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Mundo

18/03/2005

 

Discurso de aceitação do prémio Wilfred Owen

 

Harold Pinter

 

Esta é uma verdadeira honra. Wilfred Owen foi um grande poeta. Ele articulou a tragédia, o horror e, de facto, a piedade — da guerra — de um modo que nenhum outro poeta fez. Contudo, não aprendemos nada. Quase 100 anos depois da sua morte, o mundo tornou­‑se mais selvagem, mais brutal, mais impiedoso.

 

Mas dizem­‑nos que o “mundo livre” (tal como é encarnado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha) é diferente do resto do mundo, pois as nossas acções são ditadas e sancionadas por uma autoridade moral e uma paixão moral admitidas por alguém chamado Deus. Algumas pessoas podem achar isto difícil de compreender, mas para Osama Bin Laden é fácil.

 

O que pensaria Wilfred Owen da invasão do Iraque? Um acto bandido, um acto de flagrante terrorismo de estado, demonstrando absoluto desprezo pelo conceito de Direito Internacional. Uma acção militar arbitrária inspirada por uma série de mentiras e mais mentiras e uma manipulação grosseira da mídia e, portanto, do público. Um acto com a intenção de consolidar o controle militar e económico americano do Médio Oriente, disfarçado — como último recurso (tendo todas as outras justificações falhado em se justificarem a si mesmas) — como libertação. Uma formidável afirmação de força militar responsável pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes.

 

Um cálculo independente e totalmente objectivo dos mortos civis iraquianos, na revista médica The Lancet, estima que a cifra se aproxima de 100.000. Mas nem os EUA nem o Reino Unido se dão ao trabalho de contar os mortos iraquianos. Como disse, de forma memorável, o General Tommy Franks, do Comando Central dos EUA: «Nós não contamos corpos».

 

Nós levamos a tortura, as bombas de fragmentação, o urânio empobrecido, inumeráveis actos de assassinato aleatório, miséria e degradação ao povo iraquiano e chamamos a isso “levar a liberdade e a democracia ao Médio Oriente”. Mas, como todos sabemos, não fomos recebidos com as previstas flores. O que soltamos foi uma resistência feroz e incessante, confusão e caos.

 

Neste ponto, poderão dizer: e quanto às eleições iraquianas? Bem, o próprio Presidente Bush respondeu a essa pergunta, quando disse: «Não podemos aceitar que possam existir eleições democráticas num país sob ocupação militar estrangeira».

 

Tive que ler essa declaração duas vezes antes de me dar conta de que ele estava a falar do Líbano e da Síria.

 

O que Bush e Blair vêem, na realidade, quando se olham no espelho?

 

Creio que Wilfred Owen compartilharia o nosso desprezo, a nossa repulsa, a nossa náusea e a nossa vergonha tanto pela linguagem como pelas acções dos governos americano e britânico.