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23/02/2005 O
azar de um museu nacional Carlos Fiolhais Todos os países desenvolvidos têm um Museu Nacional da Ciência e da
Técnica (basta olhar para o Science Museum, em Londres, na Inglaterra ou para
o Deutsches Museum, em Munique, na Alemanha) e o nosso país tem-no em
Coimbra. Ou melhor tinha-o: foi há pouco tempo extinto na prática! O nosso Museu Nacional da Ciência e da Técnica tem sido vítima de
alguma insensibilidade científica de alguns governos... Eles não sabem ou não
querem saber o que é um património cultural tão importante como o monumental,
o documental ou o artístico, e património científico-tecnológico que
interessa por isso conservar e mostrar ao público. Não há país que se possa
dizer desenvolvido que não trate bem de todo o seu património. Mas o que se tem passado com o aludido museu? Tem uma história que
remonta aos anos 70 quando José Veiga Simão quis reabilitar o seu antigo
mestre de Física na Universidade de Coimbra, o professor Mário Silva, que
tinha sido perseguido politicamente e demitido compulsivamente da função
pública. O museu começou bem com uma orientação forte imprimida pelo seu
primeiro director. Mas cedo se percebeu que o governo, ou melhor, os
sucessivos governos tinham criado uma instituição nacional, mas não estavam
dispostos a dotá-la dos meios necessários para ela vingar. Depois do
falecimento de Mário Silva o museu entrou numa espécie de luta pela
sobrevivência. Poupemos aqui alguns pormenores de uma história conturbada e
pouco brilhante. Mas, no final dos anos 90, o ministro da Ciência e da
Tecnologia José Mariano Gago refundou o museu ao criar anexo a ele e em óbvia
sinergia com ele o Instituto Nacional de História da Ciência e Tecnologia. O
Instituto nunca chegou a arrancar verdadeiramente (e bem preciso era um
enquadramento para a história da ciência e da tecnologia em Portugal) mas o
museu conheceu alguma animação. Temos de lembrar que as forças que estão no
actual governo extinguiram o referido instituto, tentando refundar novamente
o museu (é muita refundação em tão pouco tempo, ilustrando este caso bastante
bem a maneira portuguesa de governar as coisas: cada governo pretende
reformar tudo o que o anterior fez e entretanto reforma‑se ele
próprio, cedendo o seu lugar a outro). Acrescentou-se nessa altura ao museu
desprovido de instituto o nome do prof. Mário Silva, mas esse acréscimo foi
apenas nominal: não significou qualquer reforço de meios, que eram, como
sempre foram, escassos. O nome do professor foi, portanto, invocado em vão. E
a Câmara Municipal de Coimbra aparentemente foi credora ou complacente com
essa má invocação. Se não iam acrescentar nada ao museu, mas antes lhe
estavam a retirar, por que razão é que haveriam de lhe acrescentar aquele
nome? Ou estaria subjacente a ideia peregrina de substituir um museu
nacional, dos poucos que há fora da capital e logo um cuja necessidade é
óbvia, por uma humilde casa-museu? Agora o governo demitido e demissionário resolveu diminuir ainda
mais o Museu Nacional Prof. Mário Silva, diluindo-o num Museu do
Conhecimento, que ninguém conhece e ninguém vai conhecer pois a lei orgânica
do recente Ministério da Investigação Científica e Inovação (muito gostam os
ministros de mudar os nomes às coisas sem lhes acrescentar qualquer
substância!) não vai sobreviver ao Ministério. É azar! Se havia poucos meios
no Museu Nacional, passou a haver ainda menos, até porque a autonomia se
perdeu em favor de uma nova direcção-geral na capital onde já estão muitas...
Ao fazer o que fez, o governo ignorou completamente o projecto acarinhado
pela Universidade e pela Câmara Municipal de Coimbra de relacionar de forma
profícua o Museu Nacional com o Museu de Ciências da Universidade. Com
efeito, a Universidade tem em curso um grande projecto que visa reunir os
seus vários museus de ciência num só. Para albergar a chamada prefiguração do
Museu de Ciências da Universidade estão em bom andamento as obras do “Laboratório
Chimico”, o edifício que o Marquês de Pombal mandou edificar na alta coimbrã
para o ensino da química e que, a nível mundial, foi um dos primeiros a ser
erguido para esse fim expresso. Significativamente o responsável pelo
projecto do Museu de Ciências da Universidade é o prof. Paulo Gama Mota, que
é também director do Museu Nacional da Ciência e da Técnica Prof. Mário Silva
(ou era, pois ele com justificada indignação se demitiu desse lugar). A ideia
era estabelecer uma fundação que tutelasse os dois museus que em Coimbra
estão afinal próximos um do outro e, tanto em espólio como em objectivos,
podem ser complementares. A Universidade de Coimbra exprimiu, através do reitor, o seu
incómodo com a situação que foi criada. O filho do Prof. Mário Silva, o
pintor Mário Silva, também exprimiu publicamente o seu desagrado. Quanto ao
prof. Mário Silva, ele deve estar a dar voltas na campa, logo por azar no ano
em que por todo o mundo se homenageia Einstein e se comemora o Ano Mundial da
Física (é manifestamente injusto fazerem isto a um grande defensor das ideias
de Einstein; Mário Silva ensinou a Teoria da Relatividade nas suas lições de
física e foi até tradutor de um livro de Einstein, O Significado da
Relatividade, recentemente reeditado na colecção Ciência Aberta, na
Gradiva). Por tudo isso, fez bem o director Paulo Gama Mota em chamar
publicamente a atenção para o programa que tinham preparado para a
comemoração do Ano Mundial da Física e que agora se vê prejudicado,
nomeadamente a realização de uma exposição sobre a física no nosso dia a dia
(ela está, por exemplo, presente nos telemóveis que trazemos no bolso ou nos
fornos de microondas que utilizamos em casa) e a montagem em Coimbra da
grande exposição “À Luz de Einstein”, que a Fundação Gulbenkian está a
preparar para Outubro próximo. Não se entende bem o silêncio a este respeito
da Sociedade Portuguesa de Física, que é a responsável pela organização em
Portugal do Ano Mundial da Física. Decerto que está contra a extinção do
museu mas ainda não o disse claramente. Bem farão a Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal se, juntas,
conseguirem que o diploma de extinção não tenha quaisquer efeitos. O nosso
país precisa de mais e melhor ciência, de mais e melhor cultura científica,
de mais e melhores museus de ciência, e não de menos e piores. Por seu lado,
Coimbra também precisa de dizer claramente que a apregoada “descentralização”
tem sido “tirar do centro”! Tiraram agora o Museu Nacional da Ciência e da
Técnica em favor do “Museu do Conhecimento” quando, na auto-estrada à entrada
de Coimbra, as placas anunciam a “Cidade do Conhecimento”. A cidade continua
a não ter uma grande “Casa do Conhecimento” e as pequenas que ainda tem estão
a ser menosprezadas. A insensibilidade em relação à cultura científica não é
só de alguns governos: é também de algumas autarquias. A de Coimbra tem neste
aspecto deixado muito a desejar... _______________ Email do autor: tcarlos@teor.fis.uc.pt |