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02/02/2007
Dominicanos presos pela ditadura assistem à sua história no cinema André Campos Cerca de 60 frades
reuniram-se quinta-feira (25) para ver o filme Baptismo de Sangue,
ainda inédito, que mostra a actuação dos dominicanos contra a ditadura
pós-1964. Entre os presentes, religiosos que foram perseguidos e torturados
pelo regime.
Frades dominicanos em Baptismo
de Sangue «Vocês vão ver que é um filme muito forte», já alertava frei Betto à plateia antes de a projecção começar. «E mais forte foi a realidade», completa. Anualmente, os dominicanos do
Brasil – representantes da Ordem dos Pregadores, fundada há oito séculos por
São Domingos de Gusmão – reúnem-se para uma semana de reflexões sobre os
rumos da actuação religiosa posta em prática pelos seus membros. Este ano,
contudo, os debates sacros foram momentaneamente interrompidos para a revisão
de um passado tão mundano quanto doloroso. No último dia 25, cerca de 60
membros da Ordem foram até ao cinema para assistir a uma exibição fechada de Baptismo
de Sangue, filme ainda inédito no país. A longa-metragem – uma ficção
baseada no livro homónimo de frei Betto – retrata a actuação dos dominicanos
no combate ao regime militar instaurado após o golpe de 1964. Durante os primeiros anos da
ditadura, jovens frades seguidores de São Domingos desempenharam papel
importante na resistência às forças armadas. Deram cobertura à Acção
Libertadora Nacional (ALN), grupo guerrilheiro comandado por Carlos
Marighella – ex-deputado federal e um dos principais opositores do governo.
Os frades defendiam que viver o evangelho era integrar-se na comunidade
através de práticas sociais concretas, que defendessem os injustiçados.
Pagaram alto preço: perseguição, cadeia, tortura e exílio. Em 1969, os freis Ivo e
Fernando foram os primeiros dominicanos a cair. Capturados pela polícia e
submetidos a fortes torturas, acabaram forçados a servir de isca e marcar um encontro
com Marighella. A emboscada revelou‑se um sucesso: após troca de
tiros, morreu o líder da ALN. Frei Tito, então com 24 anos,
foi o próximo dominicano colocado atrás das grades, capturado no próprio
convento dos dominicanos. Cinco dias depois, frei Betto – hoje conselheiro
pessoal do presidente Lula – também foi preso. Estava escondido no Rio Grande
do Sul, ajudando opositores do governo a fugirem do país pela fronteira. Dentre todos esses
religiosos, é a história de frei Tito que o filme aborda com mais
profundidade. Durante 42 dias, ele foi submetido ao pau-de-arara, a choques
eléctricos nos ouvidos e genitais, a socos, pauladas, palmatórias e
queimaduras de cigarro, entre outras perversidades. Em certa ocasião, foi‑lhe
ordenado que abrisse a boca para receber a “hóstia sagrada” (dois eléctrodos
com corrente eléctrica). Teve a boca queimada a ponto de não conseguir falar.
Tentou suicídio nessa época, cortando-se com uma gilete. Os militares, no
entanto, mantiveram‑no vivo e sob tortura psicológica. Em Dezembro de 1970, Tito foi
incluído na lista de presos políticos trocados por um embaixador suíço sequestrado.
Partiu para o exílio, passando pelo Chile e pela Itália antes de se
estabelecer definitivamente na França. Do Brasil, contudo, Tito não saiu sozinho.
