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Mundo

Abril 2005

 

Botero pinta o horror de Abu Ghraib

– Fernando Botero responde a dez perguntas sobre Abu Ghraib –

 

Revista Diners

 


 

No próximo 16 de Junho no Palazzo Venezia, em Roma, o mestre Fernando Botero abre uma grande exposição, que inclui 50 obras sobre as torturas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.

 




Por que decidiu pintar esta série sobre o que aconteceu em Abu Ghraib?

 

Pela ira que senti e que sentiu o mundo inteiro por este crime cometido pelo país que se apresenta como modelo de compaixão, de justiça e de civilização.

 


 

Depois de pintar o horror da violência colombiana contemporânea pensou que tinha algum compromisso de reflectir também este acontecimento de violência mundial?

 

Na arte há que reavaliar sempre as ideias, pôr tudo em causa. Eu sempre acreditei e preguei que a grande arte sempre se fez sobre temas sobretudo amáveis, com muito poucas excepções. E é verdade. Por exemplo, existem milhares de obras feitas pelos impressionistas, e ainda não vi uma que represente um tema dramático. No entanto, situações tão gritantes como a violência na Colômbia e agora a tortura na prisão de Abu Ghraib levam uma pessoa a pensar de forma diferente.

 



 

No momento da gestação ou criação destas novas obras sentiu que existia alguma similitude entre estes dois acontecimentos de horror?

 

Não. A situação é diferente. A violência na Colômbia é quase sempre produto da ignorância, da falta de educação e da injustiça social. O de Abu Ghraib é um crime cometido pelo maior Exército do mundo esquecendo­‑se da Convenção de Genebra sobre o tratamento dos prisioneiros.

 



 

Espera que esta série, que seguramente será polémica, tenha efeito político no mundo?

 

Não. A arte nunca teve esse poder. O artista deixa um depoimento que adquire importância ao longo do tempo se a obra é artisticamente válida.

 


 

Como crê que a comunidade internacional, especialmente a norte­­­‑americana, vai receber esta sua obra tão dramática sobre um acontecimento real e actual?

 

São obras nascidas da ira ante tal horror. O como seriam recebidas não foi uma consideração no momento em que as fazia.

 




Chama a atenção a quantidade de obras que pintou sobre o tema. Como foi o processo de investigação e criação?

 

Sou viciado nas notícias, nos jornais e nas revistas. Além disso, consulto diariamente a Internet e vivo informado. Foram muitas as crónicas escritas sobre o tema, especialmente o magistral artigo aparecido no The New Yorker, o qual revelou a situação que se vivia nas prisões controladas pelos norte­‑americanos. À medida que me ia inteirando sentia mais a necessidade de dizer algo sobre tal horror. O ano passado comecei a desenhar e a pintar, e são já quase cinquenta obras as que fiz sobre o tema.

 




Por qual desses dois géneros de obra que você faz, acredita que irá ser mais recordado na história da arte colombiana e universal?

 

O tempo e a história são grandes palavras com as quais não me quero meter.

 




É possível que no futuro você volte a pintar uma série específica sobre algum tema da actualidade política?

 

É muito possível. Cada vez me sinto mais sensível à injustiça que me faz ferver o sangue.

 




Aparte da exposição em Roma em Junho próximo, que destino terão estes quadros?

 

Estas obras serão exibidas proximamente em dois museus, em Junho em Roma e em Outubro na Alemanha. Não tenho a menor intenção de vendê-las. As mostra­rei onde me convidem a expor, oxalá nos Estados Unidos. Há que não esquecer que a grande maioria dos norte­‑americanos condena a prática da tortura. A imprensa desse país denunciou permanentemente os factos ocorridos em Abu Ghraib.