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17/09/2005 ‘Marcas
de Sangue’, ‘Colisão’: vidas danadas Eles abraçaram-se desesperadamente. Em seu redor, caiu a escuridão.
Uma única luz ilumina os olhos da miúda. O terror estampou-se neles. Ela está
em pânico. Sabe que a sua paixão, ou compaixão, decidiram por si. E contra
si. Uns minutos antes, ainda tivera escolha. Podia partir, estava de mala
aviada. Mas algo lá dentro – talvez a sua “condição de mulher” – a impediu.
No momento em que poisou os pertences, soube que ficaria com o homem que a
maltratava. Acaba assim, sem fim, Marcas de Sangue, em exibição na
Comuna. Se vive em Lisboa, ou perto, não deixe de ir ver esta produção da
Escola de Mulheres, encenada por Isabel Medina. E se é de longe, arranje
como. “Aquilo” não é teatro, apetece dizer. “Aquilo” é o lado doente das
vidas normais em cima de um palco. À medida que a peça se esvai naquele lugar
onde o fim do mundo se encontra com uma praia no horizonte, o espectador é
impelido a mergulhar dentro de si. Sabe que aquilo está a acontecer em
qualquer outro lugar naquele preciso momento. Daquela maneira bêbada. Ou de
mil modos aproximados. Sem adjectivos e sem a gordura das palavras inúteis, como
no texto de Judy Upton. Aquilo aconteceu com a sua melhor amiga, com a colega
de trabalho, com a vizinha e até à sua pior inimiga. Pior, passou-se consigo.
Ou passa-se. Passa-se, porra! Não prejudica levantar a ponta do véu. A história é muito boa, mas melhor
ainda é o espantoso trabalho dos actores, o modo como nos revolvem. Eles
movimentam-se como se fosse o último dia das suas vidas. Como se dessem
testemunho do que realmente lhes aconteceu. Uma é histérica, mãe e mulher falhada. É a única onde se vislumbra
algo daquilo a que se chama “representação”. Mas que é uma mãe e mulher
falhadas, senão uma actriz de si própria? Ela ilude à filha o vazio da sua
solidão, como se esta o desconhecesse. Outra, é uma mulher vivida com azar aos homens, de luminosa lucidez,
e que prefere copos e camas pouco recomendáveis ao convívio com aquilo em que
se transformou, um farrapo aprisionado pelo medo. Foi parar à residencial
daquela praia, porque o destino aponta sempre o caminho a quem desiste de si
próprio. A residencial pertence a um viúvo alcoolizado que gostaria de ter
sido músico. A culpa que carrega, não a conto. Saiba apenas que se passa – e
como se passa! – mal a garrafa chega a meio. A vítima mais à mão é o filho,
uma bisarma que, incapaz de enfrentar o pai, o imita em cima de quem deseja.
E é neste vespeiro de vidas danadas que aterra Cristina, uma jovem atrevidota
e ainda em estado “normal”, ou seja, apenas mal amada pelos pais, coisa que
noutro lugar talvez tivesse cura. Do quinteto nasce o enredo. A contenção e a precisão milimétrica dos
actores no fio da navalha, sai‑lhes do corpo e da alma. É arrebatador,
porque as fronteiras entre amor e desamor, paixão e ódio, auto‑estima
e compaixão, se encontram sob permanente tensão. O que torna “aquilo” tão
real é o modo como, na doença, aqueles personagens são humanos, ambivalentes.
Como nos fazem rir de ridículos e nos alimentam a raiva. Porque ali estão os
pedaços de nós, os que assistem. Estão ali os homens, doutorados em chantagem
emocional, brutos e estupidamente frágeis. E estão as mulheres, emancipadas,
mas condenadas. No fim, perguntei a Leonor Seixas, 24 anos, a tal dos olhos
estampados de terror, que faria se no lugar da actriz estivesse ela própria.
Ficaria ou não com a besta que a espancara e que desesperadamente procurava
libertar‑se da sua maldição? Ela não soube responder. E eu também não
sei se saberia, porque é fácil falar de cátedra do que só acontece aos outros
até que aterra em nós. É danada a vida, pois é. Este soco de estômago deve ser visto em ligação com um filme que
espero ainda se encontre em exibição: Colisão. É uma narrativa de
histórias soltas ao longo de 24 horas em Los Angeles. O esquema não é
original, nem isso importa. O que conta é o modo como um conjunto de pessoas “normais”,
do lado de cá da “doença”, se confrontam com situações que colocam em causa
as certezas que pensam ter sobre si próprias. Colisão é, em certo
sentido, o oposto de Marcas de Sangue. Mas convergem no modo como
abordam a ambivalência, luminosa e terrível, da condição humana. Como rompem,
ambos, as fronteiras adquiridas sobre normalidade e doença. Já não há coisas
simples. Muito menos nós. Quem goste de “realidade”, liberte-se de novelas e reality shows e dirija-se à sala de cinema ou de teatro mais próxima. Encontrem-se com ela. E encontrem-se. Se tiverem coragem... |