Levou consigo a lembrança obsessiva do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu
principal algoz nos porões da ditadura. Alucinava o espectro do seu
torturador e sentia a sua presença entre as árvores do convento de La
Tourette – onde passou a viver. O delegado dava‑lhe ordens: não
entrar, não deitar, não comer... Tito oscilava entre resistir e obedecer. Em
1974, atormentado por essa realidade, o frade enforcou-se numa árvore nos
arredores do convento. HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA Entre os dominicanos
presentes na exibição do filme, muitos participaram activamente dessa
história. Um deles é Xavier Passat, hoje coordenador da campanha de combate
ao trabalho escravo da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Xavier nasceu em
França e viveu em La Tourette nos anos 1970. Acompanhou de perto o calvário
de frei Tito – tendo saído ele próprio, em algumas ocasiões, à sua procura
após as constantes fugas do convento. Para Xavier, ao contrário do
que muitos pensam, o suicídio de Tito não pode ser considerado um acto de
entrega. Na verdade, foi uma tentativa de libertar-se do jugo de Fleury, que
continuava a torturá-lo de dentro da sua mente. Um último acto de resistência
contra a opressão da ditadura, encarnada na figura daquele sinistro delegado.
«Melhor morrer do que perder a vida», havia escrito Tito um pouco antes de
falecer. Frei Oswaldo, hoje director
da Escola Dominicana de Teologia em São Paulo, foi outro a rever o próprio
passado em Baptismo de Sangue. Era ele o dominicano que originalmente
fazia a ponte entre Marighella e os frades. Mas como estava muito exposto, os
seus superiores decidiram enviá-lo para a Europa pouco antes das prisões
começarem. Acolheu Tito quando este veio para França, acompanhou o seu
calvário de perto. Só retornou ao Brasil há oito anos. «Em maior ou menor grau, esse
período foi traumático para os dominicanos envolvidos e para a Ordem no seu
conjunto», explica Oswaldo. «Todos os grandes projectos que nós tínhamos
foram talhados, impedidos de continuar». Entre eles, o frade destaca o
Instituto de Teologia Católica na Universidade de Brasília (UnB) – iniciativa
comandada por frei Mateus que foi abortada – e o extinto jornal de esquerda Brasil
Urgente, também capitaneado por dominicanos. Oswaldo afirma que a
repressão levou a Ordem dos Dominicanos a não acolher nenhum novo membro no
país durante quase quinze anos. «Como iríamos aceitar jovens que, pelo
simples facto de ingressarem, já eram considerados suspeitos?», indaga. Mas já diziam os militares: “apesar de poucos, fazem muito barulho”. Estão hoje espalhados pelos quatro campos do território, envolvidos com diversas organizações religiosas e humanitárias. Combate ao trabalho escravo, defesa dos direitos indígenas, das mulheres e dos presidiários são apenas algumas das linhas de actuação adoptadas pelos seus membros. Segundo Oswaldo, há hoje um
clima de retomada de projectos dominicanos em desenvolvimento no Brasil. A
lembrança daquele passado, no entanto, jamais se apagará da sua memória. «É
curioso. Há tempos na vida, às vezes três, quatro ou cinco anos, em que a
intensidade é tal que parece termos vivido um século», reflecte o frade. A estreia de Baptismo de
Sangue nos cinemas nacionais [do Brasil] está prevista para Abril deste
ano. FICHA TÉCNICA Título Original: Baptismo
de Sangue Género: Drama Tempo de Duração: 110 minutos Ano de Lançamento (Brasil/França):
2007 Estúdio: Quimera Filmes/V&M
do Brasil Distribuição: Downtown Filmes Direcção: Helvécio Ratton Roteiro: Dani Patarra e Helvécio
Ratton, baseado no livro Baptismo de Sangue, de Frei Betto Produção: Helvécio Ratton Música: Marco Antônio
Guimarães Fotografia: Lauro Escorel Direção de Arte: Adrian
Cooper Figurino: Marjorie Gueller e
Joana Porto Edição: Mair Tavares ELENCO Caio Blat (Frei Tito) Daniel de Oliveira (Frei
Betto) Cássio Gabus Mendes (Delegado
Fleury) Ângelo Antônio (Frei Oswaldo) Léo Quintão (Frei Fernando) Odilon Esteves (Frei Ivo) Marcélia Cartaxo (Nildes) Marku Ribas (Carlos
Marighella) Murilo Grossi (Policial Raul
Careca) Renato Parara (Policial
Pudim) Jorge Emil (Prior dos dominicanos) |