artur Ramos, falecido na
passada semana, foi homenageado em Julho, no âmbito do Festival de Teatro de
Almada. O texto seguinte foi lido então, por Correia da Fonseca, numa noite
em que a grandeza de Artur Ramos como homem de cultura e como cidadão foi sublinhada.
Na noite de 30 de Novembro de 97, a RTP transmitiu A rapariga de Varsóvia, teleteatro encenado e realizado por Artur Ramos sobre o texto de Mário de Carvalho. Foi, como aliás não surpreendeu, um trabalho de grande qualidade, e decerto a RTP o terá reconhecido, o que não era difícil, pois voltou a transmitir a peça apenas três anos mais tarde. Contudo dez dias antes, a empresa pública de televisão dera ao seu mais antigo realizador efectivo um singular presente de aniversário: obrigara-o a pedir a reforma, a pretexto de que atingira uma idade supostamente avançada. Contudo, era óbvio que Artur Ramos estava profissional e intelectualmente pujante, como aliás foi provado com trabalhos posteriores de diversa ordem, designadamente duas encenações nos palcos do Teatro Nacional D. Maria II e do Centro Cultural de Belém em 1999 e 2002. De facto, o que a RTP então cometeu foi, mesmo para lá da abjecção no plano ético, um acto gravemente esclarecedor quanto ao seu próprio rumo, o da liquidação da TV pública como factor de estímulo e promoção cultural e quanto à sua aversão militante e entranhada a tudo quanto de perto ou de longe tenha a ver com cultura. Nesse quadro, a expulsão de Artur Ramos foi na verdade certeira: ele havia sido desde sempre o homem que na RTP mais obstinada e corajosamente se batera para que a empresa assumisse a tarefa que fundamentalmente lhe cabe: cumprir um Serviço Público de televisão, isto é, ser interveniente activa no combate ao secular défice português nas áreas da cultura e também, em larga medida, do civismo. Por isso, de resto, era aquela de facto a terceira vez que Artur Ramos era demitido da RTP. A primeira havia sido em 61, a coberto da motivação assumidamente política: já então Artur Ramos era militante do PCP na clandestinidade, aliás evidente sinal de coragem. A segunda foi em 76, na sequência da repressão política ocasionada pelo 25 de Novembro. A terceira era aquela, mascarada formalmente de não‑renovação de um contrato a prazo. Anuladas as duas primeiras, por iníquas e ilegais, esta seria definitiva. Por mim, como telespectador
desde há muito interessado pela TV e desde há agora mais de trinta e sete
anos a passar, melhor ou pior, por crítico de televisão, fiquei profundamente
indignado e consternado perante a brutalidade praticada pela RTP. É que tenho
como certo que Artur Ramos foi o homem mais brilhante, o profissional mais
completo, que passou pela Radiotelevisão Portuguesa ao longo de toda a sua
existência. Pela vasta bagagem profissional que no tempo certo colheu no
melhor lugar: em Paris, na Radiotelevisão Francesa, nos meados dos anos 50. UM PROFISSIONAL DE QUALIDADE Pela vasta cultura organizada com enorme lucidez. Pela rigorosa e, não evitemos a palavra certa, admirável coerência entre convicções, sabedorias e prática como profissional e como cidadão. Pela coragem, é claro. Ouvindo tudo isto, poder-se-á suspeitar de que o digo porque sou amigo de Artur Ramos. A verdade é que não comecei por aí, pela amizade. Mas quanto a essa eventual suspeita, bem poderei dizer, plagiando um pouco palavras alheias: é verdade que sou amigo de um homem que é um profissional de raríssima qualidade e um cidadão de verticalidade impecável, pois não poderia ser amigo de um profissional medíocre que acumulasse essa condição com a de ser um cidadão de coluna vertebral flexível. E, quanto a matéria de cidadania, bem posso dizer que Artur Ramos é homem de um só parecer, de um só rosto e de uma só fé, para utilizar aqui as palavras sempre actuais do velho Sá de Miranda. Sublinhando, já agora, que se usa cada vez menos ser assim, como bem sabemos todos. Por tudo isto, que está longe de ser tudo, é com muita e intensa alegria que estou aqui, a participar neste “obrigado” colectivo que hoje dirigimos a Artur Ramos e cuja amplitude é reforçada pela presença do senhor secretário de Estado da Cultura. Ficam longe de saldadas as contas que temos em aberto com Artur Ramos e nas quais todos ficamos ainda com enorme saldo devedor. Mas talvez fiquemos um pouco com o sentimento de dever cumprido. O que já não é irrelevante neste tempo que tem vindo a ser construído por gente que não se parece com este homem raro com quem temos o privilégio de estar hoje. |